Confesso que tive dificuldade para entender um vídeo publicado na semana passada pelo ex-procurador Deltan Dallagnol em suas redes sociais.
O vídeo é bem produzido e mostra um Deltan empenhado na interpretação. Caras, bocas, pausas dramáticas e expressão de quem acaba de sair vivo das masmorras do sistema.
O sistema é personagem central. Não sei exatamente o que ele é. Pode ser uma entidade, uma névoa ou qualquer instituição que tome uma decisão contrária aos interesses de Deltan. Ele informa que foi perseguido, calado, teve seus votos anulados e seu mandato arrancado.
Depois do cenário de martírio, chega ao pedido: dinheiro.
A meta era arrecadar R$ 10 mil. Bastava fazer a transferência e ajudá-lo a reagir ao que fizeram contra ele.
Muito bem. Mas para quê?
O vídeo não esclarece. Deltan diz que não se trata de dinheiro para campanha eleitoral. Seria uma vaquinha, uma mobilização. Só que a emoção ocupa tanto espaço que falta a informação básica: qual será o destino do dinheiro?
Com Deltan, é difícil pedir razoabilidade. Ele não conta fatos. Transforma tudo em uma epopeia na qual ocupa os papéis de herói, vítima, narrador e diretor.
Sua versão é conhecida. Abandonou uma carreira brilhante no Ministério Público para entrar na política e acabou cassado sem motivo, vítima de vingança do sistema.
Não foi exatamente assim.
O Tribunal Superior Eleitoral indeferiu seu registro com base na Lei da Ficha Limpa. Deltan pediu exoneração do Ministério Público Federal quando havia contra ele diversos procedimentos administrativos no Conselho Nacional do Ministério Público. Para o TSE, sua saída impediu que as apurações evoluíssem para processos disciplinares capazes de resultar em punições mais graves.
É exagero dizer que havia uma expulsão pronta para ser assinada. Mas também é enganosa a versão de que ele simplesmente abriu mão, por idealismo, de uma carreira tranquila. Deltan saiu quando sua situação disciplinar era delicada. Isso é bem diferente da narrativa de sacrifício que vende nas redes.
Pode-se discordar da decisão. O que não se pode é fingir que o mandato desapareceu por um ato inexplicável de crueldade. Houve processo, defesa e fundamento legal.
Voltemos à vaquinha.
A pergunta sobre a finalidade do dinheiro fica ainda mais pertinente quando se sabe que Deltan recebe uma remuneração elevada do Partido Novo.
Reportagens informaram que a empresa da qual ele e familiares são sócios recebeu centenas de milhares de reais do partido. Seu contrato prevê pagamento mensal de R$ 42,5 mil.
Nada disso é necessariamente ilegal. O Novo pode contratá-lo e Deltan pode receber por seu trabalho. Mas alguém remunerado nesse patamar deveria explicar por que precisa pedir dinheiro aos seguidores.
É para pagar advogados? Produzir vídeos? Financiar viagens? Contratar equipe? Fazer eventos? Sustentar uma pré-campanha?
Deltan não diz.
Há ainda a questão eleitoral. A campanha oficial nem começou e nenhum brasileiro minimamente informado pode afirmar hoje que Deltan será candidato. Até prova em contrário, ele enfrenta uma decisão que reconheceu sua inelegibilidade. O Novo sustenta que ele poderá disputar a eleição. A palavra final será da Justiça Eleitoral.
Deltan pode ranger os dentes e acusar perseguição, mas não pode apagar essa realidade jurídica com expressão facial.
Poucas horas depois do primeiro vídeo, ele publicou outro comemorando que a meta de R$ 10 mil havia sido alcançada. E então chamou a arrecadação pelo nome: vaquinha eleitoral.
Então era eleitoral?
No primeiro vídeo, não era dinheiro para campanha. No segundo, já era uma vaquinha eleitoral. Entre uma versão e outra, passaram-se poucas horas e entrou dinheiro.
Está tudo estranho e esquisito.
Talvez o objetivo seja menos financiar um projeto e mais sustentar uma narrativa. Cada doação funciona como um voto simbólico contra o sistema, os tribunais e quem insiste em lembrar os fatos sem trilha sonora ou aura de martírio.
Deltan não está vendendo apenas uma possível candidatura.
Está vendendo sua própria canonização. E, como toda canonização moderna, aceita Pix.
Ah, em tempo: Deltan avisa no segundo vídeo que seus seguidores podem continuar doando. A meta, ao que parece, é infinita.
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