ANO IV

18/06/2026

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sergio

Cansei de Ser Sexy

13/11/2025
sexy

Quando mudei para São Paulo, em 1998, dava para sentir uma efervescência no seu ar cultural. Um dos pontos altos era a moda, capitaneada pela turma do estilista Alexandre Herchcovitch, e o outro era a música techno, que dominava o som da metrópole. Poucos anos depois, em 2003, surgiria a banda Cansei de Ser Sexy (CSS): uma fusão entre estes dois polos criativos. Sua música techno punk, embalada por figurinos ousados, logo me pegou. Veja aqui o clipe de “Alala”, um de seus sucessos, para entender o impacto na época.

A CSS, tornou-se em pouco tempo uma das maiores representantes da música indie brasileira, conquistando fãs e crítica pelo mundo com seu estilo irreverente, visual fashion, letras provocativas, numa mescla de inglês e português, e sonoridade única. O nome curioso da banda surgiu da cantora Beyoncé, que teria dito a frase “cansada de ser sexy”. Inspiradas por essa declaração, os integrantes decidiram adotar o nome que, além de divertido, reflete o tom irreverente presente em suas músicas e apresentações.

A revista piauí de setembro traz uma matéria alentada, de Danilo Marques, sobre a banda e destacamos informações importantes sobre o seu início:

Cansei de ser sexy começou a surgir num clube do Baixo Augusta, o Funhouse. Em agosto de 2003, no primeiro aniversário do clube, uma das atrações da festa foi a apresentação do músico Adriano Cintra com sua banda I Love Miami. Em meio ao público, estava a mineira Iracema Trevisan, que vinha matutando um novo projeto para sua vida: criar um grupo musical. Na época com 20 anos, Iracema era estudante de moda na Faculdade Santa Marcelina e assistente de Alexandre Herchcovitch (conte quantas vezes ele vai entrar nesta história). Embora não fosse amiga de Cintra, mantinha contato com o músico, que namorava o artista plástico Maurício lanês, o braço direito de Herchcovitch.

O alvoroço no Funhouse com a “banda de barulho” (como a definiu Cintra) durou cerca de 20 minutos. Ao final, Iracema procurou Cintra para cumprimentá-lo e, além dos elogios, propôs que lançassem juntos um novo grupo. Ele respondeu de maneira bem lacônica: “O.k., a gente se fala.” Naqueles tempos, Cintra, que vivia criando bandas, alugava uma sala no bairro Barra Funda, onde fazia ensaios.

Dias depois da conversa-relâmpago no Funhouse, ela insistiu com o músico sobre a criação do grupo e aproveitou para pedir emprestada a sala na Barra Funda, a fim de fazer um primeiro ensaio. Ele perguntou quem iria.

“A Ana, a Luiza Sá, a Maria Helena. E uma garota que você vai adorar conhecer: a Luísa Matsushita. “Ela é ótima. E tem uma guitarra.”

Foi nas baladas paulistanas que Matsushita conheceu Ana Rezende, de 20 anos, estudante de cinema, Luiza Sá, de 19 anos, que fazia artes plásticas, e Maria Helena Zerba, também de 20 anos, aluna de uma faculdade de moda. “Toda quinta, nós íamos à Torre”, recorda Rezende. A quinta-feira era a melhor noite do badalado clube no bairro de Pinheiros, ou pelo menos a noite mais divertida, porque era quando acontecia a festa Debut, que atraía figuras descoladas da moda e das artes.

Matsushita chegou ao ensaio na Barra Funda vestindo uma camisa da banda britânica de rock Motörhead. Ela conta que, ao entrar na sala e encontrar toda a turma já reunida, sentiu-se um peixe fora d’água. Para piorar, o único posto que tinha sobrado na banda era o de cantora. Ela arranhava na guitarra, mas de cantora só sabia gritar.

“Ela não sabia cantar nada, só sabia gritar”, diz Cintra à piauí. Com o que Matsushita concorda. Se não era possível cantar, que ao menos berrasse.

“Ela berrava como a Kathleen Hanna”, recorda Ana Rezende, em tom de elogio, comparando a amiga à cultuada cantora da banda de punk feminista Bikini Kill. “Apesar de eu ser tímida, a performance é que era meu forte”, avalia Matsushita. De fato, seria a desenvoltura de Lovefoxxx (seu pseudônimo) nos palcos, mais que sua voz, que logo chamaria a atenção para a nova banda. “Ela não era discreta e não queria passar desapercebida”, diz Herchcovitch, que assistiu a alguns dos primeiros shows.

