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Opinião com tabela de preços

15/04/2026
influenciadores

Outro dia me dei conta de que surgiu no Brasil uma nova categoria profissional que merece atenção sociológica: o influenciador contratado para parecer espontâneo.

Não estou falando de quem recomenda restaurante, mostra tênis novo ou faz propaganda de creme dental. Isso sempre existiu. Não causa grande dano civilizatório, embora, na maioria dos casos, represente uma contribuição estética bastante discutível para a humanidade.

O problema começa quando a mesma lógica invade o território da política, da economia e da informação pública.

A reportagem do jornalista Fausto Macedo, publicada no jornal O Estado de S. Paulo desta quarta-feira (15), trouxe um retrato quase didático desse fenômeno. Segundo uma investigação da Polícia Federal, mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, aquele do Banco Master, indicariam tratativas para contratação de uma agência de influenciadores digitais com a finalidade de impulsionar narrativas favoráveis e atacar instituições nas redes sociais.

Nada muito surpreendente, diga-se. Surpreendente seria se ninguém estivesse tentando fazer isso.

O detalhe interessante é que estamos diante de um modelo de comunicação que transforma opinião em serviço terceirizado. Contrata-se uma agência, distribuem-se argumentos e, como por mágica, começam a surgir perfis indignados defendendo exatamente a mesma tese, com a mesma convicção e até com o mesmo vocabulário.

É uma coincidência estatística fascinante.

Para quem contrata, a promessa é tentadora: reputação sob demanda. Você precisa melhorar sua imagem, pressionar um adversário ou plantar uma dúvida conveniente? Não há problema. Basta um contrato, alguns perfis com seguidores suficientes e pronto, nasce uma corrente de opinião aparentemente orgânica.

O risco dessa estratégia, porém, é o mesmo de qualquer mercado onde reputação vira mercadoria. Quem vende hoje pode vender amanhã para o concorrente. Narrativas não têm fidelidade ideológica, têm tabela de preço.

Mas o problema maior não está em quem compra o serviço. Está em quem consome o conteúdo.

Porque o leitor comum entra nas redes acreditando estar diante de análises independentes, indignações autênticas ou denúncias legítimas. Na prática, muitas vezes está apenas diante de publicidade política ou corporativa disfarçada de opinião.

Influenciador não tem editor. Não tem obrigação de checar informação. Não precisa ouvir o outro lado. E raramente responde juridicamente pelo que espalha.

A imprensa profissional, por mais imperfeita que seja, e ela é, opera sob outra lógica. Reportagens passam por apuração, verificação, confronto de versões, consulta a documentos e responsabilidade editorial. Quando erra, precisa corrigir. Quando acusa, precisa provar.

Nas redes, não. Nas redes basta viralizar.

Esse é o ponto que merece reflexão. A indústria dos influenciadores não é necessariamente um problema quando se trata de entretenimento ou publicidade transparente. Pode ser esquisita, é verdade, pois a maioria dos influenciadores que ganham alguns caraminguás nesse segmento, divulgando lanchonetes, restaurantes e afins, porta-se de maneira bem estranha, quase ridícula, nos vídeos que vemos nas redes sociais.

Novamente, não é desse pessoal que estou me referindo. É do time mais graúdo.

O problema surge quando propaganda se disfarça de informação e opinião paga se apresenta como análise independente.

Nesse momento, a fronteira entre notícia e marketing simplesmente desaparece.

E quando isso acontece, o cidadão deixa de consumir informação e passa a consumir narrativa. Narrativa patrocinada.

No meio desse barulho digital cada vez mais bem financiado, talvez valha lembrar um princípio antigo, daqueles que sobreviveram a muitas modas tecnológicas. Notícia confiável não nasce de contrato publicitário. Nasce de reportagem.

O resto pode até ter muitos seguidores. Mas isso não transforma propaganda em jornalismo.

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