ANO IV

07/06/2026

HojePR

zisman

Entre guerras lá fora e sombras aqui dentro

06/03/2026
estado

A semana começou com o mundo voltando a olhar para o Golfo Pérsico e terminou com o Brasil sendo obrigado a encarar algumas de suas próprias zonas de desconforto político.

Nos primeiros dias, o noticiário internacional foi dominado pela escalada do confronto envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. O que inicialmente parecia mais um episódio de tensão regional rapidamente passou a ser observado com atenção muito maior pelos mercados internacionais. Sempre que o Golfo entra em estado de ebulição, o impacto não permanece restrito ao terreno militar. O preço do petróleo reage, projeções econômicas são revistas e governos passam a recalcular discursos que até então eram feitos sob relativa previsibilidade. Energia, guerra e economia continuam sendo partes da mesma equação.

Enquanto esse pano de fundo internacional ocupava o centro da agenda global, o ambiente político brasileiro produzia seus próprios acontecimentos.

No Congresso Nacional, a semana terminou com a aprovação, na Câmara Federal, da chamada PEC da Segurança Pública. A proposta, discutida ao longo das últimas semanas, foi apresentada como uma tentativa de reorganizar instrumentos de atuação do Estado diante do avanço da criminalidade no país. O debate revelou um ambiente político pressionado por uma sociedade que já não aceita mais respostas vagas para um problema que se tornou cotidiano. Ao mesmo tempo, um tema recorrente nas discussões públicas ficou fora do texto aprovado: a redução da maioridade penal, frequentemente mencionada no debate sobre segurança, acabou não sendo incorporada à proposta que avançou na Câmara.

Mas foi outro episódio que acabou dominando o ambiente político da semana.

A prisão de Vorcaro, inicialmente tratada como mais uma investigação de natureza financeira, ganhou uma dimensão muito mais sensível quando vieram a público as mensagens encontradas em seu telefone celular. O conteúdo das conversas revelou um ambiente de interlocuções que expõe relações de proximidade e influência muito mais compatíveis com métodos subterrâneos do que com a rotina institucional que se espera de uma democracia madura.

O episódio que mais chamou atenção surgiu justamente de uma dessas mensagens. No dia 17 de novembro de 2025, quando Vorcaro foi preso pela primeira vez pela Polícia Federal ao tentar embarcar em Guarulhos, ele enviou uma mensagem a Alexandre de Moraes perguntando se o ministro havia conseguido “bloquear” algo relacionado ao caso. A existência desse contato já seria suficiente para provocar perplexidade. O dado mais perturbador apareceu logo em seguida: três respostas atribuídas a Moraes não puderam ser conhecidas porque foram enviadas em modo de visualização única.

O ministro afirma que nunca recebeu as mensagens. Ainda assim, o episódio abriu uma nova camada de inquietação institucional. Em qualquer sistema judicial consolidado, a hipótese de comunicação direta entre um investigado recém-presos e um magistrado que ocupa posição central no Judiciário já seria suficiente para provocar intenso debate político. Quando parte dessa conversa simplesmente desaparece sob um recurso técnico de visualização temporária, a inquietação naturalmente se amplia.

A semana avançou e trouxe ainda outro elemento inquietante: a tentativa de suicídio do personagem conhecido como “Sicário”, também citado nas investigações. Episódios dessa natureza costumam surgir quando determinadas engrenagens de poder começam a revelar o tamanho real de sua complexidade.

Como se não bastasse, vieram à tona relatos de pressões e tentativas de intimidação dirigidas a jornalistas que investigavam o caso. A liberdade de imprensa costuma ser celebrada em discursos institucionais, mas é nesses momentos que se mede o seu valor real. Sempre que a investigação jornalística começa a incomodar interesses poderosos, surgem também os esforços para silenciá-la.

No final das contas, a semana terminou deixando duas imagens muito claras.

De um lado, um mundo que volta a conviver com tensões geopolíticas capazes de interferir diretamente na economia global. De outro, um país confrontado com episódios que expõem relações pouco transparentes entre dinheiro, poder e influência.

Nenhuma dessas histórias terminou ainda.

Mas a semana deixou uma lembrança que a política costuma ignorar até que seja tarde demais: crises internacionais costumam começar com mísseis. Já certas crises institucionais começam de maneira bem mais silenciosa, muitas vezes com mensagens de celular que alguém imaginou que jamais seriam lidas em público.

Leia outras colunas O Estado das Coisas aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.