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23/06/2026

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O livro que se recusou a morrer

12/12/2025

Escrito pelo francês Philippe ArIès (1914-1984), “O Homem Diante da Morte”, precisou de mais de 15 anos para ser concluído. Parece muito tempo, não é. Ariès foi atraído pelo estudo da história da morte pela curiosidade científica e pelo ineditismo do tema (quem se preocuparia com o fim quando tudo era princípio?), mas precisava dividir seu tempo com o trabalho em um instituto francês de pesquisa de plantas tropicais.

Vasculhava os arquivos no tempo livre, mas não era o suficiente, principalmente quando decidiu que para entender o modo como o homem encarava a triste figura da morte era necessário retornar à Idade Média.

O trabalho revelou-se semelhante ao de Sísfio na mitologia. Em 1975, o historiador, já, celebrado por publicar um estudo de atitudes em relação a crianças (Centuries of Childhood, 1962), foi convidado pela Universidade Johns Hopkins para ministrar uma série de palestras.

O resultado, acrescido de alguns artigos, foi reunido no livro “A História da Morte No Ocidente”, mas não satisfez Ariès. No prefácio ele definiu o esforço como “uma história sem fim”. Não era.

Em janeiro de 1976, ele foi admitido por seis meses no Woodrow Wilson International Center for Scholars. Com uma bolsa de pesquisas que lhe permitiu encerrar-se, literalmente, na cela do que é uma abadia leiga, o francês concluiu seu trabalho.

Quando retornou para a França, só lhe faltava escrever a conclusão, para a qual necessitava de certa distância, as notas de referência e os agradecimentos.

“O Homem Diante da Morte” foi publicado, no Brasil, em dois volumes, já no fim da década de 80, pela editora Francisco Alves, a mais antiga desse ramo no país, afora a Imprensa Oficial. A crise administrativa da editora, entretanto, fez com que o livro ficasse fora de catálogo por longos anos. A cópia do primeiro volume que converti em PDF e dispus para um muito restrito clube de amigos do livro, data de 1989 em segunda edição e foi copiada, por sua vez, de um exemplar (talvez o único) emprestado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.

Recentemente, a Unesp (Universidade Estadual Paulista) adquiriu parte do catálogo da Francisco Alves e publicou nova edição de “O Homem Diante da Morte”, desta vez em volume único. O preço é salgado: R$ 134. Recomendo a consulta ao site (www.editoraunesp.com.br)

A grande questão na qual Ariès se debruça – da morte domada, conhecida e anunciada pelo moribundo, à morte invertida, solitária e desconhecida até por aquele que vai morrer – é a seguinte: quão diferentes eram (e são) as atitudes do homem diante da morte? Ariès precisou de 15 anos para respondê-la.

Parece muito tempo. Não é.

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