ANO IV

24/07/2026

HojePR

OPINIÃO

Méritos são nossos. Erros são deles

18/06/2026

Manifestação de um leitor indignado

Ao assistir à entrevista da presidente da Associação do Coritiba, Marianna Libano, ao canal Meu Coritiba, lembrei do mito de Narciso. Na versão clássica, ele passa tanto tempo admirando o próprio reflexo que perde a capacidade de enxergar qualquer coisa além de si mesmo. Na versão coxa-branca, o espelho produz um efeito ligeiramente diferente. Os méritos aparecem refletidos com nitidez absoluta. Os erros, curiosamente, desaparecem. Quando algo positivo acontece, surge imediatamente o “nós”. Nós sabemos o que é o Coritiba. Nós entendemos o Coritiba. Nós defendemos o Coritiba. Nós representamos a história do clube. Quando o assunto são os problemas, surgem outros personagens. Eles da SAF. Eles dos investidores. Eles da gestão anterior. Eles que decidiram. Eles que erraram. É um espelho extraordinário: reflete todos os acertos e absorve todas as responsabilidades.

A entrevista inteira pareceu girar em torno dessa lógica. Os méritos pertencem ao “nós”. Os fracassos pertencem ao “eles”. A legitimidade é compartilhada. Os erros são terceirizados. Talvez por isso exista tanta dificuldade em responder uma pergunta simples: afinal, a Associação faz parte da SAF ou apenas convive com a SAF? Porque a resposta parece variar conforme a conveniência do argumento. Quando há algo para celebrar, todos estão no mesmo barco. Quando há algo para explicar, o barco passa a ser dos outros.

Talvez alguém precise desenhar. Não existem dois Coritibas. Não existe o Coritiba da Associação. Não existe o Coritiba da SAF. Não existe o Coritiba dos investidores. Existe apenas um Coritiba: o Coritiba Football Club, um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro e dono de uma das torcidas mais apaixonadas do país.

Um clube que precisou de uma transformação profunda porque estava perigosamente próximo da insolvência financeira, jurídica e institucional. Mais de um milhão de torcedores compreenderam isso. Alguns poucos, porém, parecem determinados a reescrever a história econômica do clube como se a contabilidade fosse apenas uma questão de opinião.

O Coritiba hoje é administrado por uma SAF controlada por investidores, da qual a Associação é sócia, possuindo direitos, deveres e responsabilidades de acompanhamento e fiscalização. A Associação não ocupa o papel de comentarista esportivo convidado para analisar o jogo depois do apito final. Ela integra a estrutura societária. Por isso causa estranheza ouvir críticas formuladas como se estivéssemos falando de uma entidade distante, observada através de uma vidraça. Em diversos momentos, a sensação transmitida é a de quem ainda não decidiu se deseja exercer o papel de gestor ou de torcedor. E existe uma diferença importante entre as duas coisas. A paixão é indispensável para sustentar o amor pelo clube. Mas administrar organizações complexas exige algo além da paixão: exige repertório técnico, experiência, capacidade de execução e responsabilidade pelas consequências das próprias decisões.

Outra passagem curiosa foi a insistência em revisitar a venda da SAF como uma operação apressada e improvisada, pouco transparente ou conduzida por pessoas interessadas apenas em se livrar de um problema. Essa narrativa possui um inconveniente: os fatos. E fatos costumam ser pouco colaborativos com reconstruções retrospectivas. O processo foi conduzido com confidencialidade, como deveria ser qualquer negociação dessa natureza. Houve assessores financeiros especializados. Houve diligências. Houve auditorias. Houve escritórios jurídicos de primeira linha. Houve discussões no Conselho Deliberativo. Houve votação dos associados. Houve aprovação superior a 90% em todas as instâncias relevantes. Houve acesso aos documentos por quem desejasse analisá-los.

Aliás, já que o tema é transparência, vale lembrar algo frequentemente omitido nesse debate. O contrato foi exaustivamente analisado, questionado, revisado e escrutinado. Houve quem procurasse cláusulas ocultas, armadilhas jurídicas, erros grotescos de valuation e supostas vantagens indevidas. O resultado dessa busca incessante foi decepcionante para os adeptos da teoria conspiratória: não apareceu caixa-preta alguma. Não apareceu fraude. Não apareceu falcatrua. Não apareceu nenhum escândalo escondido nos anexos.

