Em Brasília, coincidências acontecem em escala industrial. Mas algumas delas possuem uma capacidade quase artística de constranger seus protagonistas. O deputado federal Filipe Barros (PL) acaba de descobrir isso da maneira menos confortável possível.
Pré-candidato ao Senado pelo Paraná, Barros entrou involuntariamente em uma daquelas situações em que a explicação pode até existir, mas o roteiro fica ruim demais para convencer plenamente alguém fora do gabinete parlamentar.
Tudo começou quando veio à tona o escândalo envolvendo o Banco Master, suas relações políticas e a chamada “Emenda Master”, atribuída ao senador Ciro Nogueira. A proposta defendia ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para até R$ 1 milhão por CPF ou empresa, algo que interessava profundamente ao sistema financeiro ligado ao banco.
Até aí, problema de Ciro.
O detalhe embaraçoso surgiu quando apareceu, na Câmara dos Deputados, um projeto de conteúdo praticamente idêntico apresentado por ninguém menos que Filipe Barros.
Naturalmente, o deputado afirma que tudo tinha uma motivação republicana. Segundo ele, a intenção era proteger investidores e fortalecer a segurança do sistema financeiro. Uma explicação belíssima. Quase um poema regulatório.
O azar é que, em política, timing costuma valer mais do que discurso.
Porque justamente quando o caso do Banco Master explodiu nacionalmente, com Polícia Federal, investigações, suspeitas de influência privada sobre projetos legislativos e uma avalanche de manchetes tóxicas, o deputado decidiu retirar discretamente sua proposta.
Discretamente, diga-se.
É sempre fascinante observar a velocidade com que certos projetos perdem importância assim que o noticiário começa a ficar desagradável. A proposta que parecia tão necessária para o país virou subitamente algo dispensável, quase um equívoco administrativo, uma distração legislativa de fim de tarde.
Segundo Barros, a retirada ocorreu para evitar “ilações”.
Brasília adora essa palavra. “Ilação” é o equivalente político de “vocês entenderam errado”. O sujeito aparece exatamente no meio da confusão, segurando exatamente o mesmo projeto defendido pelos mesmos interesses que agora estão sob investigação, mas a culpa, aparentemente, é da interpretação alheia.
E aqui mora o verdadeiro problema político do deputado.
Filipe Barros não disputa apenas mais um mandato proporcional escondido entre centenas de candidatos. Ele é tratado dentro do PL como nome competitivo para o Senado. E eleição majoritária tem regras diferentes. O eleitor passa a olhar não apenas para o discurso ideológico, mas também para a capacidade do candidato de evitar constrangimentos públicos monumentais.
Esse episódio entrega exatamente aquilo que adversários adoram. Um projeto semelhante ao centro de um escândalo, coincidência legislativa demais para pouco contexto, retirada rápida após repercussão e a tradicional tentativa de transformar tudo em mal-entendido.
Na prática, Barros acabou entrando em uma armadilha clássica da política brasileira, a da explicação defensiva tardia.
Porque quando um político precisa gastar energia explicando por que apresentou um projeto idêntico ao de outro parlamentar envolvido em investigação, o dano político já começou.
Ainda que não exista investigação formal contra ele e que juridicamente nada avance, terminando em pizza institucional tamanho família.
Os adversários de Barros não vão sequer precisar provar crime algum. Vão apenas repetir a sequência dos fatos.
E convenhamos, em tempos de redes sociais, vídeos curtos e campanhas violentamente digitais, “apresentei o projeto para proteger investidores, mas retirei porque começaram ilações” não é exatamente um slogan eleitoral irresistível.
No Paraná, onde a disputa pelo Senado promete ser brutal, situações assim costumam cobrar um preço alto. Porque o eleitor pode até não acompanhar detalhes técnicos sobre o Banco Master ou emendas parlamentares. Mas entende perfeitamente quando um político parece correr para apagar rastros antes que a fumaça aumente.
E fumaça, em Brasília, raramente ajuda candidatura.
O que diz o deputado
A assessoria de imprensa do deputado Filipe Barros enviou nota sobre o assunto ao portal HojePR. Diz basicamente o que já foi reproduzido pela coluna: “por conta de ilações que distorciam seu propósito, retirei-a (a proposta) de pauta meses atrás”.
Em nome do bom jornalismo e da isenção do portal HojePR, publico na íntegra:
Quem ataca um projeto como o que apresentei não está defendendo o cidadão, mas sim protegendo os grandes bancos – que são os principais responsáveis pelo FGC.
A proposta visava justamente resguardar o pequeno e médio investidor de escândalos como o do Master, mas, por conta de ilações que distorciam seu propósito, retirei-a de pauta meses atrás.
Lembro, também, que, em dezembro de 2024, fui o primeiro parlamentar denunciar para Polícia Federal os negócios escusos do Master com a Reag Investimentos, além de ter sido um dos primeiros a assinar a CPMI do Banco Master.
Quero que Daniel Vorcaro e sua gangue apodreçam na cadeia.
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