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14/07/2026

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O que pesa sobre Nelson Tanure, alvo de operação da PF, na investigação do Master

14/01/2026
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O empresário Nelson Tanure é um dos alvos da Polícia Federal (PF) na segunda fase da Operação Compliance Zero deflagrada nesta quarta-feira (14). A operação cumpre mandados de busca e apreensão contra o empresário devido à realização de operações financeiras usando fundos e corretoras ligadas ao Banco Master. A defesa de Tanure não foi localizada para se manifestar.

Como mostrou o Estadão/Broadcast no ano passado, Tanure já era investigado desde 2024 pela PF por suspeitas de ser o controlador de fato do Master. Oficialmente, o dono do banco é Daniel Vorcaro, que chegou a ser preso (e depois solto) em novembro após a liquidação da instituição pelo Banco Central.

A aliança entre os dois empresários já apareceu em alguns negócios feitos no mercado financeiro nos últimos anos, em um período que coincide com o próprio crescimento acelerado do Master.

O pedido de investigação contra Tanure por suspeita de controlar o Master foi feito a partir de denúncias da gestora de investimentos Esh Capital. Com base nessas denúncias, o MPF apontou que há “indícios de crime e gestão temerária e indução a erro de investidores”. A Esh é uma gestora ativista (que entra nas empresas em que investe para promover mudanças e assim tentar melhorar a governança e valorizar as ações das companhias) e já teve diversas disputas com Tanure na Justiça. Ela também se recusou a comentar o processo.

Apesar de o “Banco Master informar às autoridades e investidores que o grupo de controle é capitaneado por Daniel Vorcaro e pela 133 Investimentos, há indícios de que Nelson Tanure seria o real controlador da referida instituição financeira, tendo se valido da Aventti, do fundo Estocolmo e da Banvox (uma holding que controla investimentos financeiros feitos em outras empresas) para adquirir o controle societário”, escreveu o procurador Marcos Salati, do MPF, no pedido para que a PF esclareça os fatos.

A atividade de controle ou administração de instituição financeira precisa, por regulamentação, ser autorizada pelo Banco Central. Por várias vezes, Vorcaro e o próprio Tanure negaram que ele fosse sócio do banco. Pessoas próximas a Tanure dizem que ele jamais foi controlador de qualquer instituição financeira.

Numa entrevista à revista Piauí, em 2024, Vorcaro disse ter admiração por Tanure e o classificou como “parceiro de negócios”. A relação entre os dois é observada de perto pelo mercado porque o Banco Master, após levantar mais de R$ 40 bilhões por meio da emissão de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) em menos de cinco anos, é apontado como um aliado nas investidas de Tanure em empresas de capital aberto.

O empresário baiano, principal acionista da Gafisa, começou a investir na década de 1980 e ficou marcado por seu estilo arrojado que desperta um misto de temor e admiração entre os agentes do mercado financeiro.

As empresas e fundos citados pelo Ministério Público no pedido de inquérito à PF fazem parte do que seria, segundo a denúncia da Esh, uma complexa estrutura montada por Tanure para evitar que se identifique com clareza sua relação com as empresas nas quais ele investe.

A defesa do empresário pediu o fim do inquérito policial por ausência de justa causa e pela “instrumentalização criminosa da administração da Justiça”. Segundo a peça apresentada, Tanure é um empresário respeitado, controlador de várias companhias de capital aberto e sofre perseguição da Esh.

Denúncia do MPF

Em dezembro do ano passado, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou Tanure por operações financeiras feitas na construtora Gafisa que teriam contado com informação privilegiada. As acusações envolvem a aquisição da incorporadora Upcon pela Gafisa, em 2019.

Segundo as investigações, Tanure, enquanto acionista relevante da Gafisa, e Gilberto Benevides, controlador da Upcon, teriam agido em conjunto para tirar vantagens da transação entre as duas empresas. A Gafisa afirmou, em sua defesa, que não tem conhecimento sobre procedimentos que envolvem seus acionistas. A defesa de Tanure disse que a acusação formulada pelo MPF “foge do escopo das regras que regem o procedimento penal”.

Antes de a aquisição ser concluída, Tanure injetou mais de R$ 100 milhões na Upcon por meio da compra de títulos emitidos pela empresa. Com a entrada do dinheiro no caixa, o valor do capital social da Upcon saiu de R$ 10 milhões para R$ 160,8 milhões.