O que existe é um contrato elaborado por profissionais competentes, refletindo as condições, os riscos e as informações disponíveis naquele momento histórico. Tudo isso foi fruto de muito trabalho em prol do interesse comum da massa alviverde.

Aliás, vale lembrar um princípio elementar que parece ser ignorado com frequência. Futebol é de interesse público. A gestão é privada. Contratos privados continuam sendo privados. Confundir uma coisa com a outra é um erro conceitual básico. O fato de milhões de torcedores se importarem profundamente com o Coritiba não transforma automaticamente uma operação societária bilionária em documento público. Você aceitaria esse nível de segurança jurídica e compliance se fosse o investidor?

Ou o torcedor realmente acredita que existia uma fila de investidores disputando o privilégio de assumir de R$ 300 milhões em dívidas, investir em infraestrutura, construir um novo centro de treinamento e modernizar um estádio de 93 anos? Se era uma oportunidade tão evidentemente vantajosa, onde estavam todos os interessados nas décadas anteriores? Onde estavam os salvadores da pátria quando o clube acumulava passivos, enfrentava ações judiciais e mergulhava em Recuperação Judicial? O mercado pagou aquilo que entendeu ser o valor do ativo diante dos riscos e oportunidades existentes. Ninguém está disposto a destruir valor, muito menos pagar almoço grátis.

Mas, afinal, o que justifica a venda? Simples, o Coritiba devia para todo mundo. Dentistas. Escritórios de advocacia. Ex-jogadores. Prestadores de serviço. Fornecedores. Funcionários. O clube carregava R$ 300 milhões em dívidas, encontrava-se em Recuperação Judicial e sobrevivia de renegociações permanentes, venda ocasional de atletas e sucessivos adiamentos de problemas estruturais. O Alto da Glória havia se transformado, em muitos aspectos, em símbolo da decadência administrativa do futebol paranaense. Mas ouvindo certos discursos, parece que os dirigentes da época acordaram numa manhã ensolarada, olharam para um clube financeiramente saudável e decidiram vendê-lo por capricho. A realidade era precisamente o oposto. A SAF não surgiu porque o Coritiba estava confortável. Surgiu porque o Coritiba estava encurralado, à beira da paranização.

E não foi uma decisão tomada às pressas. Houve meses de negociação. Houve diligências profundas. Houve auditorias independentes. Houve pareceres técnicos. Houve discussões longas e, muitas vezes, dolorosas. O que existiu foi um processo democrático e transparente dentro das regras institucionais do clube. Mas nada disso parece importar para uma figura muito comum na vida pública brasileira: o especialista em retrospectiva. É aquele personagem que possui uma habilidade extraordinária. Ele nunca prevê o futuro. Mas prevê o passado com precisão absoluta.

As críticas ao valuation pertencem exatamente a essa categoria. Sempre me chama atenção a quantidade de especialistas financeiros em clubes de futebol. Em 2022, quando o clube carregava dívidas gigantescas, estava em Recuperação Judicial e poucos conseguiam enxergar uma saída plausível, os interessados eram raros. Agora, anos depois, multiplicam-se os analistas capazes de explicar quanto o ativo deveria ter valido.

Aliás, existe uma frase recorrente que merece atenção especial: “Nós sabemos o que é o Coritiba”. Sempre que escuto essa afirmação, imagino existir alguma biblioteca secreta escondida sob as arquibancadas do Couto Pereira. Talvez um manuscrito ancestral contendo os mistérios da verdadeira essência coxa-branca, acessível apenas a um pequeno grupo de iluminados. Os cavaleiros templários da ordem Coritibana. Porque, fora isso, a frase parece bastante estranha. Follador não sabia o que era o Coritiba? Os conselheiros não sabiam? Os associados não sabiam? Os ex-presidentes não sabiam? Estamos falando do Coritiba ou do Projeto Manhattan?

O Coritiba nunca precisou de intérpretes da própria alma. Precisava pagar contas. Não precisava de filósofos da identidade alviverde. Precisava evitar a insolvência. Não precisava de sacerdotes da tradição. Precisava sobreviver.

A entrevista também produziu momentos involuntariamente cômicos quando o assunto foi governança. Há uma preocupação constante com qualificação, representatividade e profissionalização. Excelente. São temas indispensáveis para qualquer organização séria.

