
Conheci Asaph Eleutério (o rapaz da foto acima) no Bar Nina, num recital de poesias denominado “Outubro Vermelho”. Ele me deu o seu livro “Cena de Cenas: Do Rock de Inverno aos Índios Eletrônicos”, que li interessado pelo tema. A obra é uma pesquisa sobre a produção musical independente de Curitiba entre os anos 90 e 2000, focando nas cenas, redes e territórios musicais da cidade. Como um sobrevivente da cena dos anos 80, tenho curiosidade em saber como a música autoral curitibana se desenvolveu nos anos posteriores.
Na contracapa do livro, Eleutério dá umas pistas sobre o seu conteúdo:
“O que enxergamos ao nos aproximarmos demais de um mosaico? Se, por um lado, o monolito da obra de arte possa se perder em fragmentos dessemelhantes, a atenção dada a cada tessela que compõe a imagem, a como cada ladrilho se conecta a outro, permite ao observador reinterpretar o que vê não como uma criação singular, mas muitas criações num mesmo objeto. É isso que “Cena de Cenas” se propõe a fazer. Ao descrever a cena musical de Curitiba desde os anos 90 até seus reflexos na contemporaneidade, dando ênfase aos momentos e movimentos vividos no início dos anos 2000, este projeto compõe um vasto mosaico de nomes, canções, festivais e casas de show que se conectam na — ou ao menos coabitam a — cidade, onde amizades, parentescos, aproximações culturais e a vontade juvenil de se viver a música se sobrepõem, e são aqui apresentadas peça por peça, para que o leitor, ao conhecer ou se reconectar com as canções-símbolo dessa pequena era, possa enxergar duas, três, quatro ou mil partes nesse nostálgico quadro de guitarras, sintetizadores e splashes de cor no cinzento céu da capital paranaense.”
Natural de Curitiba, Asaph Eleutério é bacharel em música popular e mestre em música pela UNESPAR. Sua presença no mundo das artes se dá a partir de 2004, e desde então atua na composição autoral, teatro, arte-educação e produção musical. Além de suas participações em iniciativas como o grupo de teatro Coletivo Boato Clandestino, o selo coletivo Subtropicália e o grupo Alimentadores da Região, Asaph se dedica a uma carreira musical solo que conta com seis lançamentos de álbuns, todos compostos, gravados e produzidos pelo próprio artista nos últimos onze anos. Diagnosticado com esclerose múltipla, Asaph desenvolve trabalhos conjuntos com seu irmão, Nathan Eleutério, artista visual e portador de síndrome de down, cujas criações audiovisuais buscam trazer à tona a questão da inclusão da pessoa com deficiência como um indivíduo ativo na sociedade. Asaph também é o atual presidente do Simupar, sindicato dos músicos do Paraná.
“Cena de Cenas” é resultado da dissertação de mestrado desenvolvida por Eleutério entre 2021 e 2023 na UNESPAR, intitulada “Do Rock de Inverno à Última Oração: As cenas, as redes e os territórios musicais de Curitiba nos anos 2000”, cujo texto foi premiado pela FUNARTE no programa FUNARTE Retomada 2023.
Além do livro, o projeto tem um site próprio com áudios, vídeos, imagens e hiperlinks, para quem busca mais informações sobre a pesquisa. Ali, você poderá ver entrevistas com figuras importantes da tal cena dos anos 2000: Xanda Lemos (Criaturas), André Ramiro (ruído/mm e Índios Eletrônicos), Rapha Moraes (Poléxia e Nuvens), Dary Jr e Allan Yokohama (Terminal Guadalupe), Marcelo Borges (videomaker e dono de bares), Marielle Loyola (Escola de Escândalos, Arte no Escuro, Volkana e Cores D Flores) e Adriane Perin e Ivan Santos (OAEOZ), os idealizadores e produtores do famoso festival Rock de Inverno, cuja trajetória é descrita em detalhes no livro. O site ainda disponibiliza gratuitamente a versão em PDF da obra para download e conta com uma versão em audiolivro, além de um documentário. Veja seu conteúdo aqui.
