A insegurança alimentar é a condição na qual o indivíduo é submetido à falta de acesso ao consumo de alimentos em termos quantitativos ou qualitativos, implicando numa vida não saudável. Importa evidenciar a diferença de estar nutrido e, portanto, com a ingestão adequada de todos os nutrientes requisitados pelo organismo, ou simplesmente alimentado, quando do consumo de alimentos que promovem apenas a saciedade.
Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU, 2025), indicam que 673 a 720 milhões de pessoas enfrentaram fome em 2024 e 2,6 bilhões de pessoas careciam de condição financeira para uma dieta adequada e nutritiva, o que representava cerca de 8,2% e 33% da população mundial, respectivamente.
O mundo em que vivemos apresenta contradições e desigualdades extremas e o desperdício de alimentos continua sendo um grave problema social e ambiental, cuja solução é complexa, mas não impossível. Segundo o Relatório do Índice de Desperdício de Alimentos da ONU (2024), cerca de 1 bilhão de refeições são jogadas fora todos os anos. Tal situação se contrapõe ao 120 Objetivo para o Desenvolvimento Sustentável (ODS), que propõe garantir Padrões de Produção e Consumo Sustentáveis.
Estima-se que em 2024, as perdas e o desperdício de alimentos foram responsáveis pela geração de 8% a 10% das emissões globais de gases do efeito estufa (GEE), ou quase 5 vezes mais que as emissões do setor aéreo, ao custo de US$ 1,0 trilhão.
E a situação no Brasil?
Trazendo o foco para o nosso país, que ocupa o quinto lugar mundial na produção de alimentos, a situação não é menos alarmante. No entanto, para variar, há dificuldades na obtenção de estatísticas confiáveis sobre o assunto. De acordo com O Pacto Contra a Fome (2024), o Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam alimentos, com mais de 55 milhões de toneladas em toda a cadeia produtiva. Considerando que 1 em cada 4 lares brasileiros (ou 18,9 milhões de famílias) convive com a insegurança alimentar (IBGE, 2024), a situação do desperdício nos traz um inconformismo sem precedentes. Parece que a percepção do problema não chama a atenção da sociedade, possivelmente também pela falta de acesso a informações sobre o assunto. O desperdício, as perdas ao longo da cadeia produtiva e o consumo inconsciente são geradores de inflação sobre os preços dos alimentos. Assim sendo, se cada um de nós fizer a sua parte, a contribuição para o coletivo sempre resultará em benefício para todos.
Programas de ação social: problema ou solução para a segurança alimentar?
A população dependente dos programas chamados de distribuidores de renda no Brasil é expressiva. O Bolsa Família, de acordo com informações do Governo Federal, abrangeu 18,84 milhões de famílias, num desembolso total de R$13 bilhões no mês de fevereiro de 2026, para um orçamento de R$158 bilhões, previsto para o referido ano, cerca de 4,5 vezes maior do que no ano de 2017, por exemplo. Sem deixar de considerar a sua importância, duas perguntas são fundamentais: a) Até quando manteremos essa relação de dependência das pessoas com o Estado Brasileiro? b) Qual o impacto dos programas sociais para a ampliação da consciência sobre o desperdício e a educação alimentar?
O Governo Fernando Henrique Cardoso lançou o “Comunidade Solidária” em 1995, com a intenção de, além do apoio aos que necessitavam, promover a qualificação das pessoas para o mercado de trabalho, antevendo que o sistema dependeria cada vez mais de cidadãos preparados, buscando-se assim, de alguma forma, a sua independência pessoal pelo trabalho. Porém, infelizmente as regras para acesso aos programas sociais não obrigam os beneficiários, como contrapartida, a se qualificarem para o trabalho, o que eu considero uma falha grave. Atualmente, segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS, 2024), cerca de 75% das novas vagas com carteira assinada foram ocupadas por integrantes do Cadastro Único, o banco de dados para identificar as famílias de baixa renda, cujo cadastramento é obrigatório para acesso a todos programas sociais. É um número significativo, usado pelo Governo Federal para justificar os benefícios concedidos aos necessitados, que deveriam ser transitórios, como o previsto em 1995. Contudo, um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBEF/FGV, 2025), analisando os efeitos do aumento do valor do Bolsa Família em 2023 (pós-pandemia), concluiu que: “uma em cada duas famílias deixam o mercado de trabalho por causa do recebimento do Bolsa Família. Entre as pessoas que podem receber o benefício, a taxa de participação no mercado de trabalho teve uma queda de 11%, se comparado ao grupo que não está apto a receber o benefício. As chances de estarem ocupados e de terem um emprego formal caíram 12% e 13%, respectivamente, entre os beneficiários recém-incluídos. O impacto é concentrado em homens jovens de 14 a 30 anos, especialmente nas regiões Norte e Nordeste”.
Em conclusão: se o benefício tem gerado melhores condições nutricionais aos que necessitam temos o que comemorar. Por outro lado, o impacto negativo do ócio sobre o sistema econômico em geral nos dá o sinal de alerta sobre a necessidade de mudanças inovadoras na concessão do benefício, para que ele seja social e economicamente sustentável.
Para o necessário aprimoramento dos programas sociais, quem vai ter a coragem de discutir o assunto de forma séria e não populista, principalmente em período eleitoral?
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