A resenha desta semana é de um livro que li pela primeira vez há uns 10 anos e que recentemente foi relido no meu bendito kindle. Raramente uma segunda leitura me deu tanto prazer quanto a de “2666”, meu livro predileto do chileno Roberto Bolaño, o melhor escritor de minha geração.
A estranheza do livro começa por seu título, a que o próprio Bolaño nunca deu um significado definitivo, deixando-o como um enigma deliberado e uma chave de interpretação aberta para os leitores. O número não aparece dentro do texto do romance, o que contribui para o seu mistério. Entre as várias hipóteses, o título é frequentemente interpretado como uma data ou local apocalíptico. A cifra sugere um futuro distante e sombrio, talvez uma representação simbólica de um inferno na Terra ou um tempo de barbárie extrema, refletindo os horrores descritos no livro, especialmente os feminicídios na cidade de Santa Teresa.
Então, o que quer dizer Bolaño com o título da obra? O que seria “2666”? Que futuro é este? Ainda que as partes não estejam exatamente estruturadas em ordem cronológica, seria o título uma projeção no tempo? Assim como o ano, outro elemento que incita o leitor é a epígrafe do livro, que funciona como um aviso de que a experiência será, no mínimo, perturbadora.
“Um oásis de horror em meio a um deserto de tédio.”
(Charles Baudelaire)
A obra-prima foi publicada postumamente em 2004 e rapidamente se estabeleceu como um dos romances mais importantes da literatura contemporânea. Com 1.119 páginas, o livro desafia classificações fáceis, transitando entre o romance policial, a crítica social, o ensaio filosófico e o realismo mágico, costurando múltiplas narrativas em uma trama tão complexa quanto fascinante.
O fio condutor do romance, que conecta as cinco partes e relaciona os personagens, está em Santa Teresa, uma cidade fictícia, mas inspirada em Ciudad Juárez (uma das mais violentas do mundo), na fronteira do México e Estados Unidos, com seu infeliz histórico de feminicídios.
Bolaño começa a narrativa por “A parte dos críticos”, em que se apresentam os especialistas em literatura alemã: o francês Jean-Claude Pelletier, o italiano Piero Morini, o espanhol Manuel Espinoza e a inglesa Liz Norton. Todos estudam a obra de um misterioso escritor alemão chamado Benno von Archimboldi. Ainda que ele seja cotado para o Prêmio Nobel de Literatura, Archimboldi está mais para uma lenda que para uma pessoa real porque os críticos somente conhecem rumores sobre ele. Na busca por seu paradeiro, os quatro vão ao México, exatamente para Santa Teresa, onde se aproximam da realidade dos crimes e conhecem Óscar Amalfitano.
“A parte de Amalfitano“ vem a seguir. Nela, se apresenta a tumultuada vida sentimental e emocional deste professor chileno que, depois de viver em Barcelona, se muda com sua filha Rosa para Santa Teresa para trabalhar na universidade local. Receoso quanto à segurança da filha, Amalfitano arquiteta um plano para retirá-la da cidade.
“A parte de Fate” conta como o jornalista afro-americano Quincy Williams, conhecido como Fate, envolve-se com os crimes em Santa Teresa. Inicialmente escalado para cobrir um combate de boxe entre um americano e um mexicano, ele pressente que esses fatos deveriam ser objeto de investigação jornalística e conhece um dos presos suspeitos dos crimes, o alemão Klaus Haas.
“A parte dos crimes” é a parte mais difícil. São 352 páginas nas quais os feminicídios são descritos um a um, como em um registro policial que apresenta as estatísticas dos acontecimentos situados entre 1993 e 1997. A leitura deste trecho é devastadora. São crimes que realmente ocorreram e seguiram ocorrendo em Ciudad Juárez. Quase todas as vítimas são jovens pobres e trabalhadoras nas maquiladoras, indústrias mexicanas para exportação de produtos para os americanos. A narração detalhada dos assassinatos das mulheres revela a forma brutal como aconteceram, com requintes de crueldade, depois de serem violadas e seviciadas. As informações sobre elas são necessárias para compreender a intenção do autor. Através das investigações, surgem outras histórias e personagens que compõem a parte policial da história como o investigador Juan de Dios Martínez e o suspeito Klaus Haas, que é preso, mas os feminicídios continuam acontecendo.
