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Se você entrou em uma livraria brasileira nos últimos meses, deve ter cruzado com alguns livros de Freida McFadden. Se passou pela mesa de mais vendidos, certamente viu A Empregada (Arqueiro) ou ao menos reparou naquela capa azul, com um olho espiando por uma fechadura. Ela é a principal representante de uma nova leva de autoras de thrillers que têm conquistado o mercado editorial e mobilizado leitores, principalmente outras mulheres.
Trailer de ‘A Empregada’ com Sydney Sweeney e Amanda Seyfried
Segundo levantamento feito pela Nielsen a pedido do Estadão, o livro foi o segundo mais vendido no Brasil na categoria Crime e Suspense em 2024 e em 2025 (no ano passado, foi ainda o terceiro na lista geral de Ficção). Outro livro de Freida também aparece nessa última lista, Nunca Minta (Record).
Só uma autora fica à frente dela: Collen Hoover, outro fenômeno editorial, com Verity (Galera Record), título de ficção mais vendido no Brasil em 2025. Publicado originalmente em 2018, a obra lidera os Crimes e Suspenses mais vendidos desde 2023 e aparece no Top 5 desde 2021.
A presença forte das mulheres nesta lista pode ser surpreendente para quem lembra do período em que autores homens como Dan Brown, Jo Nesbo e Charlie Donlea eram os grandes nomes do thriller. Ou de quando escritoras como C. J. Tudor (única mulher que aparece entre os best-sellers antes da chegada de Colleen Hoover) precisavam usar abreviações que não deixavam claro o gênero de quem escrevia.

“Me lembro de uma época em que parecia que a maioria dos grandes thrillers era escrita por homens. Na verdade, historicamente, os thrillers eram escritos por homens para homens, com personagens femininas aparecendo apenas como vítimas ou interesses amorosos”, afirma a escritora americana Jennifer Niven.
Ela é autora de dramas voltados para jovens adultos, como Por Lugares Incríveis (Seguinte) e Sem Ar (Seguinte), mas resolveu se arriscar no thriller com seu lançamento mais recente, Quando Nós Éramos Monstros, que chegou ao Brasil pela editora Mood. O movimento do mercado foi uma motivação.
“Hoje em dia, as mulheres estão escrevendo thrillers psicológicos com narradoras que são vilãs, heroínas, inteligentes, diabólicas, pouco confiáveis e complexas. E os thrillers escritos por mulheres ocupam tanto espaço nas listas de best-sellers quanto os demais”, diz ela, citando outras autoras como Lucy Foley, Ruth Ware, Catherine Steadman, Alice Feeney e Adele Parks.
O que mudou?
“Sempre houve ótimas escritoras no gênero suspense/policial, como Agatha Christie, Patricia Highsmith, PD James. Mas, no século 21, livros como A Garota do Trem [Paula Hawkins] e Garota Exemplar [Gillian Flynn] passaram a levar o perigo para dentro do casamento, dentro de casa, e dentro de si mesmo, com suas narradoras não confiáveis e moralmente ambíguas, e com enredos enganadores”, afirma Nana Vaz de Castro, diretora de Aquisições da Arqueiro, que publicou A Empregada.
A editora explica que estes livros deixam de lado investigações policiais e detetives como protagonistas e dão lugar a um “suspense psicológico íntimo, doméstico e mais desconfortável”. O sucesso desses livros veio aliado ao momento em que, “segundo pesquisas, cresce muito o número de leitoras mulheres”. (A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024, principal indicativo do tema no País, mostra que as mulheres são 57% do público leitor).
“Aumentam as comunidades de leitores, e as redes sociais ajudam a divulgar exponencialmente essas narrativas em primeira pessoa com conflitos emocionais muito intensos. Com o sucesso, mais obras do gênero passam a ser buscadas”, explica Nana.
Renata Pettengill, editora-executiva de ficção estrangeira da Editora Record, que publicou outros livros de Freida McFadden, como Nunca Minta e A Inquilina, também cita Garota Exemplar, livro publicado em 2012 pela Intrínseca, como “o título que potencializou o crescimento dessa tendência”.
A obra virou um filme em 2014, dirigido por David Fincher e estrelado por Ben Affleck e Rosamund Pike. “A indústria cinematográfica também tende a querer oferecer para os espectadores o que eles desejam, com base nos filmes que veem. A visibilidade que o cinema dá ao livro ajuda a aumentar o alcance do público leitor e vice-versa”, opina a editora.