Realmente, pelos videoclipes dá para ver que Matsushita era o principal destaque da CCS. Seu gracioso pseudônimo foi escolhido ainda em 2002, quando acessou um site dos primeiros anos da internet, o Pornalizer, cuja brincadeira era oferecer ao usuário um nome com o qual poderia tentar carreira no mercado pornô. Ela digitou seu nome completo e o site lhe sugeriu Linda Love Fox (a raposa do amor). Bingo! Matsushita juntou os dois sobrenomes, acrescentou dois X, a fim de deixar mais contemporâneo, e criou o apelido com o qual começou a assinar desenhos e ilustrações. Chegou em São Paulo (vinda de Campinas) com apenas 16 anos para ser estagiária no evento de moda Casa de Criadores. Uma chance única para se aproximar dos estilistas que admirava e mergulhar na cena underground paulistana. Daí passou a trabalhar para o estilista Caio Gobbi até que acontecesse o Cansei de Ser Sexy em sua vida.

A banda começou de maneira descomprometida e com exceção do baterista Adriano Cintra, ninguém sabia tocar direito seus respectivos instrumentos. Destacaram-se após criarem um blog de fotos e aparecerem na Folha de S. Paulo, nas colunas de Lúcio Ribeiro e Érika Palomino.

Passo a passo, mas bem rapidamente, o Cansei de ser sexy foi cavando o sucesso. Em 9 de janeiro de 2004, a jornalista Erika Palomino, então a mais influente na cobertura da noite, mencionou pela primeira vez o grupo em sua coluna:

E por aqui fica como apostinha de 2004 as meninas do Cansei de ser sexy. Já tinha ouvido falar, mas vi ao vivo na última semana de dezembro no D-Edge [um clube paulistano]. O vocal principal é da absurda Love Foxxx, codinome para a fashionista Luiza, ex-assistente de Caio Gobbi. Adriano Cintra vai na bateria, e as outras atacam na baderna bem punk, com todos os elementos necessários. As letras são irônicas e divertidas, com frases tipo I wanna be your J. Lo [Jeniffer Lopez].

No caso do Cansei, foi um dos momentos em que tive a exata sensação de que estava diante de uma coisa que ia dar um caldo. Os principais elementos que chamaram a atenção de Palomino foram a jovialidade desafiadora, a intersecção com a moda e a atitude punk, “tipo: a gente não sabe tocar, mas não tem problema algum não saber”. “Era confronto, mas confronto com charme: eles não tinham a contestação do rock, eram bastante irônicos.”

O crítico musical Lúcio Ribeiro – jornalista muito atento à cena indie rock em São Paulo – lembra que, a partir de dado momento, não havia ninguém que fosse indiferente ao Cansei de ser sexy e ao modo como o grupo tentava “arejar” a música brasileira. Em 2 de abril de era 2004, em sua coluna Popload, também na Folha de S. Paulo, Ribeiro selecionou Meeting Paris Hilton entre suas músicas preferidas da temporada:

O explosivo combo de garotas de SP tem o diferencial indie, por onde quer que você olhe. É luxuoso, festeiro, e o som melhora a cada dia. Tem atitude, tem a Lovefoxxx no vocal, o Adriano Butcher [codinome de Cintra] na bateria, mescla guitarra barulhenta com teclado vagabundo, escolhe os temas das músicas tão bem quanto o do Los Pirata [um trio brasileiro que ninguém mais lembra].

Ainda em 2004, foram atração do Tim Festival, tocando no mesmo palco do mítico Kraftwerk. A apresentação da banda foi um fiasco. O Cansei de Ser Sexy teve que afinar os instrumentos quando já estava no palco, porque não foram autorizados antes, o que atrasou a programação do evento e irritou parte do público, que chegou a vaiar a banda. “Eu não faço ideia do que dizer a respeito daquele show. Foi um tiro no pé que nos deixou mais fortes”, disse Cintra ao jornalista Thiago Ney, três anos mais tarde. “Não nos deixar passar o som foi uma palhaçada que até hoje eu tenho raiva. Muita gente falou mal, muita gente ainda vai falar mal e eu tenho coisas mais importantes para me preocupar.”