“A parte de Archimboldi” é o fechamento. Nela conta-se a vida do escritor como Hans Reiter (seu verdadeiro nome), sua origem, sua alta estatura, sua adoração pela irmã mais nova Lotte Reiter, suas relações com a fascinante Baronesa Von Zumpe, sua participação como combatente na Segunda Guerra Mundial, seu começo como escritor até sua consagração quase anônima através do pseudônimo Archimboldi e sua relação com o México, que se estabelece no final do livro, quando ele descobre que seu sobrinho Klaus Haas está preso em Santa Tereza, acusado pelos feminicídios.
Bolaño tinha em mente a estrutura de cinco partes que formariam um tomo único e que, por fim, se relacionariam. A preocupação de ordem prática era que as partes fossem publicadas separadamente, uma por ano, de maneira a prover maior renda para sua família depois que ele se fosse. Não obstante as instruções, depois da sua morte em 2003 e da análise de todo o trabalho por seu amigo e crítico literário Ignacio Echevarría, seus herdeiros e o editor Jorge Herralde não puderam fazer com que prevalecesse este pedido diante da constatação de que o valor literário da obra era maior que a preocupação econômica. A imersão e o impacto da experiência em um só fôlego perderiam-se.
A crítica e escritora Bárbara Mussili, graduada em Licenciatura em Letras – Português/Espanhol pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, escreveu no dia 7 de setembro de 2016, em Santiago do Chile, uma bela resenha sobre “2666”, que publicamos um trecho:
“O que fazer quando se descobre uma grave doença? A finitude é inexorável mas, se deparar com ela, de repente, pode provocar resoluções. Como escrever um livro.
“Não por acaso Roberto Bolaño, escritor e poeta, chileno por nascimento, mas latino-americano por opção, ao ser diagnosticado com uma doença no fígado e que terminaria por exigir um transplante que nunca foi realizado, decidiu por escrever uma obra colossal que se transformou em magnum opus, ou seja, sua obra mais importante. Assim nasceu “2666”.
“Neste momento, Bolaño já era reconhecido pela crítica literária como um importante escritor em língua espanhola e por sua obra, que já era bem extensa e contundente, destacando seu livro “Detetives Selvagens” (1998). Anteriormente, havia percorrido um longo caminho para persistir na literatura. Nasceu no Chile, viveu grande parte de sua breve vida no México e Espanha, onde finalmente se estabeleceu.
“A escrita de Bolaño é detalhista e avassaladora. Além da maneira como conecta as partes na estrutura, formando um todo que, ao mesmo tempo, também permite a independência das partes, percebemos sutilmente que a narrativa problematiza pequenas e grandes situações no sentido de estabelecer um contexto para que cada história esteja bem situada no todo. É surpreendente que em uma novela tão longa e cheia de nuances, o autor não tenha se perdido, ao contrário, atuou como um Deus de sua história, que se conecta em todas as partes. Do mesmo modo, relacionou a literatura em seu aspecto mais teórico e a cultura academicista e intelectual com uma temática tão difícil como a violência contra as mulheres trazendo para a ficção uma realidade social que, infelizmente, ainda é tremendamente atual.
“… Além de ter sido um êxito de crítica e vendas, “2666” também recebeu vários prêmios importantes como o Ciudad de Barcelona e Salambó na Espanha, o Altazor no Chile e o National Book Critics Circle Award nos Estados Unidos. Pela crítica literária, foi reconhecido como o melhor livro de 2005 tanto na Espanha como na América Latina, o que impulsionou sua projeção internacional e tradução para outros idiomas. Bolaño já havia partido, mas se transformou em um dos nomes do olimpo da literatura contemporânea. Hoje, figura na lista dos 100 melhores livros do século XXI pelo ranking do The New York Times Book Review, divulgado em julho/2024.
“Pode-se concluir então que seria impossível comentar sobre “2666” sem mencionar a história por trás desta obra, o que permite afirmar que além das cinco partes que a compõem, deveria haver uma sexta: “A parte de Bolaño”. Uma parte que poderia falar de legado. Teria deixado o autor uma mensagem subliminar para que estudássemos suas próprias obras e seu pensamento à exaustão como os críticos estudaram Archimboldi? O que teríamos a aprender?”
