No jogo de cartas do mundo corporativo, onde a busca por estabilidade e ascensão profissional é uma constante, um comportamento sempre prospera: o puxa-saquismo.
Uma prática que se manifesta como uma bajulação excessiva do funcionário para com seus gestores na busca de favores, promoções ou mesmo para garantir seus empregos, transforma os escritórios em palcos de hipocrisia. O mérito, que deveria ser a moeda de troca no mercado de trabalho, é frequentemente substituído pela habilidade de elogiar o chefe, concordar com decisões questionáveis ou demonstrar uma dedicação superficial.
O resultado? Ambientes tóxicos, inovação sufocada e uma legião de profissionais desmotivados.
O puxa-saquismo não surge por acaso, ele é fruto de uma cultura empresarial que, muitas vezes, prioriza a obediência cega acima da criatividade ou do pensamento crítico. Em meio ao medo do desemprego muitos trabalhadores se sentem pressionados a adotar posturas de sobrevivência, ampliando um comportamento de puxa-sacos como tática para garantir seu lugar ao sol.
Não é raro ver funcionários se submetendo a situações ou ordens descabidas, onde aceitam até “pintar a cerca da casa do chefe” para impressionar ou calando-se em reuniões diante de decisões absurdas, temendo represálias.
Sabe aquele jabuti em cima da árvore? Alguém colocou ele lá.
Histórias de empresas onde escândalos de corrupção revelados pela Operação Lava Jato expuseram como que uma cultura de bajulação e conivência foi a que facilitou desvios bilionários. Gestores que priorizavam a lealdade pessoal acima da competência criaram um ambiente onde questionar era arriscado, e o puxa-saquismo proporcionou o caminho para decisões desastrosas, com práticas antiéticas que culminaram em multas e reputações destruídas. Essas histórias, provam como a bajulação pode destruir grandes empresas.
Mas o custo do puxa-saquismo vai além das empresas, quem se habitua ao puxa-saquismo mata a autenticidade, vivendo em um estado de ansiedade constante para manter a fachada. Isso já tem até um nome, “síndrome do impostor invertido”, porque acreditam que seu valor depende exclusivamente da aprovação do chefe.
E os colegas que preferem apostar no mérito? Esses notam um cenário desanimador quando percebem que promoções e reconhecimentos vão para bajuladores, gerando assim desmotivação e cinismo, aumentando a rotatividade dentro da empresa.
Quem nunca considerou deixar o emprego por se sentir injustiçado?
E como acabar com isso? Empresas como a Natura investe em uma cultura de transparência e feedback aberto e mostram com isso que é possível valorizar o mérito. Lá, programas de desenvolvimento incentivam a diversidade de ideias, e o diálogo aberto reduzindo a necessidade de bajulação. Outra referência que encontrei em minha pesquisa é a Magazine Luiza, que implementou práticas de gestão horizontal, onde o mérito técnico é priorizado por meio de avaliações de desempenho baseadas em resultados concretos.
Como nem todas as empresas investem nesses tipos de programas resta aos profissionais investir em si: desenvolver competências, construir uma rede de contatos sólida e, se necessário, ir atrás de empresas que valorizem a autenticidade.
O futuro do trabalho, com o avanço do modelo híbrido e do home office, pode ajudar a diluir hierarquias rígidas, mas o puxa-saquismo não desaparecerá enquanto líderes egocêntricos e culturas de medo persistirem. Cabe às empresas cultivarem ambientes onde o mérito prevaleça, avaliando promoções e desestimulando a bajulação. Afinal, o sucesso verdadeiro não vem de aplausos forçados, mas de contribuições reais.
Fico na torcida que o mundo corporativo deixe de ser um circo de falsidades e se torne um palco para talentos genuínos.
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