A direita brasileira talvez precise começar a estudar um fenômeno raro da política mundial. A impressionante capacidade que a família Bolsonaro tem de transformar vitória em derrota, favoritismo em crise e campanha promissora em tutorial acelerado de autossabotagem. É quase um talento hereditário.
Em 2022, Jair Bolsonaro entrou para a história como o primeiro presidente da República a não conseguir se reeleger desde que a reeleição passou a existir no Brasil. E isso talvez seja ainda mais impressionante quando lembramos quem estava do outro lado da disputa.
Bolsonaro conseguiu perder para Lula. Sim, Lula. O presidente do mensalão, do petrolão, das condenações anuladas, da Lava Jato, das empreiteiras, dos escândalos que durante anos pareciam suficientes para encerrar qualquer carreira política. Ainda assim, Bolsonaro encontrou um jeito de devolver o homem ao Palácio do Planalto.
Não foi exatamente uma tarefa simples. Exigiu esforço.
A pandemia virou um reality show permanente de frases desastrosas, negacionismo militante, brigas inúteis e uma impressionante incapacidade de perceber que presidente da República não pode se comportar como comentarista descontrolado de rede social vinte e quatro horas por dia.
Enquanto boa parte do país queria estabilidade, serenidade e algum senso de normalidade, Bolsonaro entregava motociata, guerra contra vacina e discussões intermináveis sobre urna eletrônica.
O resultado foi quase uma intervenção de caridade política em favor do PT.
Lula, que parecia caminhar lentamente para o museu das figuras desgastadas da República, voltou ao poder praticamente carregado no colo pelos erros do próprio adversário.
Pois bem. Quando parecia impossível repetir a proeza, surge o filho 01 para mostrar que a genética da autossabotagem segue firme e saudável dentro da família.
Flávio Bolsonaro vinha numa trajetória confortável. Crescia nas pesquisas, consolidava liderança e começava até a transmitir uma imagem mais moderada, menos explosiva e um pouco mais institucional. O que, convenhamos, já representava um avanço revolucionário para os padrões bolsonaristas de convivência pública.
Até aparecer o áudio enviado a Daniel Vorcaro. E então o roteiro conhecido voltou ao palco.
Porque existe uma dificuldade quase espiritual dentro da direita bolsonarista de entender uma regra muito simples da política. Proximidade excessiva com personagens cercados de polêmicas costuma terminar mal. Especialmente quando a relação soa íntima, calorosa e descontraída demais para quem tenta sustentar discurso moralista e imagem de combate ao sistema.
A pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada nesta terça-feira (19), registrada na Justiça Eleitoral com o número BR-06939/2026, mostrou rapidamente o tamanho do desgaste político provocado pelo episódio.
E aqui mora uma ironia maravilhosa. O bolsonarismo passou anos criticando Lula por sobreviver politicamente cercado de figuras problemáticas. Agora repete exatamente o mesmo comportamento, mas com menos experiência e muito mais trapalhada.
É como assistir alguém reclamar da banana na pista enquanto corre para escorregar nela em câmera lenta.
Os Bolsonaros parecem ter desenvolvido uma habilidade raríssima. Transformam qualquer vantagem eleitoral em crise de imagem com uma velocidade impressionante. Quando a direita começa a respirar, organizar discurso e construir alternativa competitiva, algum integrante da família surge para atear fogo no próprio palanque.
E Lula agradece mais uma vez.
Talvez esteja chegando a hora de parte da direita brasileira encarar uma verdade desconfortável. O maior cabo eleitoral do lulismo contemporâneo talvez não seja o PT. Talvez seja justamente a incapacidade dos Bolsonaros de parar de estragar tudo.
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