O chocante anúncio no último dia 25 de abril do encerramento das visitas guiadas ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula, após mais de 15 anos de imenso êxito e intensa repercussão cultural, provocou autêntica comoção popular. O episódio é ilustrativo da incoerência das políticas públicas municipais de cultura e do descaso para com as imensas possibilidades de desenvolvimento econômico e social derivadas da educação patrimonial e do turismo cemiterial.
A comunidade curitibana deve à pesquisadora e especialista em patrimônio cultural Clarissa Grassi Dias a introdução em nosso meio tanto do Turismo quanto dos Estudos Cemiteriais. Mestre em Sociologia pela UFPR, sua dissertação de mestrado intitulada “Cidade dos mortos, necrópole dos vivos: a Curitiba do Cemitério Municipal São Francisco de Paula” de 2016 representou um marco para o avanço do processo de conhecimento nesta área das Ciências Humanas, tal qual até então era praticada entre nós.
A dissertação propunha e permitia desenvolver uma metodologia original para o inventario de túmulos e cemitérios e a classificação tipológica de construções tumulares. A imensa autoridade intelectual que construiu neste campo de estudos a levou a exercer os cargos de vice-presidente (2008 – 2012) e presidente (2013 – 2017) da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais (ABEC). Pelas suas relevantes contribuições à comunidade curitibana foi agraciada com a Comenda da Ordem da Luz dos Pinhais.
A imensa repercussão de seu trabalho motivou convites para atuar junto a diversos programas de educação patrimonial e turismo cemiterial de outras partes do país. Dentre estes se incluem o Cemitério Municipal São Bento de Araraquara (SP) e o Cemitério Municipal Campo da Saudade em Jacareí (SP). O êxito das ações desenvolvidas permitiu propor experimentos cada vez mais inclusivos, alargando o público potencial do turismo cemiterial e da educação patrimonial. Dentre estes se incluem a visitação para alunos surdos e cegos, através da audiodescrição e participação de intérprete de libras.
Igualmente impressionantes foram as atividades de caráter academicamente interdisciplinar e socialmente relevantes para a reapropriação coletiva do espaço cemiterial. Tal foi o caso das duas edições do Sarau de Poesias realizado em 2014 e 2015 com escritores locais, tomando como objeto poetas e intelectuais ali sepultados, através da leitura de biografias e récitas da produção literária deles. Tais saraus se constituíam em iniciativas de imensa importância por pelo menos duas razões. Por um lado, os eventos estabeleciam diálogos entre a educação cemiterial e a área universitária das letras, tanto na forma da prosa quanto da poesia. Por outro, ressignificavam o espaço lúgubre e interdito do cemitério para dar-lhe sentido de uso público pela comunidade, sempre ansiosa em conseguir estabelecer conexão entre o nosso tempo presente e o passado, através de leituras realizadas em presença dos restos mortais de seus autores ou homenageados.
A introdução da modalidade da visita noturna iniciada em 2014 criou todo um novo público para exploração do turismo cemiterial, como são os praticantes do Dark Tourism, isto é, os visitantes de locais ligados ao terror e à morte. Realizadas sempre em noites de lua cheia, tais visitas se constituíam também numa experiência de lazer, ao combinar a educação patrimonial e o turismo cemiterial com as intensas emoções que usualmente os cenários de estórias de terror são capazes de provocar. Foi enorme a repercussão destas visitas guiadas, as quais provaram que os temores com relação à segurança deste tipo de evento haviam sido até então grosseiramente superestimados pelas autoridades. Logo em seguida se iniciaram as visitas noturnas em cemitérios de diferentes cidades como, Campinas, Piracicaba, Lençóis Paulistas, Santos, Porto Alegre, Pelotas e Joinville.
Ao longo de quinze anos de atividade as visitas guiadas foram incluindo cada vez mais temas e objetos, provando sua capacidade praticamente infinita de agregar novos públicos, atrair mais interessados, além de apontar cada vez mais temas e objetos para a pesquisa acadêmica na área dos estudos cemiteriais. Exercitando um experimentalismo que deveria ser intrínseco a todos ramos da ciência, foram planejadas e executadas visitas temáticas tão interessantes como relevantes quanto as dedicadas as Personalidades Negras, Clubes Operários, o legado de Alfredo Andersen, Religiões e Religiosidades, Empresários, Mulheres Pioneiras, Ícones de Curitiba, Arquitetura e Geologia, Imigrantes, Futebol, Artistas Visuais, Revolução Federalista, Ciclo da Erva Mate, Emancipação Política do Paraná, Iconografia Religiosa etc.
Quando do inexplicável final, após quinze anos de atividades, as visitas guiadas ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula lograram atender mais de 19 mil pessoas, contribuindo de forma importante para atingir vários objetivos sociais, culturais e educacionais da nossa comunidade. Dentre tantos benefícios derivados das visitas guiadas gostaria de destacar o que considero o mais importante: contribuir para o desenvolvimento das capacidades intelectuais da população em desenvolver uma leitura crítica e consciente do seu próprio patrimônio histórico. Isto é, se permitir às pessoas apropriar das ferramentas intelectuais da disciplina da História para poder compreender e problematizar as ligações do próprio patrimônio histórico com o presente.
Talvez seja esse o aspecto mais singular e estratégico legado pela experiência das visitas guiadas ao Cemitério Municipal São Francisco de Paula: a capacidade de ensinar seus participantes a “ler” os registros do passado. Com toda a probabilidade, nenhum dos agraciados com a participação em tais visitas jamais tinham sido introduzidos ao complexo e erudito universo da interpretação e compreensão de fontes históricas, no caso, o cemitério e os túmulos nele contidos. No senso comum predomina o entendimento de que “túmulos são todos iguais” ou “viu um viu todos”.
