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Romanelli e a velha arte de furar catracas

08/04/2026
romanelli

O governador Ratinho Junior ofereceu um almoço para os deputados que fazem parte da bancada de apoio ao governo na Assembleia. Mesa bem posta, carne no ponto, aquele ambiente em que os talheres brilham mais do que os discursos e em que todo mundo sorri com a elegância protocolar de quem sabe que política também se faz entre garfadas. Conversas leves, piadas discretas, o tipo de encontro pensado para azeitar a engrenagem da base após as mudanças trazidas pela janela partidária.

Entre garfadas no mignon e goles no líquido do capiroto, eis que o deputado Luiz Claudio Romanelli (PSD) resolve retornar a velhos hábitos. Sem cerimônia, fura mais uma catraca, desta vez não de pedágio, mas de pauta, e resolve bradar a indicação do ex-secretário Guto Silva como candidato do PSD ao governo do Estado.

Após alguns minutos de constrangimento geral, Romanelli foi “atropelado” pela deputada Maria Victoria (PP), que disparou: a melhor opção para o grupo político do governador seria a chapa Alexandre Curi-Rafael Greca.

Quem estava à mesa percebeu imediatamente que o cardápio do dia não incluía disputa sucessória. O almoço tinha outro objetivo, reunir a nova composição da base governista depois da dança das cadeiras provocada pela janela partidária. Era um encontro para recompor pontes, não para lançar candidatos. Em bom português político, era para harmonizar, não para antecipar corrida.

A intervenção de Romanelli produziu aquele silêncio educado que costuma surgir quando alguém resolve puxar um assunto fora de hora. Não se tratava exatamente de indignação. Política raramente se move por indignação, mas de surpresa mesmo. Afinal, a pauta ali era outra.

Coube a Maria Victoria fazer o que muitos marmanjos pensaram e poucos disseram. Com a tranquilidade de quem sabe medir o ambiente, enquadrou Romanelli de forma direta e colocou sobre a mesa uma alternativa que, segundo deputados presentes, encontra muito mais eco entre os aliados do governo: uma composição envolvendo Curi e Greca.

O gesto exigiu certa coragem política. Em reuniões desse tipo o mais comum é o silêncio diplomático. Mas Maria Victoria é filha de dois pesos pesados da política paranaense, o deputado federal Ricardo Barros e a ex-governadora Cida Borghetti, com quem aprendeu que coerência e posicionamento são conceitos caros a um político. Dessa forma, a deputada preferiu falar, deixando claro que a base governista está longe de enxergar consenso na hipótese levantada por Romanelli.

Nos bastidores da Assembleia, a leitura predominante é simples. A maioria dos deputados que orbitam o Palácio Iguaçu ainda não embarcou na ideia de uma candidatura de Guto Silva. Não significa rejeição definitiva, política nunca trabalha com portas totalmente fechadas, mas certamente indica que o terreno ainda está longe de estar preparado.

Nem mesmo o anfitrião pareceu muito confortável com o episódio. O almoço, que havia sido pensado para consolidar alianças após a reorganização partidária, ficou indigesto com o desconforto dos parlamentares diante do rompante de Romanelli. O consenso geral foi de que não era hora para assistir ao lançamento informal de candidaturas no meio da sobremesa.

Romanelli tem histórico de conviver bem com catracas. Em 2008, protagonizou um episódio amplamente noticiado na imprensa, quando atravessou sem pagar cancelas de pedágio, entre Cornélio Procópio e Curitiba, e incentivou a população a fazer o mesmo em protesto contra as concessionárias.

“Furar pedágio é simples. É só você, na verdade, chegar muito próximo do veículo da frente quando ele chegar na cabine de pedágio. Aí você arranca junto com este veículo quando ele sair”, ensinava, naquela época, o deputado.

Romanelli “faturou” cinco pontos na carteira e um multa por ter infringido a lei. No entanto, não se abalou: “Passei sim pelo pedágio sem pagar e vou continuar fazendo isso. E aconselho aos paranaenses que sigam meu exemplo e furem os pedágios”, disse ele.

Talvez por isso, no almoço desta semana, o deputado tenha se sentido à vontade para repetir o gesto, ainda que de forma metafórica. Onde havia uma pauta definida, ele preferiu passar direto.

Só que, desta vez, a cancela não levantou sozinha. E alguém, da outra ponta da mesa, resolveu baixar a barra novamente.

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