ANO IV

09/06/2026

HojePR

dennison

A disjunção entre diplomacia e defesa no Brasil

09/06/2026
brics

Em qualquer governo são naturais as divergências de orientação entre a política de defesa e a das relações internacionais. No caso brasileiro tais divergências assumiram caráter tão extremo que colocam em risco a soberania nacional.

A adesão do Brasil em 2009 ao bloco dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) operou um realinhamento de dimensões estratégicas. Tal realinhamento guarda estreita relação com as transformações verificadas na inserção do Brasil no mercado mundial. Entre estas cabe destacar a ultrapassagem dos Estados Unidos pela China como como nosso maior parceiro comercial em 2005.

A partir daí Brasil e China transformaram-se em economias complementares. O Brasil fornece alimentos, combustíveis e matérias-primas e importa bens industrializados, tecnologia e capital chineses. Os Estados Unidos, por seu turno, continuam sendo nossos grandes concorrentes econômicos no que diz respeito às exportações de alimentos e matérias-primas. O Brasil sustenta um elevado déficit comercial com os EUA, composto em sua maior parte da importação de bens industrializados de alto valor agregado, pagamento de royalties e serviços. A recente entrega de importantes jazidas de terras raras brasileiras aos Estados Unidos promete tornar essa situação ainda pior.

As políticas protecionistas impostas pelos Estados Unidos deram impulso adicional ao realinhamento sul-sul. O Brasil já havia se tornado um país fortemente dependente da importação de fertilizantes e derivados de petróleo da Rússia, tensionando o boicote que os Estados Unidos e os países da OTAN pretendem impor àquele país. Em paralelo ocorreu um substancial aumento do volume de comércio com o Irã, o qual aderiu aos BRICS em 2024. Por exemplo, o Irã atualmente responde sozinho pela importação de um quarto de todo o milho produzido pelo Brasil.

Atualmente a presidência do Banco dos BRICS com sede na China é exercida pelo Brasil. A crescente dominância econômica chinesa sobre diferentes setores da economia brasileira há tempos vem sendo motivo de preocupação em Washington. As empresas estatais chinesas em associação com os bancos públicos dispõem de volumes expressivos de capital para investimento em países de interesse estratégico. Uma parte substancial do setor elétrico brasileiro já é operado por empresas estatais chinesas. Também diversas jazidas petrolíferas do pré sal, desde o início do processo de privatização desses mananciais, estão sob controle chinês. É forte a probabilidade de que a reconstrução do falido sistema ferroviário brasileiro seja feita inteiramente com base no capital e na tecnologia chinesas.

Tudo isso contrasta com a orientação dominante na política externa militar do Brasil que é conduzida exclusivamente pelo pessoal fardado, sem interferência de autoridades civis. Predomina em todas as três forças armadas a ideia colonizada e subordinada de que o Brasil, desde que assumiu a condição de aliado preferencial extra-OTAN (2019), necessariamente deve se alinhar com as políticas daquela organização. A recusa demencial do Presidente da República em exercer sua função constitucional de Comandante Supremo das Forças Armadas permitiu e continua a permitir tal aberração.

Como resultado, nossa marinha de guerra compra suas embarcações e a tecnologia militar respectiva de comando e controle exclusivamente em países pertencentes à OTAN. Os exercícios navais são conduzidos apenas com as marinhas dos Estados Unidos e seus aliados. Não existe qualquer interoperabilidade possível entre os meios navais brasileiros e suas unidades de apoio com as marinhas da China, da Rússia, da Índia ou da África do Sul.

O exército, por sua vez, com o histórico alinhamento automático às políticas militares estadunidenses segue pela mesma linha. Nossos militares fazem exercícios conjuntos exclusivamente com os Estados Unidos e seus aliados, adquirem seus blindados, sistemas de mísseis, antimísseis e drones exclusivamente entre países da OTAN, ou então em Israel. Seus quadros mais qualificados frequentam cursos de atualização, realizam exercícios de integração e interoperabilidade exclusivamente com as forças armadas dos Estados Unidos e dos seus aliados na OTAN. Finalmente, a total dependência das forças armadas e do governo em geral dos meios de comunicação digitais dominados pelas big techs americanas revelam, talvez mais qualquer outra prática, este alinhamento incondicional.

Da parte da força aérea se verifica o mesmo padrão. Os militares da aeronáutica realizam exercícios, frequentam cursos e adquirem material, armas, aeronaves e munições exclusivamente entre os países membros da OTAN. Quando teve início o programa de aquisição de aviões de caça Gripen fabricados na Suécia (2014) aquele país ainda era formalmente neutro. Com a entrada da Suécia na OTAN (2024) tais aquisições deveriam ter sido revistas, senão totalmente canceladas.

Daí se verifica a imensa disjunção que atualmente vigora no Brasil entre a política de relações internacionais, orientada para os BRICS, e as relações internacionais militares, pautadas pelo alinhamento com a OTAN/Israel. