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LITERATURA

Uma poesia que vai chão ao espaço: em “estado febril”, Thaís Campolina entrelaça cosmos e memórias familiares

26/03/2025

O novo livro da mineira Thaís Campolina“estado febril” (Macabéa Edições, 98 págs.), usa metáforas espaciais para discorrer sobre o amadurecimento, em especial de meninas e mulheres. Vencedora do Prêmio Poesia InCrível de 2021 com “eu investigo qualquer coisa sem registro”, a autora retorna à poesia e cria versos repletos de ternura e sutileza que aproximam a poeira das estrelas das miudezas cotidianas, consolidando-se como um dos nomes em evidência na poesia contemporânea brasileira.

A Macabéa Edições se dedica a publicar somente escritoras mulheres e conta com uma equipe toda feminina. Logo, os paratextos da obra também são assinados por escritoras: o texto de orelha é assinado pela capixaba Carla Guerson; o blurb, na contracapa da escritora, da também capixaba Jeovanna Vieira, e o posfácio da brasiliense Letícia Miranda. O livro recém-lançado contou com uma pré-venda por meio de financiamento coletivo e arrecadou mais de 100% da meta estipulada.

Além de ser uma entusiasta da poesia, Thaís se mune dos mais variados assuntos pelos quais se interessou ao longo de sua vida para a construção de poemas que vão desde memórias de família até a mais profunda ligação com as estrelas e a criação do universo. Tudo isso sem nunca deixar para trás as histórias das mulheres, sejam próximas a ela, como suas avós, sejam as grandes cientistas e escritoras que viram seus feitos esquecidos ou creditados a colegas homens.

A memória se manifesta recorrentemente no livro. Isso porque Thaís acredita que, de certa forma, é na infância que está a origem de tudo: nas descobertas, nos laços afetivos e exemplos familiares. Estar diante das possibilidades que o mundo oferece e se perceber diferente de todos, inclusive daqueles que eram até então tudo que se conhecia é um assombro, assim como é se voltar para a casa e observar as idiossincrasias familiares como algo que também nos constitui.

Thaís assume um quê autobiográfico na obra, no entanto, ressalta que há também exercício criativo para compor os versos. “Brinco com meu nome e nomes de familiares, além de algumas memórias reais, para assim criar esse universo que quis desenvolver a partir da linguagem, da memória e dos interesses que já nutri”, constata.

Coming age de uma menina desobediente: uma jornada de inocência ao espanto

Para Thaís, a obra é uma investigação sobre a desobediência feminina, suas origens, consequências e possíveis trajetórias. “É um livro que também busca resgatar nomes, feitos e histórias das mulheres que vieram antes de nós, a partir de poemas que falam sobre laços familiares e também história da ciência e da literatura”, evidencia.

“Estado febril” é o coming of age de uma menina desobediente que tenta, a todo custo, não se deixar ser domada. Segundo Thaís, “é da desobediência que surgem a escrita, o pensamento crítico, a busca pelo conhecimento e o resgate da história das mulheres que vieram antes de nós”, temática cara à autora, que trabalha para a divulgação da escrita de mulheres por meio de diversas iniciativas culturais.

O livro é formado por quatro capítulos: “dupla hélice”, “corpo celular”, “lentes de quartzo” e “composição das estrelas” e, no início de cada um deles, há um texto remetendo a um feito invisibilizado de uma cientista ou pesquisadora.

Sua composição textual e escalada dos versos enseja proximidade, a cumplicidade de uma conversa. A autora exibe um vocabulário sofisticado, rico e repleto de metáforas, mas que não torna a escrita inacessível ou pedante. “Gosto de uma linguagem simples que evoca a oralidade, mas que fale além do que está sendo dito”, justifica a autora.

“Estado febril” também flui em cadência, a cada página ficam mais pungentes as semelhanças entre o espaço interno e o sideral. É como se fosse uma jornada da inocência ao espanto. As emoções se aprofundam e revelam dores, desejos e desajustes.

A sina de Divinópolis, cidade de Adélia Prado, e o livro que deu origem aos outros

Thaís Campolina nasceu em 1989, na cidade de Divinópolis, interior de Minas Gerais. Chegou a morar durante dez anos em Belo Horizonte, capital do estado, depois voltou para a cidade natal, onde vive até hoje. A jovem divide o gentílico com outra poeta, Adélia Prado, uma das mais celebradas escritoras brasileiras e influência inegável para quem nasce em Minas Gerais, e em especial, no mesmo município que o dela.

É pós-graduada em Escrita e Criação pela Unifor, e trabalha nessa área. Atua como redatora, resenhista, facilitadora de oficinas, e ainda realiza trabalhos editoriais como leitura crítica e acompanhamento de projetos literários. Também é mediadora de leitura nos clubes Cidade Solitária, Leia Mulheres Divinópolis e Casa das Poetas, além de curadora da página Bafo de Poesia.

Estreou na literatura em 2020 com o e-book “Maria Eduarda não precisa de uma tábua ouija” (2020), disponível na Amazon, no ano seguinte, lança-se na poesia com “eu investigo qualquer coisa sem registro” (Crivo Editorial, 2021). Nos anos seguintes publicou três plaquetes (livros em formato menor e com custo de produção reduzido): “noticiosas” (2023), “línguas soltas” (Primata, 2024) e “frigideira” (Tato Literário, 2024).

A ideia de escrever “estado febril” surgiu em 2021 a partir do minicurso “Dos avessos da genealogia: avós, silêncio, memória e transmissão”, ministrado por Danielle Magalhães e Flávia Trocoli. O processo seguiu e teve ainda maior vazão criativa durante o Curso Livre de Preparação de Escritores da Casa das Rosas (CLIPE), em 2023. “Acho que é um livro que de forma completamente indireta explica a origem de todos os outros que já escrevi e os que ainda vou escrever”, reflete a autora, que mantém a newsletter “brincar de esconder” no Substack.

Em novembro de 2024 o livro foi colocado em pré-venda pelo site de financiamento coletivo Benfeitoria com apoio da Macabéa Edições. Em poucos dias bateu as metas estipuladas e chegou ao final do período, em 14 de dezembro, com mais de 100% da meta alcançada e com 139 pessoas aderindo a campanha. Para a poeta, essa foi uma experiência editorial inédita. “O livro me transformou não exatamente por seu conteúdo, mas por sua trajetória antes de ser publicado”, revela, e sentencia: “Ele representa para mim a consolidação do meu sonho de ser escritora”.

Confira um poema do livro (pág. 76):

a sociedade das poetas vivas

além da margem

já no encontro

com o corpo celular

dos neurônios

as palavras viram

um unguento

prateado líquido

e possivelmente tóxico

para quem não foi acostumado

a essas altas doses 

de incômodo

com os joelhos avermelhados

de mercúrio-cromo

ou merthiolate

descobri

a desobediência

da linguagem

Adquira “estado febril” pelo site da Macabéa Edições:

https://www.macabeaedicoes.com/pagina-de-produto/estado-febril

FICHA TÉCNICA

Livro: “estado febril”

Autora: Thaís Campolina

Rede social da autora:

Número de páginas: 98

ISBN: 978-85-93637-22-3

Gênero: Poesia

Editora: Macabéa Edições

Ano: 2025

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