Aconselho aqueles que resolveram enfrentar o livro a parar a leitura desta matéria por aqui, para evitar spoilers. Transcrevo a parte final de “2666”, que depois de mais de 1.000 páginas acaba de maneira abrupta, como se precisasse de mais um livro para terminar a história:
Nesse mesmo terraço, aliás, só estavam ele e a três mesas de distância (mesas de ferro forjado, maciço, elegantes e dir-se-ia difíceis de roubar) havia um cavalheiro de idade avançada mas não tão avançada quanto Archimboldi, lendo uma revista e tomando um capuccino. Quando Archimboldi estava a ponto de terminar seu sorvete o cavalheiro perguntou se havia gostado.
— Sim, gostei — disse Archimboldi e sorriu.
O cavalheiro, impelido ou animado por aquele sorriso amistoso, se levantou da cadeira e sentou a uma mesa de distância.
– Permita que me apresente – falou. — Eu me chamo Alexander fürst Pückler. O, como dizer?, criador desse sorvete — falou — foi um antepassado meu, um fürst Pückler muito brilhante, grande viajante, homem ilustrado, cujas principais paixões eram a botânica e a jardinagem. Claro, ele pensava, se é que alguma vez pensou nisso, que passaria para a, como dizer?, história por algum dos muitos opúsculos que escreveu e publicou, crônicas de viagem principalmente, mas não necessariamente crônicas de viagem para uso, e sim livrinhos que ainda hoje são encantadores e muito, como dizer?, lúcidos, enfim, lúcidos dentro do possível, livrinhos onde parecesse que a finalidade última de cada uma das suas viagens fosse examinar determinado jardim, às vezes jardins esquecidos, abandonados por Deus, entregues à própria sorte, e cuja graça meu ilustre antepassado sabia encontrar em meio a tanto mato e a tanta desídia. Seus livrinhos, apesar de seu, como dizer?, revestimento botânico, estão cheios de observações engenhosas e através deles pode-se ter uma ideia bastante aproximada da Europa de seu tempo, uma Europa muitas vezes convulsa, cujas tempestades em certas ocasiões chegavam aos limites do castelo da família, situado, como o senhor deve saber, nas proximidades de Görlitz.
Claro, meu antepassado não era alheio às tempestades, do mesmo modo que não era alheio às vicissitudes da, como dizer?, condição humana. E portanto escrevia e publicava e à sua maneira, humilde mas com boa prosa alemã, alçava a voz contra a injustiça. Creio que não lhe interessava saber para onde vai a alma quando o corpo morre, embora também tenha escrito algumas páginas sobre isso. Interessava-lhe a dignidade e interessavam-lhe as plantas. Sobre a felicidade não disse uma palavra, suponho que porque a considerava algo estritamente privado e talvez, como dizer?, pantanoso e movediço.
Tinha um grande senso de humor, embora algumas das suas páginas pudessem me contradizer com facilidade.
E, provavelmente, já que não era um santo nem tampouco um homem valente, deve ter pensado sim na posteridade. No busto, na estátua equestre, nos infólios guardados para sempre numa biblioteca. O que nunca pensou foi que passaria para a história por dar o nome a uma combinação de sorvetes de três sabores. Isso eu posso lhe garantir. E então, que acha?
— Não sei o que pensar — disse Archimboldi.
— Ninguém mais se lembra do fürst Pückler botânico, ninguém mais se lembra do jardineiro exemplar, ninguém leu o escritor. Mas todos, em algum momento da vida, saborearam um fürst Pückler, que são especialmente atraentes e bons na primavera e no outono.
— Por que não no verão? – indagou Archimboldi.
— Porque no verão são meio enjoativos. Para o verão o melhor são os sorvetes feitos com água, não os de leite.
De repente se acenderam as luzes do parque, mas houve um segundo de escuridão total, como se alguém houvesse jogado uma manta negra sobre alguns bairros de Hamburgo.
O cavalheiro suspirou, devia rondar os setenta anos, depois disse:
— Que legado mais misterioso, o senhor não acha?
– Sim, sim, de fato, acho – disse Archimboldi levantando-se e despedindo-se do descendente de fürst Pückler.
Pouco depois saiu do parque e na manhã seguinte partiu para o México.
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