Meu pai chegou em casa com uma TV nova, para assistir a Copa do Mundo de 1970. TV em cores, que seria paga em suaves prestações na Loja Prosdócimo. Eles eram seus clientes na Agência de Propaganda, a Exclam.
A instalação da TV foi um evento.
O suporte novo também veio junto, vai ficar no canto da sala, entre a janela lateral e a porta de entrada. Entrando em casa pelo portãozinho, tinha uma calçada em direção à varanda, três degraus, a porta de entrada para a sala, que era a maior e primeira peça da casa, ligava às outras; os dois quartos e a porta da cozinha à vista. Da sala era possível ver até a porta dos fundos. Se esticasse o pescoço, eu via a casa da minha Vó Elly, lá atrás. Minha família era formada de cinco pessoas: meu pai, minha mãe, eu e meus dois irmãos mais velhos. Anos depois vieram mais três maninhos. Nossos vizinhos eram da família da minha tia Norma, irmã de meu pai. Então, tínhamos um ambiente familiar na rua.
Como eu ainda tinha quatro aninhos de idade, nem sei se esta história é verdade, se foi exatamente assim e eu não vou sair fazendo pesquisa para verificação das verdades dos fatos. Deixa eu contar a minha versão desta história.
Uma imagem é muito nítida na minha memória. Não sei qual foi o jogo, não sei qual foi a placar, não sei qual foi o lance e não sei ao certo que horas eram. Apenas lembro que o jogo estava passando na TV nova e a família estava reunida. Tinha mais gente na sala, mas eu não sei também quem eram nossos convidados, quantos eram e se tinha pipoca, se tinha comida e se era meio ou fim de semana. Não sei que cor de roupa meu pai vestia, mas era uma camisa de gola e com mangas curtas.
Minha mãe foi fazer um café. Meu pai disse: “Boa Zoca”. Zoca era o apelido do casal. Acho que todos os casais tinham um jeito de chamar um ao outro nesta época.
De repente, o Pelé fez um gol para a seleção brasileira. Meu pai soltou um grito de alegria, imitando o narrador: – Goooooooooooooollllll do Brasil. Pelé!!
O Pelé tinha o hábito de correr para comemorar e dar um salto e um soco no ar, imagem clássica e mundialmente famosa. Foi exatamente o gesto que meu pai fez para comemorar o gol da seleção canarinho. Porém, no gramado não havia o que na nossa sala poderia incomodar o Edson Arantes do Nascimento.
Uma lâmpada.
Meu pai deu o soco no ar e acertou a lâmpada em cheio. As lâmpadas incandescentes nestes anos eram de um material que, quando quebravam, faziam um barulho como um estouro, a gente se assustava. E foi um barulho, o estouro e a sala ficou escura. Minha mãe, que estava um pouco longe da TV, perguntou: “O que foi isso”?
Rapidamente, meu pai falou em voz alta, rindo muito:
– Foi o Pelé, Zoca!
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