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O conservadorismo da caverna

14/05/2026
valmir francisquinho

O pré-candidato do Republicanos ao governo de Sergipe, Valmir de Francisquinho, esse da foto aí acima, conseguiu produzir uma das declarações mais vergonhosas da política brasileira recente. Sem qualquer constrangimento, em uma entrevista a uma rádio local, disparou a frase: “Mulher minha não se envolve em política. Mulher e política? Esqueça!”.

Há declarações que ofendem mulheres. E há asneiras que constrangem qualquer homem minimamente inteligente.

É difícil decidir o que impressiona mais, o machismo explícito ou a tranquilidade medieval com que a frase foi dita. Parece conversa saída diretamente de um boteco dos anos 1950, daqueles onde meia dúzia de sujeitos jogam dominó, fumam sem parar e explicam o mundo entre um gole de cachaça e outro, não de um pré-candidato ao governo de um Estado em 2026.

E talvez não seja coincidência, mas até dezembro o risonho candidato era filiado ao PL, partido que hoje concentra boa parte da direita conservadora brasileira, reunindo nomes como Flávio Bolsonaro e Sergio Moro.

Evidentemente, nem todo integrante do partido compartilha desse tipo de pensamento grotesco. Mas também é impossível ignorar o ambiente político e cultural cultivado nos últimos anos.

Um espaço onde preconceitos antigos frequentemente reaparecem embalados como “defesa da família”, “bons costumes” ou “valores tradicionais”. Em alguns casos, valores tão tradicionais que parecem importados diretamente do Império.

Na prática, o que se vê é uma parcela da política brasileira transformando intolerância em identidade eleitoral.

O mais curioso é observar homens que passaram décadas monopolizando o poder tentando convencer o país de que mulheres não servem para a política.

Convenhamos, olhando o histórico da política brasileira, dominada majoritariamente por homens e recheada de escândalos de corrupção, rachadinhas, fisiologismo, vaidades infantis e administrações desastrosas, talvez fosse prudente evitar usar o gênero masculino como selo automático de competência. O currículo recente de muitos políticos recomenda certa humildade.

No Paraná, aliás, episódios de misoginia política também se tornaram frequentes. Declarações do deputado estadual Ricardo Arruda contra parlamentares mulheres geraram reações públicas e acusações de violência política de gênero.

Qual o partido de Arruda? Ah, o PL. Sigamos.

O problema, no entanto, não é isolado, existe um padrão com um ambiente de hostilidade crescente contra mulheres que ocupam espaços de poder.

E isso ajuda a explicar por que frases como a do candidato sergipano não surgem do nada. Elas aparecem porque certos setores políticos passaram anos alimentando a ideia de que igualdade de gênero seria ameaça, exagero ou “lacração”. O resultado é essa sucessão de declarações constrangedoras que faz o Brasil parecer preso num looping de atraso intelectual.

A ironia é cruel. Enquanto alguns políticos tentam empurrar mulheres de volta para a cozinha simbólica da sociedade, o mundo real segue sendo sustentado por mulheres na ciência, na gestão pública, na educação, no Judiciário, na imprensa, nas empresas e também na própria política.

Talvez seja justamente isso que incomode tanto alguns dinossauros eleitorais. Mulheres não aceitam mais pedir licença.

E ainda bem. Porque o problema nunca foi mulher entrar na política. O problema é a política ainda abrir espaço para homens que pensam como coronéis de 1850 usando smartphone.

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