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O Império do bedelho

02/06/2026
império

Os Estados Unidos descobriram mais um problema gravíssimo para a humanidade. Não é a crise dos opioides. Não é o déficit trilionário. Não é a violência urbana. Não é a dificuldade de milhões de americanos em pagar uma consulta médica sem vender um rim no eBay.

Não. O problema agora é o PIX.

Sim, senhoras e senhores. O sistema brasileiro que permite transferir dinheiro em segundos, sem tarifas abusivas e sem precisar preencher um formulário do tamanho da Constituição americana virou motivo de preocupação em Washington.

É emocionante ver o nível de dedicação do governo americano aos assuntos brasileiros. Enquanto parte de suas cidades enfrenta problemas de moradia, criminalidade, imigração irregular, infraestrutura envelhecida e uma polarização política que transforma qualquer reunião de condomínio numa prévia da Guerra Civil, lá estão eles, heroicamente preocupados com o cidadão de Cascavel que transfere R$ 17,50 para pagar um pastel.

É quase uma vocação missionária.

Os americanos têm uma relação curiosa com o resto do mundo. Eles se comportam como aquele vizinho que entra na sua casa sem convite, critica a cor da sua sala, reclama da sua televisão, dá opinião sobre o seu casamento, reorganiza seus móveis e, ao voltar para casa, tropeça numa pilha de problemas acumulados na própria garagem.

Washington parece acreditar que existe um cargo informal de síndico planetário.

Se um país cria um sistema de pagamentos, eles opinam. Se outro regula redes sociais, eles opinam. Se um terceiro decide plantar mandioca em vez de batata, provavelmente eles opinam também.

Daqui a pouco surge um relatório oficial denunciando a excessiva utilização de chinelos Havaianas como barreira não tarifária ao comércio internacional.

E o mais divertido é a lista de reclamações. PIX, desmatamento, pirataria, corrupção. Parece aquele aluno que não estudou para a prova e resolveu preencher a folha escrevendo tudo o que lembrou nos últimos dez minutos.

É claro que o Brasil tem problemas. Muitos. Alguns gigantescos. Mas talvez a maior potência do planeta pudesse reservar parte da sua energia para resolver os próprios.

Por exemplo, tentar entender como um país que colocou homens na Lua ainda consegue ter milhões de pessoas sem acesso adequado à saúde.

Ou como uma nação que lidera a inteligência artificial continua vendo bairros inteiros mergulhados em pobreza extrema.

Ou por que estudantes saem da faculdade devendo valores que fariam um agiota corar de vergonha.

Ou quem sabe discutir por que uma simples ida ao hospital pode resultar numa dívida suficiente para financiar uma pequena república tropical.
Mas não. O foco é o PIX. O PIX do Brasil é uma ameaça. Daqui a pouco o café coado também será considerado um risco à segurança nacional americana.

E aí entram em cena alguns brasileiros que possuem uma habilidade rara. A infindável capacidade de transformar qualquer disputa política doméstica numa excursão internacional.

São os patriotas que passam metade do tempo dizendo que o Brasil é soberano e a outra metade correndo para pedir ajuda a governos estrangeiros.

Quando a decisão lhes agrada, é soberania nacional. Quando não agrada, é hora de chamar Washington. É uma modalidade curiosa de patriotismo e você, leitor, sabe bem de quem estou falando.

O sujeito enrola a bandeira brasileira no corpo durante o dia e, à noite, vai bater na porta da potência estrangeira para reclamar do próprio país. Uma espécie de SAC internacional da política brasileira.

Os Estados Unidos, evidentemente, adoram. Sempre adoraram.

Porque não existe nada que um império goste mais do que pessoas dispostas a entregar de bandeja argumentos para que ele continue acreditando que o planeta inteiro é uma extensão administrativa de Washington.

Enquanto isso, o brasileiro comum continua fazendo aquilo que faz há séculos. Vai sobrevivendo, pagando boleto, enfrentando trânsito, tomando susto no supermercado. E usando PIX. Muito PIX.

Talvez seja exatamente isso que incomode. E não me venham os chatos da direita e da esquerda com o papo mole de quem criou o PIX foi este ou aquele. Não tô nem aí e nem me arvorando a defender este ou aquele lado. Sejamos inteligentes e deixemos de lado os antolhos.

O fato é que poucas coisas irritam mais certos burocratas do que descobrir que alguém resolveu um problema sem pedir autorização para eles.

No fundo, a história toda parece uma velha síndrome imperial. Aquela convicção de que o mundo gira ao redor de um único país.

A má notícia é que não gira. A boa notícia é que sempre haverá alguém para lembrar disso.

Nem que seja através de um PIX de um real acompanhado da mensagem: “Obrigado pela preocupação. Agora cuidem do próprio quintal.”

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