Por isso mesmo chama atenção quando a principal credencial apresentada para representar a Associação no Comitê de Futebol é “acompanhar futebol há muito tempo”. Trata-se, sem dúvida, de uma experiência respeitável. Mas também compartilhada por milhares de torcedores que?? frequentam o Couto Pereira todos os finais de semana.

Mais curioso ainda é observar que esse representante era justamente o marido da própria presidente da Associação. Não se trata de questionar caráter ou intenção. Trata-se apenas de observar que algumas lições sobre profissionalização, meritocracia e governança inevitavelmente perdem parte de sua força quando discurso e prática parecem caminhar em direções diferentes.

O caso do novo CT também é ilustrativo. Ao ouvir as críticas, o torcedor naturalmente espera informações concretas. Quais licenças faltam? Quais órgãos públicos estão envolvidos? Quais providências foram tomadas? Qual foi a articulação institucional realizada pela Associação para acelerar o projeto? Quais autoridades foram mobilizadas? Que pontes foram construídas?

Porque um projeto dessa magnitude não avança apenas com entrevistas, manifestações de preocupação ou análises retrospectivas. Avança com influência institucional, articulação política, capacidade de mobilização e construção de consensos. Exatamente o tipo de força que uma Associação centenária deveria ajudar a oferecer.

Nesse aspecto, chama atenção certa satisfação com as melhorias realizadas no CT da Graciosa. São melhorias bem-vindas, evidentemente. Mas representam apenas o mínimo do mínimo para um clube que pretende disputar espaço entre os protagonistas do futebol brasileiro. Modernizar estruturas básicas não pode ser confundido com transformação.

O verdadeiro salto de qualidade continua sendo o novo centro de treinamento. Um complexo moderno de saúde, performance, ciência esportiva, recuperação física, análise de dados e desenvolvimento de atletas. É ali que clubes vencedores constroem vantagem competitiva. É ali que se forma patrimônio esportivo. É ali que se desenvolve o futebol do futuro.

Comemorar pequenas reformas enquanto o projeto estrutural permanece travado é correr o risco de confundir manutenção com evolução. E, convenhamos, depois de décadas de atraso estrutural, o Coritiba não precisa apenas do mínimo. Precisa recuperar o tempo perdido.

Algo semelhante ocorre quando se fala sobre os mecanismos de governança da própria SAF. Em determinado momento, ouvimos que o Comitê de Futebol “a princípio, diz que existe”. É uma frase curiosa para alguém cuja função institucional inclui justamente acompanhar, compreender e fiscalizar os mecanismos de governança da estrutura da qual participa. Porque existe uma diferença entre não concordar com uma decisão e desconhecer os instrumentos pelos quais ela é tomada. De todo modo, é compreensível, pois os relatos são de que a presidente costuma se ausentar das reuniões de conselho da SAF.

No fundo, a entrevista revelou menos sobre a SAF do que sobre a forma como alguns enxergam o próprio papel dentro dela. Existe uma enorme diferença entre quem participa da construção e quem comenta a construção. Entre quem assume responsabilidades e quem distribui responsabilidades. Entre quem ajuda a resolver problemas e quem se especializa em explicá-los depois.

O comentarista sempre parece mais inteligente porque joga uma partida sem consequências. Corrige passes depois do apito final. Muda escalações depois do resultado. Descobre soluções depois que os problemas foram enfrentados por outros.

Narciso tinha uma vantagem semelhante. O reflexo jamais o contradizia. O problema é que clubes de futebol não são administrados diante do espelho. São administrados diante da realidade. E a realidade não pergunta quem ficou com os méritos. Ela pergunta quem assumiu as responsabilidades.

Durante a entrevista, ouvimos em determinado momento que “a verdade às vezes dói”. É uma observação correta. A verdade realmente dói. Dói quando lembramos que o Coritiba estava em Recuperação Judicial. Dói quando lembramos que devia centenas de milhões de reais. Dói quando lembramos que a SAF não nasceu de um capricho, mas de uma necessidade. Dói quando lembramos que fiscalizar não é o mesmo que construir.

Mas existe uma diferença importante entre a verdade e o reflexo. A verdade permanece a mesma, mesmo quando não gostamos dela. O reflexo, não. O reflexo sempre devolve exatamente aquilo que queremos enxergar.

Talvez tenha sido justamente esse o problema de Narciso: passar tanto tempo admirando a própria imagem que perdeu qualquer interesse pelos fatos. O espelho sempre concorda. A realidade nem tanto.

SAV

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