A apresentação do livro é escrita por Xanda Lemos, direto da Califórnia, onde mora atualmente, e descreve bem o clima da época:
“A virada do milênio foi um momento vigoroso para a música independente de Curitiba. Contudo, a emergência da “cena de cenas” aqui descrita reflete menos uma especificidade regional e mais um contexto amplo, marcado pelo acesso crescente a novas tecnologias, ao ensino superior, a setores de mercado cada vez mais diversificados e a demandas de consumo que aumentavam sob as égides da internet, da globalização e de uma economia forte e soberana.
“No início dos anos 2000, o Brasil finalmente parecia avançar. Nossa seleção era a melhor do mundo, conquistando o pentacampeonato em 2002. No mesmo ano, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente pela primeira vez e Criaturas e outras bandas surgiram no cenário musical. Éramos jovens, acreditávamos que podíamos tudo e entoávamos juntos refrões pegajosos que só nós conhecíamos. No auge da nossa frondosa e afrontosa juventude, aquilo tudo nos orgulhava muito. Principalmente o fato de sermos independentes e diferentes do resto.
“Nossa seletividade segregacionista não era sinal de fracasso. Muito pelo contrário, acreditávamos que era a prova de que nosso som era realmente foda. Não almejávamos o sucesso nem o mainstream, pois isso significaria romper com os princípios de total amadorismo e independência, que nos definiam. Éramos, certamente, uma banda independente: um grupo de jovens da classe média trabalhadora, majoritariamente brancos e privilegiados, com algum (talvez pouco) dinheiro, um tanto de talento e algumas ideias malucas e discursos mais ou menos progressistas. Mas não tínhamos, na época, grande noção nem a pretensão de romper paradigmas ou criar um movimento coeso o suficiente para mudar os rumos da música mundial, nacional ou paranaense.
“Mesmo sendo meros desconhecidos, dificilmente passávamos despercebidos. Fosse pelo nosso visual largado retrô, pelos óculos escuros ostentados sem pudor em plena noite, ou pelo nosso som, ao mesmo tempo tão novo e familiar, as poucas pessoas que nos assistiam pareciam sentir que o que reverberava dentro de nós pulsava nelas também. Éramos um circuito bem fechado, uma cena ainda em formação. Tanto as nossas conexões quanto as nossas desavenças eletrizavam as relações. Juntos, criamos músicas, respiramos muita fumaça, buscamos novos ares e forjamos, mesmo sem muito planejamento, uma cena fragmentada, mas contundente o bastante para, décadas depois, ser estudada.
“O fato de eu ser mulher num meio predominantemente masculino nunca me pareceu algo especial, muito menos uma anomalia digna de análise. Primeiro, porque nós, mulheres, vivemos num mundo patriarcal e, inclusive, obedecemos e reproduzimos, sem perceber, as regras invisíveis do patriarcado, internalizadas há séculos em nossos cérebros, corpos, pensamentos e palavras. Mas eu sempre soube que nunca, nunca estive só. Cresci em um ambiente familiar onde mulheres empunhavam instrumentos e cantavam lindamente, tanto quanto ou melhor que os homens. Minha primeira banda, Wasted, era comandada por Joan Lang, uma baita compositora que poucos de nós compreendiam, afinal, naquela época, mal sabíamos falar inglês. Depois, para tocar minhas próprias músicas, compostas em português, formei com Naína uma dupla que encantou Alice Ruiz, Jorge Mautner, Chico César, Jards Macalé e o mutante Sérgio Dias, com quem iniciamos a gravação de um disco que nunca foi concluído por causa de uma briga. Mas daquela frustração nasceu o Criaturas, que contava também com minha irmã, Tati Lemos, nos vocais. Dali, Tati foi para a banda Mordida e, depois, formou o Gianninis, grupo ao qual me juntei anos depois, ao lado de Andreza Michel e Babi Age. Tinha a Marielle Loyola, a Adri Perin. Nós, mulheres, não estávamos ali para enfeitar os palcos e a cidade. Fazíamos música, fazíamos história, mandávamos ver em cima dos palcos e fora deles.
