ANO IV

14/07/2026

HojePR

LITERATURA

Freida McFadden e Colleen Hoover impulsionam sucesso do thriller feminino nas listas de mais vendidos

10/04/2026
A empregada

logo

Se você entrou em uma livraria brasileira nos últimos meses, deve ter cruzado com alguns livros de Freida McFadden. Se passou pela mesa de mais vendidos, certamente viu A Empregada (Arqueiro) ou ao menos reparou naquela capa azul, com um olho espiando por uma fechadura. Ela é a principal representante de uma nova leva de autoras de thrillers que têm conquistado o mercado editorial e mobilizado leitores, principalmente outras mulheres.

Trailer de ‘A Empregada’ com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried

Segundo levantamento feito pela Nielsen a pedido do Estadão, o livro foi o segundo mais vendido no Brasil na categoria Crime e Suspense em 2024 e em 2025 (no ano passado, foi ainda o terceiro na lista geral de Ficção). Outro livro de Freida também aparece nessa última lista, Nunca Minta (Record).

Só uma autora fica à frente dela: Collen Hoover, outro fenômeno editorial, com Verity (Galera Record), título de ficção mais vendido no Brasil em 2025. Publicado originalmente em 2018, a obra lidera os Crimes e Suspenses mais vendidos desde 2023 e aparece no Top 5 desde 2021.

A presença forte das mulheres nesta lista pode ser surpreendente para quem lembra do período em que autores homens como Dan Brown, Jo Nesbo e Charlie Donlea eram os grandes nomes do thriller. Ou de quando escritoras como C. J. Tudor (única mulher que aparece entre os best-sellers antes da chegada de Colleen Hoover) precisavam usar abreviações que não deixavam claro o gênero de quem escrevia.

Sydney Sweeney em cena de ‘A empregada’ – Foto: Divulgação/Lionsgate

“Me lembro de uma época em que parecia que a maioria dos grandes thrillers era escrita por homens. Na verdade, historicamente, os thrillers eram escritos por homens para homens, com personagens femininas aparecendo apenas como vítimas ou interesses amorosos”, afirma a escritora americana Jennifer Niven.

Ela é autora de dramas voltados para jovens adultos, como Por Lugares Incríveis (Seguinte) e Sem Ar (Seguinte), mas resolveu se arriscar no thriller com seu lançamento mais recente, Quando Nós Éramos Monstros, que chegou ao Brasil pela editora Mood. O movimento do mercado foi uma motivação.

“Hoje em dia, as mulheres estão escrevendo thrillers psicológicos com narradoras que são vilãs, heroínas, inteligentes, diabólicas, pouco confiáveis e complexas. E os thrillers escritos por mulheres ocupam tanto espaço nas listas de best-sellers quanto os demais”, diz ela, citando outras autoras como Lucy Foley, Ruth Ware, Catherine Steadman, Alice Feeney e Adele Parks.

O que mudou?

“Sempre houve ótimas escritoras no gênero suspense/policial, como Agatha Christie, Patricia Highsmith, PD James. Mas, no século 21, livros como A Garota do Trem [Paula Hawkins] e Garota Exemplar [Gillian Flynn] passaram a levar o perigo para dentro do casamento, dentro de casa, e dentro de si mesmo, com suas narradoras não confiáveis e moralmente ambíguas, e com enredos enganadores”, afirma Nana Vaz de Castro, diretora de Aquisições da Arqueiro, que publicou A Empregada.

A editora explica que estes livros deixam de lado investigações policiais e detetives como protagonistas e dão lugar a um “suspense psicológico íntimo, doméstico e mais desconfortável”. O sucesso desses livros veio aliado ao momento em que, “segundo pesquisas, cresce muito o número de leitoras mulheres”. (A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, principal indicativo do tema no País, mostra que as mulheres são 57% do público leitor).

“Aumentam as comunidades de leitores, e as redes sociais ajudam a divulgar exponencialmente essas narrativas em primeira pessoa com conflitos emocionais muito intensos. Com o sucesso, mais obras do gênero passam a ser buscadas”, explica Nana.

Renata Pettengill, editora-executiva de ficção estrangeira da Editora Record, que publicou outros livros de Freida McFadden, como Nunca Minta e A Inquilina, também cita Garota Exemplar, livro publicado em 2012 pela Intrínseca, como “o título que potencializou o crescimento dessa tendência”.

A obra virou um filme em 2014, dirigido por David Fincher e estrelado por Ben Affleck e Rosamund Pike. “A indústria cinematográfica também tende a querer oferecer para os espectadores o que eles desejam, com base nos filmes que veem. A visibilidade que o cinema dá ao livro ajuda a aumentar o alcance do público leitor e vice-versa”, opina a editora.

Cena de ‘Garota Exemplar’, de David Fincher, com Ben Affleck e Rosamund Pike. Livro de Gillian Flynn foi marco no thriller. Foto: 20th Century Studios/Divulgação

É uma via de mão dupla: enquanto esse thriller com protagonismo feminino cresce no mercado editorial, ele também cresce no audiovisual. Especula-se que o filme de A Empregada, lançado em janeiro, tenha arrecadado mais de U$396 milhões ao redor do mundo.

No streaming, os exemplos de séries inspiradas por thrillers escritos por mulheres são muitos: Big Little Lies (HBO), A Última Coisa Que Ele Me Disse (Apple TV+), All Her Fault (Prime Video), A Mulher no Lago (Apple TV+), Pequenos Incêndios por Toda Parte (Disney+) e as mais recentes Scarpetta (Prime Video) e Mulheres Imperfeitas (Apple TV).

