ANO IV

24/06/2026

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MUDANÇA NO TRANSPORTE COLETIVO DE CURITIBA

Linhas de ônibus da família Bertoldi passam para a família Gulin

27/01/2026
mercês

A transferência definitiva das linhas operadas pela empresa Mercês, da família Bertoldi, para o Consórcio Pontual, que reúne as empresas Gloria e Santo Antônio, ambas da família Gulin, marca mais do que uma simples reorganização administrativa no sistema de transporte coletivo de Curitiba.

O movimento encerra um ciclo ligado a uma família que, apesar de tradicional do setor, há pelo menos vinte anos apresentava problemas estratégicos, e redistribui o controle de parte significativa da operação urbana para outra que, há décadas, também molda a mobilidade da capital paranaense.

Trata-se de uma decisão com efeitos técnicos, econômicos e simbólicos que não apenas redesenha o equilíbrio de forças dentro do sistema de transporte coletivo de Curitiba, mas o torna quase um monopólio de uma família.

A trajetória da família Bertoldi no transporte curitibano e o fim do contrato

O rompimento com a Mercês foi determinado pela Urbanização de Curitiba (Urbs), após a constatação de que a empresa já não reunia condições para manter a operação das linhas sob sua responsabilidade.

A Urbs afirma que o objetivo central da decisão é garantir a continuidade do atendimento aos passageiros, preservando horários, itinerários e a regularidade do serviço, ao mesmo tempo em que evita uma ruptura abrupta no funcionamento do sistema.

A saída da Mercês do sistema regular de transporte coletivo da capital representa um golpe profundo para uma empresa que carrega décadas de história.

De propriedade da família Bertoldi, a Mercês consolidou sua presença em Curitiba ao longo da segunda metade do século passado, operando linhas estratégicas e participando ativamente da operação de transporte integrado que tornou a cidade referência nacional e internacional.

Durante muitos anos, a empresa foi associada à estabilidade operacional e à presença constante em bairros tradicionais da cidade. No entanto, nos últimos tempos, a Mercês passou a acumular problemas que se tornaram visíveis tanto para o poder público quanto para os usuários.

Anos de falhas recorrentes na prestação do serviço, dificuldades na manutenção da frota e atrasos no cumprimento de obrigações trabalhistas culminaram em uma paralisação das atividades, provocada pela ausência de pagamento aos funcionários.

Vistorias técnicas indicaram que apenas uma parcela mínima da frota apresentava condições adequadas de circulação, tornando inviável a continuidade da operação. A partir desse cenário, a retirada definitiva das linhas deixou de ser apenas uma possibilidade e passou a ser tratada como inevitável.

A decisão levanta uma questão: trata-se do fim da Mercês enquanto operadora de transporte coletivo?

Do ponto de vista jurídico, a empresa continua existindo, mas a perda do contrato em Curitiba, seu principal mercado, representa um esvaziamento significativo de sua atuação. Até o momento, não há confirmação pública de operações relevantes da Mercês em outras cidades, o que reforça a percepção de que a empresa vive seu momento mais delicado desde a fundação.

Assume um dos consórcios da família Gulin

Com a saída da Mercês, as linhas passam definitivamente ao controle do Consórcio Pontual, formado por empresas que também possuem longa trajetória no transporte coletivo de Curitiba. À frente dessa nova etapa estão a Transporte Coletivo Glória e a Auto Viação Santo Antônio, ambas com décadas de atuação no sistema urbano da capital.

A Glória é uma das empresas mais antigas em operação contínua na cidade, com raízes que remontam ao período de expansão urbana do pós-guerra. Ao longo dos anos, consolidou presença em diferentes regiões e participou de sucessivas reorganizações do sistema. A Santo Antônio segue trajetória semelhante, mantendo operação regular e integrando consórcios responsáveis por parte relevante da frota urbana.

As duas empresas estão ligadas à família Gulin, que há anos figura entre os principais operadores do transporte coletivo curitibano. A concentração de participação em consórcios e empresas do sistema não é novidade e reflete um modelo histórico no qual grupos familiares especializados acumulam as exigências do contrato público.

Nesse contexto, a decisão da prefeitura e da Urbs acaba por produzir um movimento simbólico. A retirada de linhas de uma família tradicional para a redistribuição entre outra, igualmente enraizada na história do transporte da cidade. Não se trata de uma substituição por novos empresários ou de uma abertura do mercado, mas de uma reacomodação interna entre atores já consolidados.

Impactos para o sistema e para os passageiros

Do ponto de vista operacional, a Urbs afirma que a transição foi planejada para não gerar prejuízos aos usuários. As linhas seguem com os mesmos trajetos e horários, agora sob responsabilidade direta das empresas do Consórcio Pontual, que passam a responder integralmente pela frota, pelos funcionários e pela manutenção.

Para os passageiros, a promessa é de continuidade e estabilidade. Para o sistema, no entanto, a mudança expõe fragilidades conhecidas: a dependência de grandes operadores, a dificuldade de renovação do modelo de concessão e a necessidade constante de fiscalização rigorosa para evitar que crises semelhantes se repitam.

Um redesenho silencioso do poder no transporte coletivo

A transferência definitiva das linhas da Mercês não é apenas um ato administrativo. Ela simboliza o redesenho silencioso do poder dentro do transporte coletivo de Curitiba, um setor historicamente dominado por grupos familiares que atravessaram gerações, mudanças políticas e reformas urbanas.

Ao retirar a empresa da família Bertoldi do jogo e redistribuir suas linhas para a família Gulin, a Prefeitura de Curitiba tenta enviar uma mensagem clara ao cidadão: a permanência no transporte coletivo depende, cada vez mais, da capacidade de cumprir rigorosamente contratos, obrigações trabalhistas e padrões operacionais.

Não é bem assim quando se trata de um negócio que movimenta um volume de dinheiro monstruoso e que está, cada vez mais, concentrado nas mãos de uma única família. Dessa forma, a medida mantém aberto o debate sobre governança, concorrência e o futuro das concessões na cidade.

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