ANO IV

05/06/2026

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Moro levou quase dois dias para dizer uma frase

15/05/2026
moro

O senador Sergio Moro levou mais de 24 horas para romper o silêncio sobre o caso Flávio Bolsonaro-Daniel Vorcaro. Tempo suficiente para uma pizza família, duas sessões do Senado, três crises no X e pelo menos umas 14 análises conspiratórias no WhatsApp da família brasileira. Quando finalmente falou, parecia aquele aluno que esqueceu de estudar, abriu a prova, escreveu o nome e começou a enrolar sobre qualquer outro assunto.

A nota de Moro nas redes sociais é uma obra-prima da fuga ornamental. O texto começa falando do PT, passa pelo mensalão, petrolão, aposentados do INSS, CPMI, Lula, Lulinha, Careca do INSS, corrupção interplanetária e quase termina discutindo a inflação do tomate no Ceasa. Sobre o caso Flávio-Vorcaro? Uma linha. Uma mísera linha. Uma linha tão magra que deveria pedir auxílio nutricional à Pastoral da Criança.

“Flávio Bolsonaro apresentou suas explicações sobre o episódio.”

Fim.

Pronto. Caso encerrado. Sherlock Holmes largou o cachimbo e foi embora. Hercule Poirot fechou a maleta. Batman desligou o batsinal. O senador Moro praticamente lançou o “pacote econômico da absolvição preventiva”.

O mais curioso é o tamanho da preparação para entregar tão pouco. Parecia lançamento de álbum da Beyoncé. O Brasil aguardando a manifestação. Analistas políticos em posição fetal. Jornalistas recarregando o F5. E aí vem a nota. O equivalente político de abrir um presente gigante e encontrar dentro um par de meias.

A manifestação teve a profundidade de um pires e a coragem de um piscadinha em elevador corporativo.

Moro conseguiu produzir um fenômeno raro da física política. Escrever um texto inteiro sem tocar realmente no assunto do próprio texto. É como alguém convocar entrevista coletiva para falar de um acidente aéreo e passar vinte minutos comentando o preço do buffet do aeroporto.

A nota também revela um talento extraordinário para a ginástica narrativa. O senador pega um caso envolvendo um aliado da direita, dá três piruetas argumentativas, planta bananeira retórica e aterrissa culpando o PT. Se continuar nesse ritmo, daqui a pouco vão descobrir que a queda do Império Romano também teve dedo do Lula. Não que eu seja simpático ao petista.

A parte mais fascinante é a velocidade com que “explicações apresentadas” viraram sinônimo de “assunto encerrado”. No Brasil político contemporâneo, a investigação virou praticamente um delivery emocional. O sujeito manda uma nota, um vídeo de celular, um tweet indignado e pronto, está oficialmente inocentado perante metade da República.

A verdade é que Moro escreveu uma nota que parece aquelas redações de aluno que não leu o livro. O tema era Banco Master, Flávio e Vorcaro. Ele respondeu: “A importância da agricultura familiar no combate ao comunismo”. Tirou 4,5 pela criatividade e porque a professora ficou com pena.

No fim, sobrou aquela sensação clássica do eleitor brasileiro. Você espera uma coletiva de esclarecimento e recebe um compilado de slogans reciclados, um pouco de antipetismo requentado e uma frase protocolar sobre o assunto principal. Uma espécie de miojo político, rápido, artificial e sem grande valor nutritivo.

E assim, o senador que já foi símbolo nacional do combate à corrupção entregou ao país uma nota que parece assessoria de condomínio tentando explicar sumiço de bicicleta na garagem. “O morador já apresentou esclarecimentos e aproveitamos para lembrar que é proibido alimentar os pombos”.

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