‘Mulheres Imperfeitas’: Veja trailer de novo thriller psicológico da Apple TV

Lauren Neustadter, que trabalha na produtora Hello Sunshine, de Reese Witherspoon, responsável por quatro dos seriados citados, diz ao Estadão que o foco da empresa é encontrar histórias em que as mulheres são protagonistas. “Acho que parte do motivo pelo qual essas histórias ressoam com o público feminino é porque queremos nos sentir vistas, queremos nos sentir ouvidas e sabemos o quanto somos capazes e competentes”, diz.

O que atrai os leitores?

Aline Vasconcelos, de 41 anos, é uma dessas leitoras que foi cativada por essas histórias. Biomédica de formação, ela fez parte da equipe que trabalhou no Instituto Butantan durante a pandemia de covid-19, liderando amostras, exames e liberação de laudos. O estresse era alto naquele período, então Aline começou a ler como forma de escapismo.

“Peguei um thriller focado em serial killers e eu fiquei fascinada por aquela leitura. Era aquele tipo de livro que não conseguimos largar. Comecei a procurar mais livros desse gênero e passei a ler mais suspenses. Foi um gênero que me conquistou”, diz Aline. “Essa nova leva de livros faz com que o leitor tenha aquele impulso de começar a ler e só parar quando terminar. Os livros da Freida, como exemplo, eu leio em um dia.”

O amor de Aline pelo gênero cresceu tanto que ela resolveu criar um perfil no Instagram, o @amadothriller, para compartilhar suas leituras. A coisa foi crescendo e, hoje, ela trabalha exclusivamente com o perfil, moderando quatro clubes de leituras (três deles são por assinatura, variando entre R$ 10 e R$ 65). Um dos grupos é dedicado exclusivamente a livros de Freida McFadden.

Aline Vasconcelos, dona da página do Instagram @amadothriller. Foto: Aline Vasconcelos/Acervo Pessoal

“Acho que essas histórias são as que estão fazendo mais sucesso no mercado hoje em dia por essa identificação das mulheres, até com uma forma de curiosidade. Como é que a personagem vai sair dessa? Como é que eu me sairia de uma situação dessa?”, diz Aline.

É a mesma avaliação que faz Samara Buchweitz, publisher do selo Mood, que fez a aquisição do livro de Jenniver Niven citado no início da reportagem. “Existe a questão da representatividade. Temos leitores muito carentes por encontrar vozes que escrevam o que eles estão sentindo”, afirma. Ela diz que isso se traduz também no setor jovem adulto: “Vemos a trama acontecendo numa escola, por exemplo. Em torno do thriller, há vários outros assuntos abordados, como o bullying e o primeiro relacionamento.”

Outro grande atrativo dos thrillers é a agilidade na narrativa. “A Freida, por exemplo, tem um modo de escrita que segue uma fórmula. As histórias dela têm capítulos bem curtos e pouquíssimos personagens”, diz Aline. Para ela, são livros que as pessoas procuram como forma de desestressar no fim de um longo dia.

“Há muitos cliff-hangers, uma sucessão quase interminável de reviravoltas no decorrer da trama e um plot-twist no final que a maioria dos leitores não consegue prever, o que ajuda no boca-a-boca. Os leitores costumam comentar nas redes sociais que, quando começam a ler, não conseguem largar o livro, chegando a virar noites para terminar a leitura”, completa Renata Pettengill, da Record.

Por trás da aquisição de um fenômeno

Formada em medicina, Freida McFadden é na verdade um pseudônimo – a autora não esconde a própria imagem, mas prefere não divulgar seu nome verdadeiro. Americana de 46 anos, ela começou a publicar livros de forma independente e foi ganhando reconhecimento aos poucos, até que seu A Empregada, de 2022, se tornou um fenômeno mundial.

A história acompanha Millie, uma jovem que começa a trabalhar para Nina e Andrew, um casal que mantém segredos sombrios e perigosos – mas a própria Millie também está guardando segredos. O livro foi oferecido para a Arqueiro pelo agente da autora em maio de 2022, mas Nana só leu o livro em setembro. Naquela altura, o romance já tinha sido vendido para 26 países, com direitos para a adaptação comprados.

Freida McFadden, autora de ‘A Empregada’. Foto: Arqueiro/Divulgação

“Percebemos que tínhamos um fenômeno em mãos antes mesmo de lançar nossa edição. Contratamos o livro 2 [O Segredo da Empregada] antes do lançamento do 1. Mas o livro já era um sucesso em muitos países”, conta a diretora de Aquisições da Arqueiro.

O mercado logo correu atrás, e a Record entrou na história. “Nós recebemos dos agentes literários novos títulos da Freida McFadden para avaliar quando a série d’A Empregada havia começado a fazer sucesso, gostamos do que lemos e fizemos a aquisição, pensando no público que havia gostado de A Empregada e estaria querendo ler outros livros da autora, além dos fãs de thrillers cheios de reviravoltas. Quando outros títulos independentes dela, ou seja, fora da série da Empregada, começaram a entrar nas listas de mais vendidos do Brasil e do exterior é que tivemos a prova de que havia se tornado um fenômeno”, finaliza a editora-executiva da Record.

Foto: Daniel McFadden/Lionsgate/Divulgação

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.