A visita guiada tinha precisamente o dom de equipar seus frequentadores, de um ponto de vista técnico e científico, com o arcabouço intelectual necessário para transcender a alienação usual e conseguir efetivamente apreciar o cemitério na sua historicidade. A partir daí os frequentadores das visitas puderam começar a interpretar e entender por que os cemitérios assumem determinada configuração, por que os túmulos têm diferentes formatos e qual a relação dessas transformações com a própria história que vivem.
Objetivamente, o processo de formar o profissional capaz de propiciar o letramento histórico no que se refere aos estudos e turismo cemiteriais jamais poderia se dar a partir do nada, ou de algum apressado e rasteiro curso de baixa carga horária. É importante destacar que, no êxito das atividades aqui descritas, logrou um papel fundamental a extensa e detalhada pesquisa histórica realizada anteriormente as atividades pela sua proponente. Somente depois de ampla e profunda pesquisa sobre os registros e fontes históricas disponíveis sobre o cemitério, seus túmulos e as práticas sociais a ele ligadas é que foi possível propor tais visitas guiadas.
Este é, sem dúvida, o maior diferencial social e intelectual das visitas guiadas, planejadas e propostas por Clarissa Grassi. A invés de uma visita mediada por um leigo apenas para fins turísticos ou de lazer, presumivelmente dedicada apenas a curiosidades ou elementos chamativos daquele espaço, foi oferecido ao visitante, de forma embasada e sistemática, o arcabouço conceitual, teórico e metodológico para entender o cemitério com relação ao seu próprio tempo, em diferentes contextos históricos, até chegarmos aos dias de hoje.
Trata-se de uma constatação chocante para aqueles que consideram o conhecimento científico produzido na área das Humanidades como inútil, irrelevante, subjetivo ou partidarizado. Sim, é possível usar do conhecimento histórico embasado cientificamente para agregar valor simbólico e cultural a praticamente todo patrimônio coletivo. Esta é, com efeito, uma das finalidades da Educação Museal e Patrimonial.
Para além do mérito pessoal e da inquestionável ética com que soube se conduzir ao longo de todas as atividades das quais tomou parte no interesse da educação patrimonial e do turismo cemiterial em nossa cidade, cabe enfatizar que Clarissa Grassi revelou à uma comunidade distante e cética, afinal, para que serve o conhecimento produzido na área das humanidades na universidade.
O saber histórico e cultural a que os frequentadores das suas visitas guiadas tiveram acesso só foi possível graças ao conhecimento detalhado, extenso e objetivo que ela produziu em sua pesquisa científica prévia sobre o cemitério. Que esse conhecimento tenha conseguido se transmutar em contribuições reais e objetivas no interesse da educação patrimonial e ao turismo cemiterial não deveria surpreender ninguém, mas infelizmente no Brasil – que voltou as costas para o conhecimento produzido pelas ciências humanas – ele se torna de fato singular e absolutamente extraordinário.
Seria óbvio então se esperar que o êxito das atividades desenvolvidas por Clarissa Grassi devesse ter inspirado a generalização da sua proposta. Todos os cemitérios importantes de Curitiba deveriam ter pelo menos um encarregado da educação patrimonial e do turismo cemiterial, recrutado entre os pesquisadores da história de cada um deles. Desta forma, o entorno desses cemitérios se beneficiaria com a condição de terem sido elevados à categoria de atração turística, dinamizando as cadeias produtivas locais. Igualmente beneficiados seriam as escolas de educação básica que poderiam contar com a visita guiada ao cemitério como um importante e relevante conteúdo curricular, inclusive no interesse do atendimento dos objetivos da vigente Base Nacional Curricular Comum (BNCC).
Dentre tantos cemitérios que mereceriam a implementação imediata e permanente de visitas guiadas gostaria de destacar o Cemitério da Água Verde, pela quantidade de túmulos notáveis ali presentes, incluindo-se o mausoléu dos Ex-Combatentes da Segunda Guerra Mundial, construído pela Legião Paranaense do Expedicionário (LPE); e o Cemitério Israelita da Santa Cândida, com túmulos de políticos famosos como ministros, governadores e pelo menos um prefeito.
É na condição de profissional da área e cidadão curitibano que, como a maioria da população, reagi com surpresa e decepção à notícia do fim das visitas guiadas ao Cemitério Municipal. Como todos também sigo no aguardo de uma manifestação da administração municipal. É fundamental refletir sobre o que está por trás da extinção de uma iniciativa de tão baixo custo e que tantos benefícios trouxe e poderia continuar trazendo para nossa cidade. Também seria importante saber o que a administração municipal pretende colocar no lugar dessas atividades e o que fará para lograr os mesmos efeitos que ela até o fim foi capaz de obter.
Trata-se de mais uma oportunidade de saber se de fato existe alguma análise racional de políticas públicas na atual gestão pública municipal, ou se estamos sendo apenas reféns das subjetividades, caprichos e interesses puramente pessoais dos que exercem cargos no governo.
Dennison de Oliveira foi frequentador das visitas guiadas ao Cemitério Municipal, é Professor Sênior do Mestrado Profissional em Ensino de História da UFPR e autor do livro “Professor-Pesquisador em Educação Histórica” publicado em 2012, para comprar a obra clique aqui.
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