![]()
O ator Matthew McConaughey foi por muito tempo um símbolo das comédias românticas, mas conseguiu reverter sua persona cinematográfica e colocar Hollywood na palma da mão ao rejeitar dezenas de ofertas generosas para que seguisse estrelando papéis do gênero. Adotando tal estratégia, ele passou a ser visto com outros olhos pela indústria, enfileirou trabalhos dramáticos e ganhou o Oscar de Melhor Ator por Clube de Compras Dallas (2014).
Essa transição de carreira está relatada em seu livro de memórias Sinal Verde, recém-publicado no Brasil pela editora Sextante. Não se trata de uma tradicional autobiografia, mas sim de um compilado de anotações e diários que ele escreveu por 35 anos na intenção de desvendar o enigma da vida. A publicação traz as lembranças do americano desde a infância humilde no Texas até o estrelato nas telonas e o casamento com a modelo brasileira Camila Alves, oficializado em 2012.
McConaughey, que está promovendo seu novo filme O Ônibus Perdido (disponível na Apple TV+), de Paul Greengrass, respondeu por e-mail seis perguntas enviadas pelo Estadão sobre autoajuda, fama, fortuna, amor e os impactantes sonhos eróticos descritos por ele em Sinal Verde. Confira abaixo as respostas do astro de 55 anos.
ESTADÃO: Muitos leitores rejeitam livros de autoajuda e discursos estilo ‘coach’ que enganam as pessoas. Sinal Verde se enquadra nesse gênero?
MATTHEW: Não, senhor, eu não me propus a escrever um livro de autoajuda. Sinal Verde é uma coletânea de histórias e lições dos meus diários. Eu chamo de livro de abordagens, porque mostra como eu lidei com as situações que a vida me lançou, em vez de dizer a alguém como eles devem viver. No livro, eu lembro os leitores de que não posso dizer como viver a sua vida – posso apenas compartilhar o que funcionou para mim.
ESTADÃO: Em uma das melhores histórias do livro, você fala de um dia no qual não se preparou para um papel e foi surpreendido pela quantidade de diálogos em espanhol durante as filmagens. Isso prova que os atores podem ser consumidos por arrogância e egocentrismo?
MATTHEW: Essa história não foi tanto sobre arrogância, mas sobre ignorância. No início da minha carreira, aceitei um pequeno papel no filme independente Scorpion Spring – Uma Cidade Violenta (1995). Pensei em me manter relaxado não lendo o roteiro, apenas para chegar no set e encontrar um monólogo de uma página e meia em espanhol. Pedi 12 minutos, olhei para a página e percebi que meu espanhol era terrível. Eu gaguejei através dela, terminei o dia e disse “nunca mais”. A lição foi que a liberdade requer preparação – você ganha o direito de improvisar. Isso me ensinou humildade e responsabilidade.
Ver essa foto no Instagram
Uma publicação compartilhada por Matthew McConaughey (@officiallymcconaughey)
ESTADÃO: É comum que atores fiquem deslumbrados pelas fortunas de Hollywood. Como você lidou com isso, vindo de uma família humilde no Texas?
MATTHEW: Eu cresci em uma casa de classe trabalhadora no Texas onde meu pai me ensinou a nunca fazer nada pela metade. Eu ainda dirijo minha caminhonete, cozinho jantar para minha família e administro minha Fundação Just Keep Livin’ [criada com a missão de capacitar estudantes do ensino médio]. Trata-se de ser grato e fazer o trabalho – isso te impede de ficar deslumbrado.
ESTADÃO: Você foi um símbolo de amor em comédias românticas, mas demorou um tempo para encontrar o amor da sua vida, Camila Alves. Você percebia e pensava sobre esse contraste entre sua persona na tela e na vida real?
MATTHEW: Quando conheci Camila, levamos nosso tempo e construímos uma amizade antes que se tornasse um casamento. O contraste não me incomodava porque meu trabalho não definia meu coração e está claro o que é vida real e o que está na tela.
ESTADÃO: É bastante curioso ler sobre seus sonhos eróticos bizarros no livro. Como esses sonhos despertaram sua sexualidade e transformaram sua vida?
MATTHEW: Em 1996, sonhei que estava flutuando nu pelo Rio Amazonas envolto em jiboias e anacondas. Acordei e decidi ir ao Peru e literalmente flutuar pelo Amazonas. Mais tarde sonhei com guerreiros tribais cantando e me cortando; isso me levou ao Mali, onde lutei contra um gigante. Esses sonhos foram sinais verdes; eles me empurraram para o mundo, me forçaram a enfrentar o medo e expandiram meu entendimento de mim mesmo.

Sinal Verde
Autor: Matthew McConaughey
Tradução: Carolina Simmer
Editora: Sextante (320 págs.; R$ 53; R$ 33 o e-book)



