ANO IV

13/07/2026

HojePR

marcus-gomes

A culpa é do William Bonner

22/04/2026
bonner

Ex-âncora do Jornal Nacional, William Bonner contribuiu em muito para relativizar a liberdade de imprensa no país.

Ao se alinhar a ministros do STF, durante e depois da pandemia, e orientar toda a equipe de reportagem a fazer o mesmo, Bonner abriu a porteira para que um princípio fundamental da democracia ganhasse gradação, principalmente nas bolhas da internet.

Foi aplicando esse relativismo que Gilmar Mendes, decano do STF e promotor do Gilmarpallooza – o festerê de políticos, advogados, empresários e magistrados em Lisboa –, enviou representação ao colega Alexandre de Moraes pedindo a investigação de Romeu Zema, ex-governador de Minas, por compartilhar em suas redes sociais um vídeo debochando dos ministros da corte.

A representação, se aceita, acrescenta mais um anexo ao inquérito das fake news, também conhecido como inquérito do fim do mundo, instalado por decisão monocrática de Dias Toffoli, então presidente do Supremo, apoiando-se no regimento interno do órgão. Aberto em 2019, o inquérito foi sofrendo prorrogações de 180 dias consecutivas até bater em sete anos investido de instrumento ‘legal’ de chantagem.

Filtragem de notícias

Lembremos. O mesmo Bonner que apoiou a liberdade de expressão e imprensa do tipo mezza muçarela/mezza calabresa foi aquele que, antes, vaidoso de sua condição de voz do Brasil, reagiu com dureza à criação do Conselho Federal de Jornalismo no primeiro governo Lula. Entre outras atribuições, a entidade seria responsável por criar comissões dentro das redações com o poder de filtrar notícias antes que elas chegassem ao público.

A ideia não vingou em 2004, mas 15 anos depois a história seria outra. Em entrevista à CNN, Zema disse que a sua possível inclusão no inquérito das fake news reforça a condição de ‘Intocáveis’ que o Supremo quer se atribuir.

Mesmo quando os elos de Dias Toffoli, Mendes e da família Moraes com o notório Daniel Vorcaro parecem exceder o escândalo do petrolão, então o maior caso de corrupção da história do país.

Mentira contada várias vezes

Mas o Brasil está acostumado a quebrar recordes nesse quesito. E dessa vez, com o efeito de terra arrasada. Como se darão, ora em diante, os julgamentos da corte envolvendo próceres da República quando se comprova que a ética e a reputação ilibada do Supremo são conversa para boi dormir? Uma mentira quando contada várias vezes torna-se verdade.

Se Lula não vencer as eleições deste ano, os ponteiros do STF devem se inverter como de costume. Mas apenas naquilo que não diz respeito aos seus membros. Em 2023, o Supremo atuou em benefício próprio ao invalidar uma norma do Código de Processo Civil que limitava a atuação de juízes em casos em que as partes fossem clientes de escritórios de advocacia ligados a parentes de magistrados.

Assim, Viviane Barci de Moraes fechou contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master. Assim Guiomar Feitosa Mendes, esposa de Gilmar, atua na corte ao lado dos filhos. Assim Valeska Teixeira Zanin Martins, mulher de Cristiano Zanin, é responsável por 14 ações que tramitam no Supremo. Assim Roberta Maria Rangel, casada com Dias Toffoli, viu suas atuações junto à corte aumentarem 140%, metade após 2009, quando Toffoli tomou posse no cargo. Em retribuição, ela dá ao marido uma mesada de R$ 100 mil, reservada para gastos extraordinários, à exceção das viagens em jatinhos para jogos da Libertadores. Assim também, ao chamar para si a responsabilidade da criação de um código de ética na corte, o presidente do STF, Edson Fachin, critica a ‘filhofobia’ em curso. Sim, Melina Fachin, sua filha, também atua em processos no órgão máximo do Judiciário.

Somos todos Homer

William Bonner saiu de cena no JN. Sua longa passagem pelo telejornal de maior audiência do país, onde foi apresentador e editor-chefe, ficou marcada por uma declaração de 2005.

Na ocasião, ele comparou a audiência do Jornal Nacional a Homer Simpson, personagem icônico do desenho da Fox que tem um cérebro de amendoim.

Foi contando com a legitimidade dessa analogia que Bonner quis fazer engolir a ideia de que a liberdade de expressão e de imprensa podem ser relativizadas.

Os ministros do STF contam com os Homers de todo o Brasil. E pelo andar da carruagem, creio que estão certos.

Leia outras colunas do Marcus Gomes aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.