A cada dia, a situação do senador Sergio Moro (União) se mostra mais complicada e adversa para quem ainda alimenta a ideia de uma candidatura ao governo do Paraná. Além dos obstáculos já evidentes no campo partidário, como o veto formalizado pelo PP à sua candidatura dentro da Federação União Progressista, surgem revelações contundentes sobre sua atuação como juiz, envolvendo a suspeita de execução de grampos ilegais contra autoridades com foro privilegiado, em um episódio que remonta ao início da década de 2000.
O novo capítulo dessa controvérsia veio à tona na última semana, quando a Polícia Federal localizou, durante busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba, um despacho judicial datado de julho de 2005, no qual o então juiz Sergio Moro teria determinado ao colaborador Tony Garcia, ex-deputado estadual e delator, a realização de novas gravações de conversas do então presidente do Tribunal de Contas do Paraná (TCE-PR), Heinz Herwig, sob o argumento de que as interceptações anteriores eram “insatisfatórias para os fins pretendidos”.
A intervenção coloca em xeque procedimentos legais essenciais, porque Herwig detinha foro por prerrogativa de função à época, o que, pela legislação, exigiria autorização do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para qualquer monitoramento judicial.
De acordo com os documentos apreendidos, a gravação original havia ocorrido em fevereiro de 2005, sem a referida autorização do STJ. As buscas da PF também renderam relatórios e mídias com transcrições de escutas envolvendo desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) e outros agentes com foro privilegiado, realizadas por colaboradores, que não foram encaminhados ao Supremo Tribunal Federal (STF) mesmo após várias solicitações formais. Parte desse material permaneceu arquivada internamente e somente agora foi recuperada.
O próprio Tony Garcia relatou ao STF que, entre 2004 e 2005, atuou executando gravações telefônicas e ambientais por ordem direta de Moro, inclusive com uso de câmeras ocultas, e que relatórios de inteligência produzidos naquele período nunca foram juntados aos autos dos processos em que sua colaboração foi utilizada.
A transcrição integral da gravação de Herwig, com cerca de 40 minutos de duração, revela comentários duros sobre a atuação do então juiz, incluindo a frase “na verdade, ele é polícia, é promotor e é juiz”. Em outro trecho, Garcia teria dito: “Tudo o que você fala ele diz que é mentira. Quem cair na mão desse cara está ferrado”, apontando para um ambiente de pressão e intimidação que extrapola os limites do exercício regular da jurisdição.
A ofensiva da Polícia Federal foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, que conduz a apuração no âmbito de um inquérito sigiloso. A investigação analisa se colaboradores foram utilizados para monitorar autoridades fora do alcance legal da vara de Curitiba, com o objetivo de exercer pressão indevida ou obter material probatório por meios ilegais.
Moro negou as acusações, classificando-as como baseadas em “relatos fantasiosos do criminoso condenado Tony Garcia” e afirmou que os fatos, embora antigos, ocorridos entre 2004 e 2005, não lhe permitem comentar o conteúdo por não ter acesso aos autos do inquérito.
Esse episódio se soma a uma sequência de desgastes que já comprometem a viabilidade política do senador. O veto partidário do PP e a revelação de possíveis grampos ilegais no passado formam um quadro de isolamento progressivo e corroem o principal pilar de sua trajetória pública: a defesa da legalidade. Para um candidato que construiu sua imagem como símbolo do combate à corrupção, enfrentar acusações de violação das próprias regras do sistema judicial representa não apenas um obstáculo eleitoral, mas uma crise profunda de credibilidade.