No ano seguinte, subiram no palco do Campari Rock, que ainda teve como atração MC5 e os The Kills. No mesmo ano, assinaram com a Trama, por injunção de Carlos Eduardo Miranda, e lançaram seu primeiro extended play intitulado Em Rotterdam Já É uma Febre, com as canções do trabalho chegando a ser executadas na rádio do Reino Unido Kiss 100 FM. Em 21 de agosto de 2004, o jornal britânico The Guardian dedicou uma reportagem de página inteira à nova música alternativa brasileira e o destaque foi dado ao CSS. O título da matéria era “Alguém quer um pouco de samba satânico?”, onde o jornalista Peter Culshaw escreve: “sua sensibilidade pop, maquiagem brilhante, e subversão me deixaram perplexo, encantado e me conquistaram totalmente”.

Em 2 de janeiro de 2005, lançam de forma independente o segundo EP, A Onda Mortal / Uma Tarde com PJ. Em 9 de outubro do mesmo ano é lançado o primeiro álbum de estúdio da banda pela Trama, o homônimo Cansei de Ser Sexy, trazendo um misto de canções antigas e inéditas, de onde foi retirado o sucesso “Superafim”, que integrou a trilha sonora do programa Big Brother Brasil 6. Ainda a canção “Meeting Paris Hilton” entrou para a trilha sonora do reality show The Simple Life, estrelado pela própria Paris Hilton. Para promover o trabalho do grupo é lançado em 25 de outubro de 2005 um terceiro EP intitulado CSS SUXXX. O álbum teve distribuição nacional com o suporte de diversas mídias, e ainda trouxe a proposta inovadora de, em uma edição limitada, incluir um CD-R na mesma embalagem. O intuito era o de que o comprador passasse as canções do álbum para seu computador, gravasse o conteúdo no CD-R e presenteasse um amigo, prestando uma homenagem à disseminação de música por meio da Internet. A canção “Computer Heat” fez parte do jogo The Sims 2: Vida Noturna, com uma versão em Simlish. Na segunda metade de 2006, dividiram palcos fora do Brasil com bandas como Ladytron, 1990s e Basement Jaxx, em concertos por países da Europa.

Pouco tempo depois, assinaram contrato com o selo Sub Pop, de Seattle, conhecido por lançar bandas icônicas como Nirvana, e lançam uma nova versão do primeiro álbum na Europa e Estados Unidos, retirando as canções em português e adicionando novas em inglês. O álbum alcançou a posição sessenta e nove no Reino Unido, vinte e quatro na Irlanda e nove na Billboard Top Electronic Albums, nos Estados Unidos. Em 2007, é lançada a faixa “Music Is My Hot Hot Sex” como single final, entrando para a Billboard Hot 100 na posição sessenta e três e no Canadá, onde alcançou a posição doze. Com isso, CSS tornou-se uma das poucas bandas brasileiras a integrar o circuito indie global.

Em maio de 2007, as canções “Alala” e “Off the Hook” foram incluídas na trilha sonora do jogo Forza Motorsport 2 para o Xbox 360, lançado oficialmente no Brasil e nesse mesmo mês a canção “Ódio, Ódio, Ódio, Sorry C.” foi incluída na trilha sonora de Need For Speed: ProStreet. Em julho, a banda partiu para uma turnê internacional nos Estados Unidos e Canadá, ao lado da banda curitibana Bonde do Rolê (que fez um relativo sucesso na época) e do DJ americano Diplo. Em 16 de junho, tocaram em um dos festivais mais populares da atualidade, o O2 Wireless em Londres, para um público de mais de vinte mil pessoas. Em outubro de 2007, Nick Haley, um jovem estudante americano, criou e editou um comercial amador que mostra o iPod Touch, da Apple Inc., com a canção “Music Is My Hot Hot Sex” como plano de fundo. Como a música combinava muito com o produto, a Apple Inc. se interessou e decidiu veicular o anúncio em algumas emissoras de televisão norte-americanas. O videoclipe foi o primeiro na história do site Youtube a receber 100 milhões de visitas, o recorde até aquele momento. Neste ano, o grupo fez 300 shows em vários países, uma média de 25 apresentações por mês.

Uma reportagem de capa na edição de março de 2008 da britânica Dazed, na época uma das mais influentes publicações de cultura e música jovem, consagrou a banda no universo anglófono.

A capa trazia uma foto de Lovefoxxx com um macacão colante multicolorido e cheio de brilhos (a mesma foto que abre esta matéria). Dentro da revista, doze páginas dedicadas ao grupo brasileiro.

