ANO IV

27/07/2026

HojePR

zisman

A convenção terminou. A articulação, não.

27/07/2026
convenção

As imagens da convenção do PSD mostraram aquilo que todos esperavam ver: Sandro Alex homologado candidato ao Governo do Paraná. Mas a política raramente se resume ao que acontece sobre o palco. O movimento mais importante daquele sábado não foi a oficialização de uma candidatura. Foi a constatação de que começa a ganhar forma uma ampla coalizão capaz de reorganizar o centro político paranaense e alterar o eixo em torno do qual deverá gravitar a sucessão estadual.

Mais do que lançar um candidato, o grupo liderado por Ratinho Junior apresentou uma construção política em expansão. A chapa foi homologada com Sandro Alex para o Governo e Alexandre Curi, do Republicanos, para uma das vagas ao Senado, reunindo ao redor de si uma frente formada por partidos, prefeitos, vice-prefeitos, vereadores, deputados estaduais e federais, dirigentes partidários e lideranças de praticamente todas as regiões do Estado. O tamanho da mobilização demonstrou que a campanha deixou definitivamente os gabinetes para ocupar as ruas.

A presença de Gilberto Kassab e Ronaldo Caiado conferiu dimensão nacional ao encontro. Nenhum dos dois precisava estar em Curitiba apenas para prestigiar uma convenção estadual. Vieram porque compreenderam que a eleição paranaense extrapolou as fronteiras do Estado. Para o PSD, uma vitória no Paraná significará muito mais do que a continuidade de um governo bem avaliado. Representará a consolidação de um modelo de articulação política que Kassab pretende reproduzir em outras disputas pelo país.

Mas a política costuma falar tanto pelos discursos quanto pelos espaços deixados em aberto.

Embora tenha homologado parte da chapa majoritária, a convenção terminou preservando importantes peças da engenharia política. Permanecem indefinidos o candidato a vice-governador, a segunda vaga ao Senado e as respectivas suplências. Longe de representar fragilidade, essa decisão amplia a capacidade de negociação do grupo governista justamente no momento em que a campanha começa a ganhar corpo.

É nesse contexto que o MDB continua ocupando posição estratégica. Álvaro Dias desponta como o nome mais consistente para ocupar a segunda vaga ao Senado. Ao mesmo tempo, Rafael Greca permanece sendo, para muitos articuladores da base, o nome que melhor ampliaria a coalizão na condição de vice-governador. É verdade que dificilmente um único partido ocuparia duas posições na chapa majoritária. Mas a política raramente se limita aos cargos principais. As suplências ao Senado e outros espaços de composição oferecem margem suficiente para acomodar interesses, preservar protagonismos e ampliar alianças. A convenção terminou, mas a montagem da chapa está longe de ter sido encerrada.

Nesse cenário, o silêncio em torno da vice também preservou o espaço político de Cristina Graeml. Seu nome continua sendo tratado como uma alternativa competitiva e respeitada dentro da coalizão. A decisão de não oficializá-la não reduz seu peso político. Apenas demonstra que as conversas permanecem abertas e que o grupo governista prefere concluir toda a engenharia da aliança antes de anunciar a composição definitiva.

Outro episódio do fim de semana ajuda a compreender como o tabuleiro começa a se movimentar.

Enquanto o presidente estadual do Podemos, Felipe Francischini, encaminhava o apoio do partido à candidatura de Sergio Moro, o deputado estadual Do Carmo, vice-presidente da legenda no Paraná, divulgava um vídeo declarando apoio a Sandro Alex e Alexandre Curi. A manifestação extrapola uma divergência interna. Ela revela que o apoio ao senador está longe de produzir unanimidade dentro do próprio partido.

Também não parece coincidência que essa resistência surja justamente na legenda que acolheu Sergio Moro, estruturou sua candidatura presidencial e acabou assistindo à sua saída para outra sigla quando o projeto nacional foi abandonado. A política costuma ter memória mais longa do que imaginam aqueles que acreditam que mudanças partidárias encerram capítulos.

Se existe um personagem cuja atuação ajuda a explicar a musculatura demonstrada pela convenção, esse personagem é Alexandre Curi.

Confirmado como candidato ao Senado pelo Republicanos, Curi chega à campanha depois de meses dedicados à construção dessa aliança. Sua interlocução permanente com prefeitos, deputados, dirigentes partidários e lideranças municipais ajudou a transformar um projeto inicialmente restrito ao PSD numa coalizão de alcance estadual. Convenções duram poucas horas. A articulação política que as torna possíveis leva meses e, muitas vezes, anos.

Naturalmente, nada disso antecipa o resultado das urnas. Convenções não elegem governadores e alianças não substituem votos. A campanha apenas começou e será o eleitor quem decidirá o desfecho da sucessão.

Mas já é possível identificar uma mudança importante no ambiente político paranaense.

Enquanto candidaturas de perfil mais marcadamente ideológico tendem a consolidar suas bases em segmentos específicos do eleitorado, a coalizão liderada por Sandro Alex procura ocupar um espaço político mais amplo, reunindo forças que, até pouco tempo atrás, pareciam improváveis na mesma mesa de negociação. É justamente essa capacidade de ampliar convergências que poderá fazer a diferença ao longo da campanha.

A verdadeira notícia do sábado, portanto, não foi apenas a homologação de uma candidatura.

Foi a demonstração de que o centro político do Paraná começou a se organizar.

Se essa construção será suficiente para vencer a eleição, somente o eleitor responderá nos próximos meses. O que já pode ser afirmado é que a sucessão deixou de ser apenas uma disputa entre candidatos para se transformar numa disputa entre projetos políticos de amplitudes muito diferentes. De um lado, candidaturas que buscam consolidar seus respectivos campos eleitorais. Do outro, uma coalizão que deliberadamente manteve espaços em aberto porque acredita que ainda pode crescer.

É esse, por enquanto, o verdadeiro estado das coisas.

Leia outras colunas O Estado das Coisas aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário