ANO IV

14/07/2026

HojePR

ernani

Spekula e o Négro

14/07/2026
spekula

O polaco Spekula foi uma figura folclórica na Curitiba dos anos 60. Se a grafia do nome está correta, desconheço – era assim que era referido. Spekula trabalhou em uma construtora, onde tinha funções diversas, de dirigir caminhão a instalar cabos elétricos, falando português errado e com forte sotaque.

Ao fim do expediente, costumava tomar sua vodka no balcão do Bar do Juarez, na esquina da Conselheiro Laurindo (ou era a Tibagi?) com Benjamin Constant, ainda trajado com seu macacão sujo da lida diária.

Ali contava suas aventuras, degustava um acepipe ou outro e ia embora para casa, sem incomodar ninuguém. Não naquela noite fatídica, em que um cidadão de pele preta se sentou ao seu lado e pediu um martelinho de cachaça. A conversa até fluiu no início, mas logo entrou no perigoso terreno da comparação entre as duas bebidas.

O brasileiro exaltou a cachaça por seu aroma, desqualificando a vodka. Foi o que bastou para Spekula colocar-se em brios. Saltou do banquinho e passou defender a bebida nacional da Polônia. Chamou o adversário de ignorante, alguém que não conhecia a história gloriosa da vodka, responsável não só por aquecer os poloneses, mas dar ânimo a eles, no inverno rigoroso do país. A vodka era mais que uma bebida, era um alimento e um símbolo polonês.

A coisa desandou. O nosso preto também pulou do banquinho e devolveu o insulto. Ignorante era o outro, que vivia no Brasil e não tomava cachaça, hábito de milhões de pessoas em todos os cantos do país. E passou para a ofensa pessoal:

– Polaco, você deveria tomar banho antes de vir ao bar está com bodum.

Spekula reagiu, apoplético, aos berros:

– Négro, eu trabalho, nunca fui scravo como seu gente, compravam vocês com dinherro!

O cachacista patriótico devolveu na bucha:

– Pelo menos pagavam algum dinheiro. Por vocês, ninguém jamais ofereceu um tostão.

Spekula ficou em silêncio, apertou a mão do inimigo em sinal de cessar fogo e foi embora cabisbaixo. No dia seguinte, confessou ao dono do bar:

– Jurreis, eu fiqui muito brabo, mas o resposta para o Négro só pareceu quando eu estava entrrando no meu casa.

– E qual era a resposta?

– Yá isquici!

Leia outras colunas do Ernani Buchmann aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário