Por Ana Maria Macedo
Amélia, Ana, Maria, Julia, Madalena, Ligia, Iolanda, Luiza, Rita, Rosa, Helena, Joana, Teresa, Terezinha, Renata, você mulher pequena, garota de Ipanema, mulher- eu sei que vou te amar! Mulher cantada, declamada, lembrada, amada, musa inspiradora! Pois bem, quando vi que hoje era o dia da mulher, fiquei pensando que queria falar um pouco sobre mulher. Mas o que ou do quê falar? Lembrei do seriado “Malu Mulher” e duas músicas me convocaram a pensar, a canção tema “Começar de Novo” e uma outra que dizia +- assim, “me diz ai o que é ser menina…”? Decidi então que não ia trazer a história das conquistas da mulher, voto pela primeira vez, primeira deputada, escravidão, preconceito, violência. Resolvi que queria falar sobre a Mulher, da Mulher!
Somente não sabia quão difícil seria, ô tarefinha! Aquele seriado Malu Mulher, 1979-1980, tratava de separação, brigas em casa, insegurança da filha, desarmonia, dificuldades da Malu para se virar sozinha e conseguir manter a casa e sustentar a filha, seu amadurecimento, trabalho e recomeço da vida afetiva. Houve problemas com a censura pelos temas polêmicos, aborto, contraceptivo, divórcio, virgindade, violência no lar, etc. Penso que isso pode servir de cenário para eu falar da mulher!
“Começar de novo e contar comigo, vai valer a pena ter amanhecido sem as tuas garras, sempre tão seguras, sem o teu fantasma, sem tua moldura, sem tuas escoras, sem o teu domínio, sem tuas esporas, sem o teu fascínio”, uma letra que pode muito bem representar o cenário de uma mulher que se separa (ou se desprende?) de um laço, um contrato, uma promessa?
O que é a Mulher, como é a Mulher, quem era e quem é a Mulher, passado e presente?
Nos dicionários, Mulher é feminino de homem, pessoa adulta do sexo feminino, ser humano do sexo feminino capaz de conceber e parir outros seres humanos e que se distingue do homem por essas características (meu marido dizia a uma amiga nossa grávida q o milagre da gestação deve ser uma experiência fantástica a qual o homem nunca vai poder sentir).
E muitos outros tantos sinônimos, parceira sexual do homem, ser frágil, dependente, fútil, superficial, interesseira; cônjuge do sexo feminino, amante, esposa, companheira, concubina, dona-de-casa…
A mulher, um ser único com características, diversidades que a tornam inalcançável, misteriosa e complexa. Há uma música da Rita Lee que diz que “mulher é bicho esquisito.” Então, parece que essas são singularidades que nos permitem mudar, nos transformar e aproveitar as oportunidades que a vida nos oferece constantemente, de sermos outra se não estamos felizes com essa que aqui está.
Em nenhum manual há estabelecido que a mulher deva seguir um modelo e assim se manter por séculos e séculos, amém! Logo, mudar é uma opção pessoal e intransferível.
O que é a Mulher? Nós podemos, eu posso agora ou em qualquer outro momento, olhar pra uma ou para várias mulheres e dizer, eu sei o que vocês são. Vocês são Mulheres! Evidentemente que isto jamais abarca toda extensão do ser que somos, do ser mulher.
Nosso processo de transformação é tão intenso, que amanhã não seremos o que somos hoje e hoje não somos o que fomos ontem (e me refiro somente aos aspectos externos, estéticos); por isso é possível afirmar que a mãe com mais de um filho é uma mãe diferente para cada um. Cada filho tem uma mãe diferente.
E é esse processo ininterrupto de transformação que pode favorecer a que cada mulher se apodere daquilo que sempre foi seu, seus caminhos, sua essência, seus desejos e sonhos. Essa pode ser uma viagem inesquecível, “começar de novo…”.
Penso que as transformações da mulher passam principalmente pela descoberta e apropriação dos “nãos”; o que não somos, o que não queremos, o que não podemos, o que não temos. Como que a completar um mapa desenhado por cada uma!