“Como este livro demonstra, não estávamos sós: homens e mulheres, trabalhando juntos, fizeram o que parecia ser impossível — moveram montanhas e instituições para amalgamar diversos nichos musicais numa mesma cena. Sem a dedicação, o idealismo, a garra e o know-how de produtores, agitadores culturais e jornalistas muito mais experientes, antenados e bem conectados do que nós, aquela “renascença” de bandas e festivais talvez não tivesse ecoado tão forte, e certamente não teria deixado saudades, a ponto de continuar sendo reprocessada em nossas memórias e neste estudo.
“Entre ruídos, microfonias e berros propagados e abafados pelos becos, bares e buracos de som precário em que tecemos essa cena de cenas, Curitiba continuou sendo a mesma pacata, patriarcal e conservadora República de Curitiba. Algumas pessoas chegaram bem perto de entortar essa régua, de quebrar essa regra curitibana. Seus heroísmos, inventividades e astúcias estão narrados aqui. Mais do que um simples elogio de um músico e acadêmico que se propôs a analisar os grupos e as pessoas que o inspiraram, este livro é um registro fundamental para compreendermos como as novas formas de produção musical, impulsionadas pelas novas mídias e tecnologias de gravação e comunicação, impactaram e foram impactadas pelas nossas músicas. Aprecie sem moderação.”
“Cena de Cenas” foi o resultado de uma extensa pesquisa de Asaph Eleutério e traz à luz um período do underground musical curitibano ainda pouco estudado. Caso haja uma próxima edição, sugerimos uma revisão mais rigorosa para evitar erros como os ocorridos com a Grande Garagem que Grava, brevemente descrita no livro.
A Grande Garagem que Grava” (GGG) foi um projeto e espaço cultural em Curitiba, no bairro Rebouças, conhecido por gravar gratuitamente shows ao vivo de bandas paranaenses e as que mais foram beneficiadas foram justamente muitas das retratadas no livro “Cena de Cenas”. O projeto, criado por Luiz Ferreira e Rodrigo Barros Del Rey, e incentivado pela Fundação Cultural de Curitiba, lançou centenas de CDs e DVDs com as respectivas apresentações, que aconteciam lá mesmo, num pequeno auditório com palco, som e luz. Embora o projeto original tenha sido encerrado, suas gravações ainda podem ser encontradas em plataformas digitais. Ressaltemos que a garagem era sobretudo um ponto de encontro para a cena musical local, na primeira década dos anos 2000.
Pois bem, na página 131 de “Cenas de Cenas” a GGG aparece como sendo uma produção “de Rodrigo Barros del Rey e Fernando Lago”. Algumas páginas adiante os produtores passam a ser “Rodrigo del Rei e Luiz F. Lago (das bandas Beijo AA Força e Tessália)”. O segundo nome parece ser uma fusão de Luiz Ferreira e Samuel Lago, que também participou do projeto, mas que tocou na banda Post Meridien, não na Tessália.
Outro ponto que merece revisão é quanto à repetição excessiva de palavras como “agenciamento”, que aparece centenas de vezes no livro, provocando um involuntário efeito cômico. Feita estas ressalvas, recomendamos a leitura de “Cenas de Cenas”: uma bela iniciativa de mapeamento de um período efervescente na música de Curitiba, que culminou no grande sucesso de A Banda Mais Bonita da Cidade, formada em 2009, e que ficou conhecida dentro e fora do país com o videoclipe da música “Oração”.
Leia outras colunas Frente Fria aqui.



