As eloquentes manifestações e pontos de vista críticos sobre o peso das emissões de gás metano (CH4) na produção de ruminantes nos levam a algumas reflexões importantes.
Inicialmente é fato que o processo de fermentação microbiana dos alimentos consumidos pelos ruminantes, ocorrido principalmente nos compartimentos pré-gástricos, tem como um dos subprodutos o CH4, que é lançado no ambiente através da eructação (vulgarmente conhecida como o arroto do ruminante). No entanto, a produção de CH4 pelos ruminantes (metanogênese) significa uma perda considerável de energia, que pode chegar a até 12%, em função das características do alimento ingerido e da raça do animal. O CH4 é um dos vilões que tem influência sobre o efeito estufa, chegando a ser inúmeras vezes mais danoso do que o gás carbônico (CO2). Porém, enquanto o CO2 pode persistir na atmosfera por centenas de anos, o CH4 pode permanecer por até 10 anos. A comparação é meramente ilustrativa, uma vez que ambos são problemas a serem equacionados e evitados.
A Índia é a detentora do maior rebanho bovino mundial (307,5 milhões), seguida pelo Brasil, com 238,2 milhões de cabeças. Somos os maiores produtores e exportadores de carne bovina certificada do mundo, tendo totalizado 2025 com 11,1 milhões de toneladas (IBGE, 2025), valor 7,5% maior que em 2024. A produção de leite, segundo o IBGE (2025), foi de 27,5 bilhões de litros, tendo apresentado um crescimento de 8,5% em relação à 2024.
A demanda por proteínas de origem animal é crescente e o consumo de carne, leite e derivados (principalmente dos bovinos, bubalinos, caprinos e ovinos) não vai deixar de existir e nem diminuir, em que pesem os movimentos que ideologicamente insistem em tentar desincentivar o seu consumo como um importante nutriente para o desenvolvimento humano.
Medidas mitigatórias devem ser utilizadas para atenuar o problema e, uma das mais importantes reside no adequado manejo alimentar dos animais com foco na redução da produção de CH4 por kg de alimento consumido e, por kg de peso vivo ou de leite produzido.
O papel da ciência para a busca dos meios para mitigar o problema
A ciência avança em busca de meios para reduzir impactos com a produção de ruminantes. Existem trabalhos de pesquisa que comprovam que cada vez que há o planejamento adequado da das dietas, incluindo-se o manejo adequado das pastagens (principalmente as perenes) e das forrageiras consumidas pelos animais, com alta digestibilidade, há uma redução direta do CH4 formado no rúmen. Existem também aditivos que, adicionados à dieta, atuam como inibidores enzimáticos ou reduzem a prevalência de microrganismos geradores de CH4 pelos ruminantes em até 30%. É claro, no entanto, que a avaliação dos indicadores citados não está ao alcance de medições feitas pelos produtores.
Outras fontes de emissão de CH4
Há outros vilões nas emissões de CH4 como no caso dos aterros e lixões. É de fato um absurdo que ainda tenhamos uma situação calamitosa em relação à destinação de resíduos no Brasil e, a existência do Plano Nacional de Resíduos Sólidos é mais uma figura de ficção, cuja implementação caminha a passos de jaboti. A existência de aterros sanitários com tecnologias mais avançadas e que utilizam o gás produzido das fermentações dos resíduos orgânicos é importante. Porém, como não são sistemas herméticos e o vazamento dos gases é frequente, o balanço não é positivo. Mas, a tese de ser melhor que nada prevalece.
A agricultura também tem responsabilidade sobre o aquecimento global. Mas, o uso de tecnologias e a adoção de sistemas agrossilvipastoris (lavoura-pecuária-florestas), por exemplo, é um excelente caminho para a produção sustentável, de tal forma que é possível estimar as emissões provenientes da produção e o efeito mitigatório das medidas tecnológicas compensatórias adotadas. Busca-se, desta forma, o balanço positivo para o meio ambiente.
Os mangues são outro exemplo nas emissões de CH4. Mas, a natureza sempre sendo sábia e sem que haja o efeito destruidor do homem sobre o referido bioma, há o balanço natural positivo, ou seja: o armazenamento de carbono no solo (como mencionado como também um grande vilão na atmosfera) é exponencialmente mais eficaz do que as próprias florestas em terra firme, além da capacidade das plantas dos mangues manterem um equilíbrio entre a produção de CH4 e a sua reincorporação.
A necessária aproximação das instituições de ensino e pesquisa com a iniciativa privada
Enquanto a natureza tem os próprios meios adequados de manter o planeta em equilíbrio, o avanço do homem e da produção tem que ser ponderado pelo conhecimento científico já existente. E, o próprio conhecimento adquirido, tem as suas melhores respostas na própria natureza. Qualquer país que se preze, deve considerar como investimento e não como mero centro de custo os valores despendidos para o desenvolvimento científico e tecnológico. Para tanto, faz-se necessário mudar um pouco a lógica da destinação de recursos, promovendo maior aproximação das instituições de ensino e pesquisa com a iniciativa privada. Nós temos avançado em relação a isso. Mas, ainda temos um logo caminho a percorrer para chegarmos ao senso mais comum.
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