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Nova diretriz de hipertensão: o que muda na vida de quem tem pressão 12 por 8?

19/09/2025
hipertensão

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A pressão arterial de 120 por 80, o famoso 12 por 8, costumava ser o padrão almejado. Agora, porém, quem tem essa taxa passa a ser considerado com pré-hipertensão – classificação que, antes, era usada a partir de 130 por 85.

A mudança foi anunciada na quinta-feira (18), com as novas diretrizes brasileiras de manejo da hipertensão arterial, apresentadas no 80° Congresso Brasileiro de Cardiologia.

Não há um novo padrão para substituir a meta de 120 por 80. Para que o nível não seja considerado de risco, a diretriz recomenda apenas que a pressão arterial sistólica deve ficar abaixo de 120 mmHg e a pressão arterial diastólica deve ser inferior a 80 mmHg – ou seja, abaixo de 12 por 8 é considerado normal.

Já o nível de pressão arterial que leva ao diagnóstico de hipertensão continua como igual ou superior a 14 por 9.

Vale lembrar que a pré-hipertensão não é doença, mas um estado de alerta. “É como pré-diabetes, a pessoa fica alerta, mas não necessariamente precisa tomar remédio”, compara um dos autores da diretriz, o cardiologista Luiz Aparecido Bortolotto.

O objetivo da alteração é identificar indivíduos em risco mais cedo e incentivar intervenções não medicamentosas para prevenir a progressão para a hipertensão, doença que atinge cerca de 28% da população brasileira.

O tratamento medicamentoso durante a pré-hipertensão só passa a ser indicado acima do nível de 13 por 8, quando o paciente tem doença cardíaca associada ou risco cardiovascular muito alto.

O risco cardíaco, geralmente presente quando o paciente tem alguma doença associada, como diabetes ou doença renal, também teve a forma de medição alterada. Agora, a recomendação é usar uma escala internacional, a PREVENT.

Minha pressão é 12 por 8: devo me preocupar?

Pacientes que antes estavam “dentro da meta” agora podem acender um sinal de alerta, mas não há motivo para pânico nem para intervenção medicamentosa, reforça a cardiologista Fernanda Weiler, que não fez parte da elaboração da nova diretriz.

Devem ter maior atenção apenas as pessoas que, além da pressão 12 por 8, têm histórico de doença cardíaca na família ou fator de risco aumentado, como diabetes ou problema renal.

“Não significa que esse paciente precisa de medicamento, mas ele precisa controlar para não se tornar um hipertenso”, afirma Weiler. “A hipertensão é uma doença silenciosa, o paciente com 12 por 8 não sente nada, mas quando há alto risco (cardiológico) já existem microlesões em órgãos-alvo.”

“É só um alerta. Acima de 12 por 8 tem que ter um cuidado especial para a pessoa já promover hábitos saudáveis”, acrescenta Bortolotto.

O médico lembra ainda que, para ser considerado pré-hipertenso ou hipertenso, é preciso que a medição seja feita de forma repetida, em pelo menos duas ocasiões distintas. “Não é uma medida isolada que vai dizer que a pessoa é pré-hipertensa ou hipertensa”, diz.

Como prevenção, quem tem a pressão de 12 por 8 deve adotar hábitos saudáveis: controlar o peso, visto que a obesidade aumenta a pressão arterial; controlar o estresse; ter uma dieta saudável, reduzindo o consumo de sódio e ultraprocessados e aumentando o de potássio; fazer atividade física regular; ter boas noites de sono; e aferir a pressão anualmente.

Bortolotto refuta as críticas que surgiram após o anúncio da nova diretriz, de que a mudança “causa pânico” na população e teria relação com pressão da indústria farmacêutica.

“A ideia é causar mais cuidado das pessoas, porque já é difícil reconhecer que pressão alta é doença, (mesmo sendo) a que mais mata no mundo, indireta ou diretamente”, diz. “Não é para causar pânico, mas para adotar medidas preventivas”.