É uma via de mão dupla: enquanto esse thriller com protagonismo feminino cresce no mercado editorial, ele também cresce no audiovisual. Especula-se que o filme de A Empregada, lançado em janeiro, tenha arrecadado mais de U$396 milhões ao redor do mundo.
No streaming, os exemplos de séries inspiradas por thrillers escritos por mulheres são muitos: Big Little Lies (HBO), A Última Coisa Que Ele Me Disse (Apple TV+), All Her Fault (Prime Video), A Mulher no Lago (Apple TV+), Pequenos Incêndios por Toda Parte (Disney+) e as mais recentes Scarpetta (Prime Video) e Mulheres Imperfeitas (Apple TV).
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Lauren Neustadter, que trabalha na produtora Hello Sunshine, de Reese Witherspoon, responsável por quatro dos seriados citados, diz ao Estadão que o foco da empresa é encontrar histórias em que as mulheres são protagonistas. “Acho que parte do motivo pelo qual essas histórias ressoam com o público feminino é porque queremos nos sentir vistas, queremos nos sentir ouvidas e sabemos o quanto somos capazes e competentes”, diz.
O que atrai os leitores?
Aline Vasconcelos, de 41 anos, é uma dessas leitoras que foi cativada por essas histórias. Biomédica de formação, ela fez parte da equipe que trabalhou no Instituto Butantan durante a pandemia de covid-19, liderando amostras, exames e liberação de laudos. O estresse era alto naquele período, então Aline começou a ler como forma de escapismo.
“Peguei um thriller focado em serial killers e eu fiquei fascinada por aquela leitura. Era aquele tipo de livro que não conseguimos largar. Comecei a procurar mais livros desse gênero e passei a ler mais suspenses. Foi um gênero que me conquistou”, diz Aline. “Essa nova leva de livros faz com que o leitor tenha aquele impulso de começar a ler e só parar quando terminar. Os livros da Freida, como exemplo, eu leio em um dia.”
O amor de Aline pelo gênero cresceu tanto que ela resolveu criar um perfil no Instagram, o @amadothriller, para compartilhar suas leituras. A coisa foi crescendo e, hoje, ela trabalha exclusivamente com o perfil, moderando quatro clubes de leituras (três deles são por assinatura, variando entre R$ 10 e R$ 65). Um dos grupos é dedicado exclusivamente a livros de Freida McFadden.

“Acho que essas histórias são as que estão fazendo mais sucesso no mercado hoje em dia por essa identificação das mulheres, até com uma forma de curiosidade. Como é que a personagem vai sair dessa? Como é que eu me sairia de uma situação dessa?”, diz Aline.
É a mesma avaliação que faz Samara Buchweitz, publisher do selo Mood, que fez a aquisição do livro de Jenniver Niven citado no início da reportagem. “Existe a questão da representatividade. Temos leitores muito carentes por encontrar vozes que escrevam o que eles estão sentindo”, afirma. Ela diz que isso se traduz também no setor jovem adulto: “Vemos a trama acontecendo numa escola, por exemplo. Em torno do thriller, há vários outros assuntos abordados, como o bullying e o primeiro relacionamento.”
Outro grande atrativo dos thrillers é a agilidade na narrativa. “A Freida, por exemplo, tem um modo de escrita que segue uma fórmula. As histórias dela têm capítulos bem curtos e pouquíssimos personagens”, diz Aline. Para ela, são livros que as pessoas procuram como forma de desestressar no fim de um longo dia.
“Há muitos cliff-hangers, uma sucessão quase interminável de reviravoltas no decorrer da trama e um plot-twist no final que a maioria dos leitores não consegue prever, o que ajuda no boca-a-boca. Os leitores costumam comentar nas redes sociais que, quando começam a ler, não conseguem largar o livro, chegando a virar noites para terminar a leitura”, completa Renata Pettengill, da Record.
Por trás da aquisição de um fenômeno
Formada em medicina, Freida McFadden é na verdade um pseudônimo – a autora não esconde a própria imagem, mas prefere não divulgar seu nome verdadeiro. Americana de 46 anos, ela começou a publicar livros de forma independente e foi ganhando reconhecimento aos poucos, até que seu A Empregada, de 2022, se tornou um fenômeno mundial.
A história acompanha Millie, uma jovem que começa a trabalhar para Nina e Andrew, um casal que mantém segredos sombrios e perigosos – mas a própria Millie também está guardando segredos. O livro foi oferecido para a Arqueiro pelo agente da autora em maio de 2022, mas Nana só leu o livro em setembro. Naquela altura, o romance já tinha sido vendido para 26 países, com direitos para a adaptação comprados.

“Percebemos que tínhamos um fenômeno em mãos antes mesmo de lançar nossa edição. Contratamos o livro 2 [O Segredo da Empregada] antes do lançamento do 1. Mas o livro já era um sucesso em muitos países”, conta a diretora de Aquisições da Arqueiro.
O mercado logo correu atrás, e a Record entrou na história. “Nós recebemos dos agentes literários novos títulos da Freida McFadden para avaliar quando a série d’A Empregada havia começado a fazer sucesso, gostamos do que lemos e fizemos a aquisição, pensando no público que havia gostado de A Empregada e estaria querendo ler outros livros da autora, além dos fãs de thrillers cheios de reviravoltas. Quando outros títulos independentes dela, ou seja, fora da série da Empregada, começaram a entrar nas listas de mais vendidos do Brasil e do exterior é que tivemos a prova de que havia se tornado um fenômeno”, finaliza a editora-executiva da Record.
Foto: Daniel McFadden/Lionsgate/Divulgação



