É com um misto de incredulidade e indignação que temos acesso a mais um escândalo. Veio à tona, nas investigações da Operação Ícaro, que chegamos a níveis estratosféricos de corrupção. O caso envolve uma secretaria do governo de São Paulo e põe em xeque toda a credibilidade da administração pública paulista.
De acordo com reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, as investigações da Operação Ícaro identificaram um contrato originado na Bélgica, intermediado por um lobista brasileiro, recheado de inimagináveis “comissões” e utilizando a mãe do lobista como laranja para ocultar os verdadeiros beneficiários.
Esse contrato estaria vinculado à Secretaria da Fazenda de São Paulo e é alvo de buscas e apreensões em endereços ligados aos investigados. Em uma das casas, foram encontrados documentos e registros que indicam movimento financeiro atípico.
O nome da operação – Ícaro – já aparece em despachos judiciais, denotando que o poder público foi usado como plataforma para enriquecer alguns poucos por trás dos panos.
Entre os envolvidos citados nas denúncias estão advogados, intermediários e pessoas ligadas ao grupo que atuava junto à secretaria. Por sigilo da investigação, nem todos os nomes foram divulgados até agora, mas os que aparecem apontam para uma rede que vai da esfera privada à pública.
Aponta-se que pessoas muito próximas de dirigentes da secretaria poderiam ter sido beneficiadas com recursos indevidos. O que chama atenção é que não se trata de um desvio pequeno ou de um esquema isolado, é algo que só poderia funcionar se muitos tivessem combinado para que nada aparecesse.

A indecência do caso não está apenas na quantidade de dinheiro (que é difícil ainda precisar, mas que deverá ultrapassar qualquer parâmetro que tínhamos antes), mas no fato de que uma secretaria de governo serve como canal para operar mais um crime contra o erário. Quando o aparato estatal se converte em instrumento de corrupção sofisticada, perde-se o sentido básico da administração pública: servir ao cidadão, fiscalizar, aplicar corretamente os recursos.
Vale lembrar que quando a operação foi deflagrada, em agosto, as propinas encontradas sugeriam uma corrupção de R$ 1 bilhão. Em apenas um dos contratos encontrados na casa do lobista Celso Éder Gonzaga de Araújo, o valor da “consultoria” chega a R$ 1,8 trilhão.
Segundo o Estadão, “o contrato em questão, assinado em março de 2022, tem como objeto a ‘regularização e liberação de direitos creditícios, financeiros e correções’ em favor do empresário belga Tristan Jacques Jean Daniel Gillot junto ao Banco Central do Brasil”.
Com a promessa de conseguir o desbloqueio do dinheiro, prossegue a reportagem, “o lobista cobrava um percentual do valor que viesse a ser liberado, segundo a investigação, dividido com ‘parceiros’ – ‘profissionais de sua confiança e relacionamento, necessários a sua consecução’.
Entre esses “parceiros”, a operação identificou a professora aposentada Kimio Mizukami da Silva, mãe do ex-auditor Artur Gomes da Silva Neto, um dos fiscais da Fazenda estadual na mira da Operação Ícaro. Ela receberia uma “comissão” de R$ 72 bilhões do contrato com o empresário belga. Para um advogado, o repasse seria de R$ 180 bilhões. Para uma holding, também R$ 180 bilhões. Outros seis parceiros receberiam entre R$ 144 bilhões e R$ 18 bilhões cada.
Dizer que já não falamos mais em corrupção de milhões nem de bilhões, mas de trilhões, não é exagerar: é reconhecer que o patamar da audácia dos corruptos saltou para valores que nenhum controle atual parece conseguir conter.
O Brasil, que já foi palco de grandes escândalos, agora convive com uma normalização velada da corrupção em valores impensáveis. Se não houver reação firme – medidas legais, transparência, responsabilização e cadeia – tudo isso vai acabar atrofiando a democracia.
Esse caso torna urgente uma reflexão: é possível consertar um sistema que permite que uma secretaria estadual se torne um celeiro de negociatas com sede na Europa, envolva intermediários, lobistas, fachadas e dinheiro escondido, e tudo sob o olhar frouxo da fiscalização pública?
Somente punindo exemplarmente todos os envolvidos, abrindo os dados e fortalecendo os mecanismos de controle, será possível evitar que daqui a pouco falemos em corrupção de quadrilhões. E isso não pode ser só uma esperança — precisa ser uma exigência de quem paga impostos e espera serviço público digno.



