ANO IV

23/06/2026

HojePR

mauro mueller

Quebra-Cabeças

28/04/2026
quebra-cabeças

A porta dos fundos estava entreaberta, um pequeno empurrão e eu já entrei.

O ranger da dobradiça, a falta de graxa e o barulho, me fizeram ter mais cuidado, parei e olhei em volta.

Abri bem devagar.

Não teve jeito, o barulho era irritante. Ouvi um daqueles sinos de alerta, de artesanato, que balançava ao ventar. Era um mobile de ferro, feito à mão.

Já ouvia desde que me aproximei da varanda.

A luz da cozinha acesa mostrava uma pequena montanha de louças sujas na pia. Na mesa ainda havia um prato com restos de comida e um cheiro de muitas horas sem recolher exalava pela casa, convidando moscas varejeiras para a feira.

Como eu já tinha certeza do vazio daquela casa, relaxei.

Pude ver da janela da lavanderia, no quintal, uma luz incandescente.

O fogo nas tralhas de madeira acusavam outra ideia de presença. Se esta fogueira está no brasido, quem a fez não voltou para dentro. Pegadas de um sapato velho deixavam o terreno pelos fundos. Me abaixei para tentar decifrar algo e um cheiro agradável de terra molhada chegou no meu nariz, para me acalmar.

Voltei para dentro da casa.

Abri a velha geladeira e havia pouca coisa: Uma compra recém estocada. Um tomate, duas cenouras, um pão integral em pacote fechado e um pote de pasta de amendoim já aberto.

Desconfiei da cor.

Enfiei o dedo no conteúdo de cor estranha, esfreguei na mão e cheirei. Não era pasta de amendoim, mas tinha o mesmo aspecto, com a cor diferente. Coloquei amostras daquele produto pastoso num pacotinho. Escutei um barulho vindo da parte da frente. Passei os olhos no quarto e vi uma bagunça de roupas jogadas no chão, a cama desarrumada, o criado mudo com um cinzeiro lotado e, na sala de estar escura, havia uma televisão ligada em volume baixo, num canal de TV aberta. Alguém teria saído às pressas, pois mesmo com as janelas e cortinas cerradas na parte da frente, os fundos da residência de madeira entregavam a ausência, sem se preocupar com a segurança.

Liguei para a Central e a informação se confirmou: O imóvel estava em nome do avô materno do principal suspeito.

William Kurt era sozinho, não era muito de conversa, dois vizinhos disseram que não o viam há dias. A morte da jovem estudante da High School Hereford Maryland estampava a primeira página do Daily Record, jogado em cima da mesa de centro, na sala da casa do Sr. Kurt.

Montei o quebra-cabeças.

O culpado do crime sumiu, logo após ler a notícia da investigação. Uma entrevista do prefeito Robert Smith às 18 horas na TV local, tranquilizava a cidade pacata, de que o suspeito já havia sido localizado, um dia antes da minha visita.

Políticos atrapalham sempre, querendo dar uma resposta para a comunidade.

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