Há notícias que o sujeito lê duas vezes. Não porque sejam difíceis de entender, mas porque parecem exigir um segundo olhar, como aqueles quadros em museu em que a gente tenta descobrir se perdeu algum detalhe importante.
Foi mais ou menos assim com a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo desta segunda-feira (6), sobre o patrimônio imobiliário da família do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Leia aqui no HOJEPR.
Segundo o levantamento, nos últimos cinco anos foram R$ 23,4 milhões em imóveis, elevando o patrimônio imobiliário familiar para cerca de R$ 31,5 milhões distribuídos em 17 propriedades. Antes da chegada ao Supremo, em 2017, esse patrimônio era algo em torno de R$ 8,6 milhões.
Ou seja, o patrimônio imobiliário de Moraes cresceu aproximadamente 266%.
Agora, veja bem. Quem está dizendo isso é o Estadão. Eu apenas li e fiquei intrigado.
Porque a vida, ao que parece, melhora muito depois que se chega ao Supremo.
Não se trata de acusação, longe disso. Tudo legal e registrado em cartório. O Brasil tem instituições sólidas e escrituras públicas.
Mas o fenômeno continua fascinante.
O sujeito entra no STF e, aparentemente, ocorre algo parecido com o que acontece com certas plantas tropicais quando encontram solo fértil. O patrimônio floresce. Apartamentos aparecem, casas brotam e terrenos se multiplicam.
É quase botânica institucional.
Fico imaginando um exercício hipotético.
Suponhamos que o doutor Moraes tivesse seguido apenas a carreira de advogado depois do governo de Michel Temer, onde foi ministro da Justiça. Nada de Supremo. Apenas escritório, clientes, audiências, recursos, sustentações orais e aquela vida glamourosa de advogado que pega trânsito para chegar ao fórum.
Será que, nesse cenário, o patrimônio imobiliário teria crescido 266% em cinco anos?
Talvez sim.
Talvez o mercado jurídico paulista estivesse vivendo uma fase extraordinária que passou despercebida pelo resto do país. Talvez exista um nicho secreto da advocacia onde apartamentos simplesmente se reproduzem.
Vai saber.
Há uma frase famosa de Machado de Assis que sempre me vem à cabeça quando penso nessas histórias brasileiras: “Ao vencedor, as batatas.”
O velho Machado dizia isso no século XIX, mas talvez estivesse pensando no século XXI sem saber. Porque em Brasília, as batatas parecem vir acompanhadas de escrituras, registros imobiliários e, ocasionalmente, belas vistas para o Lago.
Não estou dizendo que haja irregularidade alguma. Repito, quem levantou os dados foi o Estadão. Sou apenas um observador curioso da vida pública.
Mas confesso que fico impressionado com a eficiência econômica do cargo de ministro do Supremo.
Enquanto o brasileiro médio passa décadas pagando financiamento de um apartamento de dois quartos, algumas trajetórias públicas parecem operar em outro ritmo, mais elegante, mais próspero, mais… imobiliário.
Talvez seja isso que Balzac queria dizer quando escreveu que por trás de toda grande fortuna existe sempre uma história interessante.
No caso brasileiro, essa história às vezes passa por Brasília, mas também pelo Paraná, e pela doce vida de um gabinete com vista privilegiada para a República.
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