Já sobre a necessidade de medicação, o cardiologista diz que estudos mostraram que tratar com remédio pacientes com pressão acima de 13 por 8 previne a doença. “Isso é comprovado cientificamente. Não tem nenhuma influência da indústria nesse sentido”, afirma.

Esse deslocamento do nível de 12 por 8 para uma categoria de “alerta” já havia sido feito pela sociedade europeia de cardiologia no fim do ano passado.

“A Sociedade Brasileira de Cardiologia ainda resistiu um pouco em soltar essa nova diretriz. A nossa última era de 2016, então já estava bem defasada nesse sentido de acompanhar a americana e a europeia, mas a gente tinha um movimento muito forte aqui no Brasil com a campanha de conscientização ‘Eu sou 12 por 8′, então ficou: como a gente vai falar agora que ele precisa ser menos do que 12 por 8?“, diz Weiler.

“Ficamos pisando em ovos por um tempo, mas de fato os estudos mostram que, se o paciente for de alto risco, a pressão de 12 por 8 já pode causar pequenos danos em órgãos-alvo e a gente precisa dar uma maior atenção”, completa.

Medição da pressão em casa

Existe um mito de que o medidor automático de pressão usado em casa não funciona, diz Weiler. A diretriz, porém, recomenda o uso desses aparelhos, desde que sejam bem calibrados e estejam com a pilha nova, para monitorização periódica domiciliar.

“A gente não precisa ficar refém do exame de Monitorização Ambulatorial da Pressão Arterial (MAPA), que tem um custo para o paciente, que precisa ir numa clínica, colocar o manguito e ficar durante 24 horas. A gente tem uma boa referência dos valores de pressão se orientarmos o paciente a fazer essas medidas regulares em casa”, explica a cardiologista.

• Normalmente, para ter uma avaliação mais precisa, o paciente que medir a pressão em casa deve fazê-lo duas ou três vezes ao dia, em diferentes horários, por três a cinco dias seguidos.

• O ideal é que, durante o processo, não haja refeições exacerbadas, nem consumo de cafeína ou algum estimulante, e que o paciente esteja sentado em repouso com os pés bem apoiados no chão e o braço apoiado sobre uma mesa, na altura do coração.

• Os valores devem ser anotados em uma tabela e enviados ao médico que acompanha o paciente.

Tratamento combinado

Apesar de não ser novidade, a diretriz reforça a importância da terapia combinada, isto é, a associação de dois ou mais medicamentos, preferencialmente em comprimido único, no tratamento da hipertensão.

A monoterapia passa a ser uma exceção, indicada para casos específicos, como idosos frágeis (acima de 80 anos), pacientes com hipotensão ortostática ou hipertensão estágio 1 de baixo risco.

Além de combinar as medicações em um único comprimido, outra estratégia que aumenta a adesão ao tratamento, segundo Weiler, é a indicação de remédios que possam ser tomados menos vezes ao dia – preferencialmente, uma vez diária.

Atenção primária no SUS

Estima-se que 75% dos pacientes com hipertensão arterial no Brasil são tratados no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente na atenção primária (as Unidades Básicas de Saúde e Unidades de Saúde da Família). Por isso, a nova diretriz incluiu, pela primeira vez, um capítulo dedicado à prática de médicos do SUS no manejo da hipertensão.

“A ideia é adaptar toda a bagagem científica para a prática disponível no SUS. Incentivar a medida de pressão nas unidades básicas de saúde, independentemente de qual consulta o paciente vai fazer no posto; usar os agentes de saúde para ver se o paciente está tomando medicação corretamente, com as medicações disponíveis no SUS; uma orientação para fazer a combinação mais adequada com aquilo que tem disponível no sistema”, explica Bortolotto.

No SUS, não há terapia combinada em um único comprimido, mas é possível combinar dois ou três remédios.

“Fizemos um estudo que mostrou que, com as medicações do SUS, 88% dos pacientes controlaram a hipertensão, desde que seja feita a combinação correta de medicamentos e haja o acompanhamento”, afirma o cardiologista, que também atua no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (InCor).

(Foto: Freepik)

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