Empresas de médio e pequeno porte têm encontrado dificuldade em implementar práticas de ESG (ambiental, social e governança) sem profissionais especializados, apontam especialistas. Muitas vezes, a responsabilidade recai sobre funcionários de Marketing ou Recursos Humanos, que passam a acumular funções sem preparo específico, o que pode comprometer o resultado das iniciativas.
Segundo Geovana Conti, CEO da start-up curitibana Paresi.Social, que desenvolveu uma plataforma para coleta e análise de dados de impacto social e ambiental, o primeiro passo é entender como a operação da empresa afeta o planeta e a sociedade. As empresas devem olhar para seus impactos além de ações pontuais, como palestras, campanhas de diversidade ou projetos solidários.
Geovana Conti destaca três dúvidas recorrentes para quem assume a gestão de ESG e explica como resolve-las:
1. Por onde eu começo?
Comece olhando para dentro da empresa, entendendo o que muda no planeta e na sociedade uma vez que seu escritório, barracão, fábrica, loja ou casa existe e contrata as pessoas que você contrata, tem os prestadores de serviço ou fornecedores que você tem.
Algumas perguntas básicas precisam ser feitas e respondidas com sinceridade.
- Que tipo de resíduos a operação da sua empresa gera?
- Como estão estruturados os seus planos de cargos e salários?
- Existe diferença salarial entre homens e mulheres?
- Quantas mulheres ocupam cargos de liderança?
- Como está a diversidade racial dentro da empresa?
- Existem programas de desenvolvimento profissional?
- A saúde mental dos colaboradores está sendo considerada?
- Existem canais de escuta entre colaboradores e liderança?
- Como estão as emissões de gases de efeito estufa da operação?
- O consumo de energia e a geração de resíduos estão sendo monitorados?
Mesmo quando falamos de empresas que operam apenas em escritórios ou com equipes em home office, essas questões continuam existindo. A forma como a empresa contrata, remunera, se relaciona com fornecedores e administra seus recursos naturais interfere diretamente no mundo ao seu redor.
Estes são temas sugeridos pela Organização das Nações Unidas (nos ODS), pelos Direitos Humanos e pela Global Reporting Iniciative (GRI), dentre outros organismos internacionais. Ou seja, são temas comuns. Mas, se algum deles não soa confortável ou parece desnecessário, o ESG surgiu justamente para trazer consciência ao legado que estamos deixando no planeta e na sociedade.
Pensando assim, quando a pessoa que está usando o chapéu de sustentabilidade, mas na verdade é gestor(a) de outra área, começa escrever sobre as ações que ela(e) acha que são importantes, na verdade, nem está tão errado assim!
2. Como organizar esses dados?
Depois de iniciar o processo, surge a segunda pergunta: Como organizar todas essas informações? Aqui, o intuito já é o de montar o famoso e muito desejado Relatório ESG. Ou seja, além dos textos sobre as ações, como descrito acima, um relatório que se preze precisa de evidências e provas de que estas informações são reais e auditáveis.
Em se tratando das primeiras tentativas de escrever um relatório de sustentabilidade, por sua conta e risco, ajuda bastante observar algumas fontes de informação, especialmente na parte ambiental. Os dados básicos costumam vir de fontes como contas de energia elétrica, notas fiscais de compra de combustível para veículos e maquinários, certidões emitidas pela prefeitura ou governo estadual e documentos com registros de rota, frota e logística, entre outros.
Na parte social, o ponto de partida geralmente está no RH, onde encontramos dados sobre número de colaboradores, diversidade de gênero e raça, políticas de contratação, programas de aprendizagem, treinamentos e capacitações e condições de trabalho e saúde ocupacional.
Os consultores dirão – e eu concordo – que o melhor mesmo é achar um ou uma consultor(a) que seja de fato muito bom para definir tudo dentro das regras existentes. Mas, na falta de recursos para contratar uma consultoria, guardar os textos das ações e registrar as suas evidências ajuda a conhecer o legado que a empresa está construindo e ajuda a escrever o primeiro relatório de sustentabilidade.
Na prática, organizar essas informações manualmente costuma ser difícil. E sem dados organizados não existe gestão de impacto.
3. Sou obrigado a reportar ESG?
Não necessariamente. Esta é a melhor resposta para as empresas no Brasil nos dias de hoje. Mas vale lembrar que o tema ESG não está mais apenas no campo das boas práticas. Ele começa a entrar de forma mais clara no ambiente regulatório.
No Brasil, a Comissão de Valores Mobiliários já definiu, por meio da Resolução CVM 193, que companhias abertas devem divulgar informações financeiras relacionadas à sustentabilidade para exercícios iniciados a partir do último dia 1º de janeiro de 2026. Na prática, para empresas com ano-calendário, isso significa que os primeiros relatórios obrigatórios tendem a aparecer em 2027, cobrindo o exercício de 2026.
Essas divulgações passam a seguir os padrões internacionais de sustentabilidade alinhados ao IFRS Foundation, incorporados no Brasil pelo CBPS (Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade). Os relatórios devem abordar temas como governança, estratégia, gestão de riscos e métricas relacionadas à sustentabilidade, com requisitos específicos para riscos e oportunidades associados ao clima.
“Essas e outras perguntas, bastante comuns para quem está iniciando a sua caminhada em ESG, estão respondidas de forma detalhada no nosso site https://plataforma.paresi.social. A consulta é uma contribuição nossa para que governos, entidades do Terceiro Setor e empresas em geral tenham ferramentas que apoiem suas iniciativas de forma segura, simples e rápida”, finaliza Geovana.
Foto: Matheus Santanna