Outra publicação importante do mundo da música pop e rock, a revista New Musical Express (NME), ampliou o coro, elegendo Lovefoxxx, no mesmo ano, como a 14ª pessoa mais cool do mundo.

Em 2 de abril de 2008, pouco antes de finalizarem o trabalho no novo álbum, Iracema Trevisan, uma das fundadoras e baixista principal do Cansei se Ser Sexy, deixa a banda. Na ocasião, alegou que o grupo estava se tornando sério demais, uma vez que havia sido criado o CSS como forma de divertimento e não seriedade na música. Adriano Cintra, guitarrista e segundo baixista, ocupou o posto de Iracema. Em 22 de julho, é lançado o álbum Donkey, trazendo um som mais dançante. O álbum, que vendeu em torno de 100 mil cópias, alcançou a posição cento e oitenta e nove na Billboard 200 e trinta na Billboard Independent Albums, além de vinte e dois na Finlândia, cinquenta e quatro na França, trinta e dois no Reino Unido e trinta e sete na Irlanda, se tornando o trabalho de maior sucesso da banda. Em 28 de julho, é lançado o primeiro single do trabalho, “Rat Is Dead (Rage)”, disponibilizado para download digital no site oficial da banda na internet, porém não apresentando desempenho nas paradas estrangeiras. Como single final do álbum foi lançada a canção “Move”.

Veja aqui uma típica excursão da CSS no clipe de Move.

Em 2011, após um longo período apenas realizando shows e romperem com a Sub Pop para assinarem com a V2 Records, lançam a canção “Hits Me like A Rock”, primeiro single do novo trabalho, música do jogo FIFA 12. O álbum “La Liberación“ é lançado em 22 de agosto de 2011. A canção “City Grrrl” esteve presente em The Sims 3: Pets, com uma versão em Simlish. Em julho de 2012, a música “Funplex (CSS Remix)” foi relançada como DLC apenas para o Xbox 360 no Just Dance 3.

Em 11 de novembro de 2011, Adriano Cintra anunciou a sua saída do grupo. Disse que o motivo foi devido a problemas de atitude dos outros membros da banda, alegando que eles deixaram a fama subir à cabeça. O músico ainda declarou que não autorizava nenhum deles a continuar usando as músicas compostas por ele em nenhum de seus próximos shows. Só dois anos depois o empresário do grupo mandou o distrato para Cintra. Num e-mail enviado às quatro participantes que restaram: Luísa Matsushita, Ana Rezende, Carolina Parra e Luiza Sá, o músico escreveu: “Assinei o papel. Essa bosta de banda aí é toda suas! Façam bom proveito.” De acordo com o distrato firmado na Califórnia – onde a maior parte do grupo vivia na época – ele passou a receber os direitos autorais meramente como autor, com o que Cintra não se conforma até hoje.

Em novembro de 2012, disponibilizam uma nova música chamada “I’ve Seen You Drunk Gurl”. Em 8 de abril de 2013, a banda confirmou via Facebook o novo álbum, chamado Planta, para 11 de junho do mesmo ano. Também foi liberado o primeiro single chamado “Hangover”. Segundo Lovefoxxx: “Nos divertimos muito o fazendo e conhecemos pessoas incríveis durante o processo. Alugamos uma casa em Los Angeles e fazíamos música o dia todo. Nosso primeiro single ‘Hangover’ é como um verão no espaço para mim. Nós mal podemos esperar para as pessoas ouvirem o álbum!” Produzido por Dave Sitek, do TV on the Radio, o disco foi negativado pela crítica especializada. Após o lançamento do projeto, o CSS entrou em um hiato que perdurou por anos.

Em 2 de dezembro de 2023, subiram no palco do festival Primavera Sound, em São Paulo, no que era planejado para ser um show único. Lovefoxxx declarou ao público presente: “Vocês não sabem o que a gente passou para estar aqui hoje”. Depois, o grupo fez uma turnê com cerca de 30 apresentações em cidades dos Estados Unidos, Europa e Japão em 2024 para comemorar o 20º aniversário de sua formação. Ainda não se sabe se foi sua última turnê ou se podem retornar de repente aos palcos.

Além de abrir portas para outras bandas brasileiras no exterior, Cansei de Ser Sexy contribuiu para a valorização da cena independente nacional, mostrando que criatividade e ousadia podem romper barreiras linguísticas e culturais. O grupo influenciou gerações de artistas, especialmente mulheres, pela atitude e originalidade. Tomara que ainda voltem.

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