A mulher tem uma enorme capacidade para ser a mulher que deseja ser!
O primeiro referencial do ser humano é a mulher; nascemos de uma mulher! Alguns têm uma relação de muito fascínio, quase sempre uma presença muito marcante na vida de todos. Há ainda, a presença e o convívio com outras mulheres além da mãe, avós, tias, primas, empregadas e professoras. Esse referencial deixa muitas marcas, boas ou não.
Estas, no imaginário, podem contribuir para que nos comportemos desta ou daquela forma, sem que isso seja inexorável. Repito, é sempre possível mudar, o ser humano é mutável!
Oxalá mulheres e homens passem, após lerem esta escrita descompromissada, valorizar muito o extraordinário ser humano Mulher.
A mulher precisa se apossar de seus caminhos, seu destino, sua essência. Acima de tudo, descobrir e agarrar muito fortemente aquilo que quer!
E somente poderá realizar e alcançar o sonhado e acalentado, aquela que souber e se tornar posseira de seus sonhos e desejos!
Lembremo-nos que há ganhos em todo o processo de transformação, mas também há perdas. Porém é necessário para mudar, usar todo o potencial que há dentro de cada uma, com o objetivo de encontrar a felicidade de verdade!
Há um psiquiatra que se diz fascinado pelo estudo sobre a mulher, e enumera três mitos com os quais as mulheres do passado (de 50- 80 anos) tinham que se haver: – o mito do amor eterno, – o mito da maternidade, – e o mito da capacidade “sagrada” de se doar.
Penso que muitas de nós não conseguiram se livrar desses mitos; o passado está dentro de cada uma e nem sempre é fácil se desfazer dele. Às vezes, sem nos darmos conta “… ainda somos os mesmos e fazemos como nossos pais” (Belchior).
A essência da mulher não está no que ela faz, está no que ela é!
Não confundamos “o que é ser” com o externo, esquecendo do interno. A mãe, a dona de casa, a profissional – são papéis, funções. O ser Mulher é e será sempre em tempo integral, Mulher!
Podemos fazer faxina também (muito presente no nosso dia-a-dia) em nossas vidas; jogar fora o que não serve mais, reformar o que está démodé, limpar bem os cantinhos que ficam escondidos, abrir janelas para arejar e fazer troca do ar. Talvez nos espantemos com o que precisa ser jogado fora…
O homem, evidentemente que o mundo da mulher não é feito exclusivamente de homens, é o companheiro de algumas e não pode ser esquecido quando falamos da Mulher, de Mulher. Ele se beneficiará, a relação será sempre mais saudável, mais forte e mais prazerosa se a Mulher estiver inteira. O nosso homem de cada dia precisa ser olhado e cuidado – “escrevi entre outras coisas que também os homens sofrem de solidão – na medida da solidão (ou da infantilidade) de suas mulheres; que também querem ser amados, ouvidos, olhados, não só criticados e cobrados. Nós mulheres sabemos ser chatas. Insatisfeitas, cobradoras, ásperas ou lamuriosas, frívolas e agitadas, chantagistas: nem sempre companheiras, poucas vezes cúmplices. E deixamos sozinho o nosso homem, que bem ou mal é o que está do nosso lado. Pois se for ruim demais, por que ainda estamos com ele?” (Escritora Lia Luft).
Não estou pregando o feminismo, nem também incentivando separações. Ao falar da mulher, tracei uma linha através do tempo; somos o reflexo do que foram nossas bisavós, avós e mães. A felicidade nem sempre foi constante, algumas não se casaram, mas nem por isso são infelizes. Outras se separaram e outras enviuvaram, mas todas estão vivendo.
Hoje é o dia da Mulher e minha proposta, mesmo sem pontuar, foi deixar as palavras me representarem. Há em mim sempre, um desejo de que a escrita me represente e que as palavras falem por mim e que eu também as possa escutar!
Ana Maria Macedo é Psicanalista



