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13/07/2026

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‘A gorda do Tiki Bar’ arquivada

10/04/2026
gorda

Submetida a um dos tantos projetos de fomento à cultura que pululam nesssa plagas, a adaptação para o cinema do conto ‘A gorda do Tiki Bar’, de Dalton Trevisan, foi barrada por uma comissão seletiva. O termo ‘gorda’ do título foi considerado ofensivo.

Procuro sinônimos politicamente corretos no dicionário. Vamos lá: balofa, rechonchuda, roliça, adiposa, atarracada, corpulenta, barriguda, anafafa, densa, nutrida, banhuda, fornida, maciça, rolha.

No Aurélio, o gordo é descrito em apenas duas palavras: ‘pessoa pândega’. E gordo, até segunda ordem, é apenas um adjetivo descritivo que pode muito bem ser evitado, mas não censurado.

A tal comissão, contudo, não entendeu assim. Riscou do mapa o projeto cinematográfico. Em 2022, o ator Brendan Fraser levou o Oscar de melhor ator por sua interpretação em ‘A Baleia’, filme que narra a história de um personagem gordo e gay com 272 quilos. Eddie Murphy é uma imensidão flatulenta em ‘O Professor Aloprado’ (1996) e ‘Dona Gorda’ (Wilza Carla) explode em cena icônica da novela ‘Saramandaia’, novela da Globo, lá nos idos de 1976.

80 milhões de obesos

No Casa Folha, canal de streaming do jornal Folha de S. Paulo, Bruno Gualano, professor da Faculdade de Medicina da USP, diz que ‘o ganho de peso dos brasileiros se tornou um quadro desesperador’. Em 2035, 40% da população, algo em torno de 80 milhões, terá ultrapassado o limite entre o extra peso e a obesidade. Por que raios, então, usar o termo gordo, em um contexto literário e cinematográfico, é depreciativo a ponto do projeto ser barrado por conselhos de fomento à cultura?

O carimbo de filme ‘gordófobo’ para um filme baseado em conto de Trevisan, porém, é apenas a ponta do iceberg. Há mais, muito mais. A lei de políticas afirmativas, baixada por decreto em 2023, restringiu ainda mais a concorrência. As cotas, a princípio, eram para negros, índigenas e pobres, grupos sociais cujo acesso às leis de incentivo cultural eram considerados restritivos. limitados.

Não mais. A verdade é que a lista de excluídos e minorias cresceu em escala geométrica. Não apenas os negros, mas também os pardos (mezza muçarela, mezza calabresa), as pessoas com deficiência, as mulheres, os quilombolas, os LGBTQXYZ, os sem-terra, as pessoas com mais de 60 anos, os migrantes e refugiados e, pasme, até os ex-presidiários gozam de acesso preferencial às leis de incentivo à cultura. Escusas ao polaco, heterossexual, classe média, formado na PUC.

De 70 em 70 anos

Há quem pergunte por que o sucesso do cinema nacional está condicionado à passagem do cometa Harley pelo sistema solar. De 70 em 70 anos, um filme brasileiro concorre ao Oscar. E perde. Não é exagero.

O conto ‘A gorda do Tiki Bar’ dá título ao livro de Trevisan lançado pela L&PM em 1976, com venda estrondosa porque houve um tempo em que os livros do escritor eram disputados a tapas, tal e qual os catecismos de Carlos Zéfiro. A adaptação para a película seria perfeita porque o conto é um roteiro pronto. Com diálogos em profusão e descrições que vão do bar decadente ao hotelzinho barato.

A nota cômica é que Laurinho, o cliente, sonha com Brinquinha, a mula. Mas isso não quer dizer que ele despreza ou humilha a mulher volumosa, de grandes curvas. Ao poetinha Vinicius de Moraes, que compôs versinhos pedindo perdão às feias porque a beleza é fundamental, o contista de Curitiba respondeu: ‘O poeta bem que me perdoe, beleza não é fundamental, começa que muito feia mulher é foi será, fundamental mesmo é toda mulherinha’. ‘Que me perdoe o poetinha, mas não existe mulher feia’. ‘Pouco vale o corpo magriço da rosa de anorexia, se é a flor do enjoo tédio não me toque’. ‘Alta baixa gorda magra loira morena, ninfeta coroa velhíssima santíssima, amá-las a todas é o que te seduz’.

Pois é. Assim os longas e curtas nacionais poderiam singrar roteiros que vão além do coturno e do bigodão. Mas o que fazer? Ivan Lessa diz que o cinema nunca foi a nossa. Sétima arte aqui é novela da Globo inclusiva. Lamentemos.

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