ANO IV

13/07/2026

HojePR

sergio

Um Fausto Dois (capítulo VIII)

29/01/2026
fausto

 

Livre adaptação das obras “Faust, eine Tragödie” e “Faust. Der Tragödie zweiter Teil in fünf Akten”, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), por Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos.

De como, depois de acabada a obra, o editor não entendeu nada.

Posfácio na Editora

EDITOR

Teu livro não terá concorrente na história universal dos fracassos.
Você fez exatamente o contrário do que eu pedi à página 5.
Ora, o diabo já é assunto ultrapassado pela velocidade dos fatos.

POETA

A tua crítica praticamente me ratifica.
Evitei por toda lei o teu roteiro.
E eis meu livro para o julgamento das traças.
Assim como as pirâmides, sei que minha obra fica.
A partir dessa, posso até fundar um mosteiro,
onde vou distribuir mais algumas graças,
como depois de Um Fausto escrever Um Fausto Dois.

EDITOR
(berrando)

Um Fausto Dois?

POETA

Fechado! Mas como estou sem nenhum,
antes me pague o Fausto Um.

Fausto Dois

Região mais amena
(Fausto dorme, na relva, um sono agitado, sob a pena zombeteira do Poeta)

POETA

Eis o homem de minha obra.
Criatura, escrita abaixo de cacete,
já teve por hoje sofrimento de sobra.
Jamais acabei tão mal um flerte.
Eis a primavera e o seu oba-oba.
Até a compaixão fica mais serelepe,
diante da dor de quem fode ou quem se foda,
para dar alívio ao santo e ao solerte.
Eis Fausto, exausto, exaurido.
Margarida morta. Ele, graças a mim, dorme,
como um porco cevado de lixo.
Extraio de sua memória enorme,
pétala por pétala, o estropício.
Leitor (a), perdoe meu destempero,
foi melhor matá-la do que pô-la no hospício.
Deixar viver é quase sempre um erro.

FAUSTO
(acordando)

O sol nasce para todos,
mas hoje está mais para mim.
A luz se espalha pelos pomos,
deixando suspenso o jardim.
Cor após cor brota dos solos
de onde se divisa o paraíso.
Vejo o sol em milhões de miolos,
nunca me senti tão preciso.

Palácio Imperial
(Sala do Trono. O Conselho de Estado aguarda o Imperador, que entra)

IMPERADOR

E aí, tudo certinho, meu povo?
O sábio já chegou? Cadê o bobo?

CORTESÃO

Procura-se, bêbado ou morto, o pau d’água.

MAIS UM CORTESÃO

Nem bem some uma, já surge outra praga.

MEFISTÓFELES
(de joelhos para o trono)

O que é abominado mas sempre bem-vindo?
O que é que se quer mas é negado?
Quem para cima do teu trono vem subindo
e que julga a si mesmo um condenado?

IMPERADOR

Poupe-nos, querido!
Meu mundo me basta de problema.
Sinto que você pode ser meu preferido,
o outro bobo bebeu até sair de cena.

(Mefistófeles escala o trono pela esquerda)

MURMÚRIOS DA MULTIDÃO

Parece bobo novo – vou vomitar!
Um era cachaço – esse vamos capar!

POETA

Leitor (a), me perdoe a intromissão indevida,
mas a corte ergueu a voz e um muro de lamentações.
Imagine, um a um, os súditos reclamando da vida.

IMPERADOR

Devia dá-los de comer aos leões!

PRIMEIRO-MINISTRO

Daqui do alto se vê melhor seu império,
mais parece um horrível pesadelo.
Monstros disformes geram o que acham belo
e a justiça está com as barbas de molho no gelo.

Os erros se reproduzem numa velocidade astronômica:
um rouba uma vaca; outro, prefere mulher;
aquele, o cálice; este, carrega cruz, na maior sem cerimônia.
Se os súditos nada temem, o poder é de quem mais puder.

CHEFE DO ESTADO MAIOR DO EXÉRCITO

Estamos em guerra de surdos à voz de comando.
O térreo vem subindo o morro
e nossos mercenários em greve de banho
(até os gambás estão pedindo socorro)
pelo pagamento dos soldos atrasados.
Se os pagássemos batiam marcha no ato.
Os que deviam dar guarda levam nossos guardados,
creio que Vossa Majestade há de pagar o pato.

PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

Nossos amigos se foram depois do último crack.
A bolsa rodou mais forte que roleta atrás de prejuízo.
Vocês não sabem o que é impedir um saque,
quanto mais penso em poupar mais gasto meu juízo.

IMPERADOR
(para Mefistófeles)

E aí, bobão, vai, me conta outra miséria.

MEFISTÓFELES

Que que é isso, minha gente?
O Imperador não tem de si a menor ideia.
Nada nasceu na Terra que lhe seja equivalente.

MURMÚRIOS DA MULTIDÃO

Conhecemos bem a História:
saco de chefe é corrimão da glória!

MEFISTÓFELES

A quem nesta vida não falta algo?
A algum, ouro; a alguém, álcool.
Aqui falta dinheiro e este não dá mole,
mas sob sua terra há ouro e, por ele, ela se move.

PRIMEIRO-MINISTRO

Suas palavras merecem ir para cadeia!
Por muito menos mandamos ateus para fogueira!
A natureza é uma piranha, o espírito são morcegos,
a cruza dos dois dá um bobo, como esse que vemos.

MEFISTÓFELES

Muito bem, vejo que estou tratando com um mentecapto!
Tudo para você é abstrato, menos o que apalpa com a falta de tato.