Como o acordo de aquisição da Upcon pela Gafisa previa o pagamento via troca de ações, ao aumentar o capital social da Upcon, Benevides recebeu mais ações da Gafisa do que deveria para fechar a transação, segundo a denúncia. Posteriormente, as ações foram repassadas com desconto por ele a Tanure, diz o MPF.

“Em outras palavras, a Gafisa pagou pela compra da Upcon valor muito superior àquele que a empresa realmente valia, disponibilizando a Benevides (na verdade, ao denunciado Nelson Tanure) mais ações da Gafisa do que lhe deveriam ser entregues. Isto tudo sem conhecimento do mercado ou dos demais acionistas”, diz o MPF, na denúncia. Para evitar suspeitas e ocultar do mercado os interesses de ambos, o MPF alega que os denunciados estruturaram uma operação bastante complexa.

Segundo a defesa de Tanure, a acusação formulada pelo MPF “foge do escopo das regras que regem o procedimento penal na medida em que: a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) não apontou até hoje nenhuma ilicitude na assinalada operação; o delegado de PF, que também investigou os mesmos fatos, narrou expressamente que não havia encontrado qualquer indício de suposta prática de crime; e a operação de aquisição da Upcon, ocorrida entre os anos de 2019 e 2020, foi amplamente debatida na Gafisa, com a publicação de fatos relevantes antes e depois do fechamento do negócio, que passou pelo crivo e foi aprovado pela maioria dos acionistas da própria construtora, que não foi sequer incluída na acusação”.

Como o Estadão mostrou no fim do ano passado, a defesa de Tanure pediu à Justiça que o processo no qual o empresário é investigado, em relação ao uso de informações privilegiadas na incorporadora Gafisa, seja enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Motivo: há relação próxima entre Tanure e o Master, como mostram as investigações realizadas pelo MPF no caso da incorporadora. Com isso, o processo mereceria ser enviado à Suprema Corte e receber o mesmo tratamento concedido às investigações da Operação Compliance Zero, que estão sob sigilo máximo e comandadas pelo ministro Dias Toffoli.

Gafisa e Master

Outras transações financeiras envolvendo Tanure e a Gafisa seguem em investigação. Uma delas é o investimento da Gafisa no fundo imobiliário Brazil Realty, investigado pela CVM por fraude com o envolvimento de Vorcaro. A construtora chegou a ter R$ 325,6 milhões aplicados no Brazil Realty FII entre 2019 e 2022.

Durante quase três anos, o fundo de investimento ligado à construtora, o Bergamo Multimercado Crédito Privado, funcionou como uma ponte entre o caixa da Gafisa e contas de empresas ligadas a Vorcaro.

O Bergamo foi criado em maio de 2019, logo após Tanure ser nomeado conselheiro da empresa. Um mês depois, a Gafisa já havia direcionado R$ 138,2 milhões ao Bergamo, do qual é a única cotista. Deste montante, R$ 49,4 milhões foram aportados em um segundo fundo, chamado “Panarea Multimercado”, que possuía apenas o Bergamo como cotista e redirecionou o valor total para um terceiro veículo: o fundo imobiliário Brazil Realty.

As empresas Banco Máxima (depois chamado de Master), Milo, Talent Construtora e Espaço Engenharia eram as principais cotistas do fundo imobiliário.

Apesar de nomes e CNPJs diferentes, os cotistas e as empresas investidas eram dirigidas pelas mesmas pessoas: Daniel Vorcaro, então diretor do Máxima e ex-diretor da Brazil Realty Empreendimentos; Felipe Vorcaro, primo de Daniel e diretor da MGI; Henrique Vorcaro, pai de Daniel e diretor da Milo; e Pedro Henrique Barbosa da Cruz, diretor da Brazil Realty, Talent Construtora e WWS.

Os executivos foram acusados pela CVM de realizar operações fraudulentas com as cotas do Brazil Realty entre outubro de 2018 e março de 2020.

Para os investigadores da Operação Compliance Zero, cuja segunda fase foi desencadeada nesta quarta-feira, Vorcaro teria usado uma cadeia de diversos fundos de investimento para realizar operações financeiras fraudulentas, cujo objetivo final seria desviar recursos para si próprio e aliados.

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