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O responsável por popularizar a tela sensível ao toque no dia a dia das pessoas agora faz um alerta à indústria automotiva. Jony Ive, designer do iPhone e do iPad, afirma que touchscreens não são a tecnologia adequada para serem a interface principal de comando em um carro, por exigirem que o motorista desvie o olhar da estrada.
Foi isso que ele disse ao site britânico AutoCar. A crítica vem justamente de quem ajudou a transformar o toque em padrão global de interação digital. Para Ive, o erro está em aplicar, no automóvel, uma solução criada para resolver um problema completamente diferente.
“Nunca teria usado toque como controle principal em um carro”
Segundo Ive, o touchscreen foi desenvolvido para o iPhone com uma lógica clara: criar uma interface de uso geral, capaz de substituir dezenas de botões físicos em um único dispositivo — calculadora, câmera, teclado e navegador, por exemplo.
No carro, porém, a lógica se inverte.
“Eu nunca teria usado toque em um carro para os controles principais. É algo que jamais teria imaginado fazer, porque exige que você olhe para fora da estrada”, afirmou o designer ao Autocar.
Para ele, isso torna a tela sensível ao toque a tecnologia errada para a interface primária no automóvel.
A opinião dele é convergente com a de especialistas da indústria automotiva. “Como não há uma saliência tátil do botão, o condutor precisa tirar os olhos da via para controlar algo pela central multimídia”, disse recentemente Mithermayer Menabo, mentor de tecnologia digital da SAE Brasil, em entrevista ao Jornal do Carro.
A influência do iPhone nos carros — e o exagero
Muitos designers automotivos creditam diretamente ao iPhone de 2007 a explosão do uso de telas nos carros. Hoje, praticamente todos os modelos novos à venda usam algum tipo de touchscreen para central multimídia e funções do veículo.
Em alguns casos, o conceito foi levado ao limite. A Mercedes-Benz é citada como exemplo extremo, com telas que chegam a 39 polegadas, ocupando praticamente todo o painel.
Na avaliação de Ive, o problema é que o toque passou a ser tratado como moda, não como solução funcional.
“O toque começou a ser visto quase como algo fashion. Primeiro era preciso ter uma tela, depois uma maior, depois uma ainda maior”, disse.
Ferrari seguiu caminho oposto
Curiosamente, o discurso de Ive se materializou no projeto mais recente em que ele participou no setor automotivo. O interior do Ferrari Luce elétrico, revelado recentemente, aposta em uma abordagem oposta à tendência dominante.
O modelo traz uma única tela central, usada de forma limitada, cercada por interruptores e botões físicos, cada um com sensação tátil distinta.
“Usamos toque apenas de forma cuidadosa na tela central. A grande maioria das interfaces é de botões físicos. Cada comando tem um formato e um tato diferente, para que você não precise olhar”, explicou.
A ideia, segundo ele, é permitir uso intuitivo, seguro e prazeroso, algo que considera incompatível com menus escondidos em telas.
Indústria começa a rever o caminho
A declaração de Ive reforça um debate que vem ganhando força: o excesso de funções concentradas em telas pode comprometer a segurança e afastar consumidores.
Reguladores europeus já discutem regras mais rígidas para comandos de funções essenciais, como ar-condicionado e desembaçador, justamente por exigirem atenção visual prolongada.
Para Ive, o problema central é que o design automotivo deixou de tentar resolver problemas reais, ao contrário do que aconteceu com o iPhone.
“Hoje, quando projetamos interiores de carros, não parece que estamos tentando resolver problemas do jeito que fizemos com o telefone”, afirmou.
Toque veio para ficar — mas não como protagonista
A crítica não significa o fim das telas nos carros, mas um possível recuo no protagonismo absoluto do touchscreen. A combinação de telas com botões físicos, especialmente para funções essenciais, começa a reaparecer como solução de compromisso entre tecnologia, ergonomia e segurança.
Vindo de quem ajudou a criar a própria cultura do toque, o recado é direto: nem toda tecnologia funciona bem em todo contexto — e o carro é um deles.