IMPERADOR

Vamos acabar com essa briguinha de comadres,
você falou em dinheiro, quero já minhas partes.

MEFISTÓFELES

Arrumo já! E mais do que Vossa Alteza deseja,
porém, nem o fácil é moleza.
Desde Roma, enterram-se pilhagens de guerra.
De quem são os tesouros? O Imperador tem a terra.

PRESIDENTE DO BANCO CENTRAL

É bobo mas não é otário.
O Trono é dono do solo por direito hereditário.

PRIMEIRO-MINISTRO

É uma arapuca dourada armada por Satanás,
a coisa certa não é assim que se faz.

CHEFE DO ESTADO MAIOR DO EXÉRCITO

Discordo totalmente, gostei das palavras do bobo.
Um soldado não pergunta de onde vem o seu soldo.

MEFISTÓFELES

Se não creem em mim, interroguem o astrólogo real.
Conta para nós, como vão as coisas no alto astral?

MURMÚRIOS DA MULTIDÃO

Estão de truta – está na cara.
O bobo sopra – o mago fala.

ASTRÓLOGO
(fala enquanto Mefistófeles sopra)

O próprio Sol é de ouro por inteiro.
Mercúrio é seu lacaio interesseiro.
Vênus é a dama de vermelho,
já a Lua foi criada num mosteiro.
Marte cospe fogo pelas ventas,
Júpiter é o máximo em matéria de planetas.
Saturno mal se vê nas lunetas,
outros virão por aí, no frigir das calendas.
Mas se Sol e Lua se fundem,
ouro e prata se encontram em qualquer nuvem
e chovem fortunas a cântaros.
Este homem sabe onde estão estes tantos.

IMPERADOR

Sua voz tem o som de um dois-em-um
Mas ainda escuto um zumzumzum.

ZUMZUMZUM DA MULTIDÃO

É chuncho do grosso – pura carne de pescoço
de gato na cama – qual dos dois é mais sacana?
Um é palhaço de palha – o outro é carne na navalha.

MEFISTÓFELES

O povo não está preparado para votar.
Homens de pouca fé, pobres de vocês
que não conseguem se enricar.
Palpitam sobre assuntos que competem a Reis,
fazem piadas de rir para não perder amigo
e brincam com coisas sem saber do perigo.
A qualquer um, dia desses, pode a pele lhe coce
e o pé direito quebre enquanto o esquerdo torce.

MURMÚRIOS DA MULTIDÃO

– Acabo de me ensarnar até o nabo!
– Meus pés já não estão onde eu acabo!

IMPERADOR

Vamos avante, chega de vade retro!
Se o bobo mente, hei de despachá-lo para o inferno direto!

MEFISTÓFELES

Não vos preocupeis, conheço bem essa estrada.
A partir deste momento, sois o homem mais rico da Terra.
Ouvi com atenção a fortuna que tendes enterrada:
taças, braceletes de ouro e platina para pulso e canela,
diamantes maiores que a vossa Coroa, estátuas gregas,
ouro aos lingotes e moedas, as mais finas sedas,
engarrafamento de rubis no sinal vermelho,
pérolas botando ovos, prataria dizendo a que veio,
livros dignos da Biblioteca de Alexandria,
quadros que qualquer Da Vinci assinaria.
Todo esse presente está embrulhado em trevas.
Quem esquenta demais a moringa, anda às cegas,
quem anda ao sol só sabe olhar para cima.
O mistério mais rico mora numa mina.

IMPERADOR

Mistérios entendiam-me, deixo-os contigo,
eu quero mais é que toda essa gaita venha à luz!
De noite, todo gato é pardo; boi, então, fica preto retinto.
Pegue esta pá e ao meu tesouro me introduz!

MEFISTÓFELES

Não façais fita nem cerimônia, tomai da pá,
que estou vos dando a grande honra de começar a cavar.
O trabalho enobrece mais os homens mais nobres
e, além disso, não sou eu quem vai entrar nos cobres.

IMPERADOR

Esse tipo de afazer não é aqui com o degas. Cavoque logo que tô com pressa!

ASTRÓLOGO
Sossegai, leão dos leões, daqui a pouco nós vamos nessa.
Amanhã é o primeiro dia de Carnaval
e o desse ano promete ser mais bacanal.

IMPERADOR
(caindo no samba)

Está decretado feriado!
Meu palácio já está decorado
e só vou parar de folia
na quarta-feira depois do meio-dia.

MEFISTÓFELES
(de si para si)

Pensar que sorte se consegue com trabalho,
jamais passou pela cabeça dessa raça de rebotalho.
Se a pedra filosofal lhes fosse dada de quebra,
ainda assim, um filósofo faltaria à pedra.

MARCHINHA CARNAVALESCA DO POETA

O Sol não está com essa bola toda.
Lá vem o Imperador fantasiado de ceroula.
Sua roupa fica pronta só na terça-feira gorda,
de tanta purpurina, paetê e lantejoula.

Ele quebra um cadeado para abrir o cofre
E joga moedas qual confete,
serpentinas são colares da pérola mais nobre,
a turba fica doida e no salão só se repete:

“Eu vou cair de boca nas joias da Coroa,
só assim posso levar uma vida mais à toa.”

POETA

O arrastão fica tão feio que o Imperador se esquenta
fazendo a temperatura subir de maneira violenta.
O ouro frita a mão de alegres e ranzinzas
e vai se derretendo até virar em cinzas.

(continua no próximo capítulo)

Leia outras colunas Frente Fria aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.