Já vou avisando antes que comecem os ataques: respirem fundo. Tomem uma água. Contem até dez. Porque eu sei que, neste exato momento, assessores, correligionários, simpatizantes, amigos, vizinhos, parentes distantes e até aquele sujeito que comenta em todas as redes sociais do senador Sergio Moro já estão rangendo os dentes lendo este texto. Mas não briguem comigo. Briguem com a matemática.
A nova pesquisa do IRG trouxe mais um dado que começa a ficar difícil de ignorar. Moro continua liderando, mas continua caindo. E antes que alguém apareça gritando “mas ele está em primeiro!”, sim, eu sei. Se a eleição fosse hoje, se o cenário fosse esse, se o mundo acabasse amanhã e se os planetas permanecessem alinhados, Moro ainda estaria na frente.
O problema é que pesquisa eleitoral não é fotografia. É filme. E filme não se assiste olhando apenas um quadro.
O que preocupa não é onde o senador está. É para onde ele está indo.
Quando um candidato passa meses escorregando alguns pontos aqui, outros ali, o fenômeno deixa de ser um acidente estatístico e começa a virar tendência. E tendência é aquela palavra que faz estrategista político perder o sono, aumentar o consumo de café e desenvolver uma relação emocionalmente intensa com planilhas de Excel.
Até pouco tempo, a conversa era de que Moro pisaria no acelerador e desapareceria no horizonte. Hoje, a sensação é a de um carro que continua na liderança da corrida, mas vê os retrovisores ficando cada vez mais movimentados. Não chega a ser pane. Mas já acendeu a luz amarela no painel. A vermelha ainda não, mas ninguém mais está fingindo que a luz não existe.
O curioso é observar a reação dos aliados. Toda vez que sai uma pesquisa mostrando queda, a explicação é sempre sofisticadíssima. É o clima. É a metodologia. É a fase da lua. É Mercúrio retrógrado. É a posição de Júpiter. É o horário da coleta. É a umidade relativa do ar.
Nunca é o candidato. A culpa pode ser de tudo. Menos da curva. E a curva, essa danada, continua apontando para baixo.
Aliás, se as pesquisas fossem uma série de televisão, Moro ainda seria o protagonista. Mas aquele protagonista que começou a temporada com audiência recorde e agora vê os números caindo capítulo após capítulo. A série não foi cancelada. Mas o diretor já começou a ficar nervoso. Os patrocinadores também. E os roteiristas estão reescrevendo algumas cenas.
A verdade é simples. Nenhuma pesquisa elege ninguém, mas várias pesquisas consecutivas mostrando a mesma direção costumam merecer atenção. Principalmente quando institutos diferentes começam a registrar sinais parecidos.
Por isso, meus amigos, não fiquem bravos comigo. Eu não fabrico números. Eu apenas observo. E o que estou observando é que o senador continua liderando a corrida, mas já não corre com a mesma tranquilidade de quem acredita que a linha de chegada está logo ali.
E isso, gostem ou não, é exatamente o tipo de notícia que faz muito estrategista político acordar de madrugada para conferir a pesquisa mais uma vez. Só para ver se ela melhorou durante a noite. Só que normalmente não melhora.



