A Rainha de Copas é o melhor personagem de Lewis Caroll, o autor de ‘Alice no País da Maravilhas’. Esqueçam o Coelho Branco, o Gato Risonho, o Chapeleiro Louco, a Lebre de Março. A rainha mandava ao cadafalso quem a contrariasse. E isso era recorrente.
Alice esteve prestes a perder a cabeça ao não se ajoelhar diante da soberana. E quando levada a julgamento, acusou a rainha de ‘velha tirana má e orgulhosa’. Por sorte, salvou-a o rei de Copas, um sujeito baixinho e moderado com ascendência sobre sua consorte.
Lula é a Rainha de Copas do governo. Seu desejo é decepar cabeças, mas na falta da guilhotina ou de machado põe-se a encolhê-las. Os Jivaro, tribo da floresta amazônica, faziam o mesmo. Cortavam a cabeça, removiam o crânio, desprezavam o cérebro – que já em vida fora de pouca ou nenhuma serventia –, ferviam a pele e usavam pedras quentes para reduzir o tamanho do que restara.
O presidente petista quis fazer rolar a cabeça do ministro Dias Toffoli, do STF, logo que o escândalo do Banco Master veio a público. E tinha razões de sobra. Foi ele quem operou um milagre ao promover um advogado mixuruca, com duas reprovações em concurso de juiz no currículo, a membro da mais alta corte do Judiciário.
Toffoli devolveu o presente com ingratidão, votando favorável à manutenção da prisão de Lula e, depois, negando sua soltura para que comparecesse ao velório do irmão. Merecia a guilhotina.
Monsieur e madame
Não foi Robespierre, um dos líderes da revolução francesa, quem inventou a máquina de decepar cabeças, mas certamente deu-lhe o caráter de linha de montagem. Durante o período do Grande Terror, cabeças foram cortadas à razão de 40 por dia, 1.200 por mês. Em dois anos, 40 mil haviam ido para o cesto. O carrasco não descansava.
Se um francês dissesse ‘monsieur’ ou ‘madame’, e não cidadão (porque todos eram cidadãos), cortavam-lhe a cabeça. Se recusasse a ideia de que a semana tinha dez dias, tal como determinava a nova ordem, cortavam-lhe a cabeça. Se professasse a fé católica, cortavam-lhe a cabeça. Se rezasse por qualquer deus, cortavam-lhe a cabeça. Uma mulher ousou defender o voto. Cortaram-lhe a cabeça.
Luís XVI foi guilhotinado porque era o rei e, afinal, aquilo era uma revolução. Pai da química moderna, Lavoisier também foi executado, mas não sem antes tentar explicar ao carrasco que nada se cria e nada se perde, exceto sua cabeça.
Maria Antonieta foi enviada ao cadafalso nove meses depois da morte de seu marido e estava na prisão comendo o brioche que o diabo amassou quando a puseram em uma carroça (não em uma carruagem, como ela esperava) e a fizeram desfilar pelas ruas de Paris durante duas horas.
Ao prepará-la para a execução, o carrasco notou que, apesar de jovem, com apenas 37 anos, os longos cabelos que ela escondia sob a peruca já estavam grisalhos. Imediatamente ele os cortou.
Era uma obrigação. O pescoço dos condenados devia estar descoberto para garantir a eficácia da lâmina. Fosse Alexandre de Moraes, um desprovido de melenas, e o trabalho seria facilitado.
Maria Antonieta da vez
Lula cogitou cortar a cabeça do ministro, ‘herói da pátria’, depois de confirmado o envolvimento milionário dele e de sua família com o banqueiro Daniel Vorcaro. Em resposta, defendeu publicamente, o mandato para ministros da corte. Ao descobrir que Moraes agira nos bastidores para que a nomeação de Jorge Messias ao Supremo fosse rejeitada pelo Senado, a ideia deve ter voltado à sua mente. Cortar a cabeça do ministro, nesse caso, poderia significar mais do que uma figura de linguagem.
Caso a guilhotina do voto ponha fim aos planos de reeleição de Lula, é provável que o PT decida, muito em breve, dar apoio ao impeachment de ministros da corte conforme prevê lei de 1950 recepcionada pela Constituição de 88.
Com o cenário confirmado, seria de bom alvitre se os adversários dessem destino semelhante, o da derrocada, à Maria Antonieta da vez.
Não é para valer, mas Janja merece. Que tal uma representação teatral? A primeira dama, com toda aquela pompa e circunstância, seria conduzida até a rampa do Palácio do Planalto carregando consigo uma ordem de despejo. Nesse momento, a Rainha de Copas gritaria: ‘Cortem-lhe a cabeça!’. E o carrasco baixaria a lâmina.
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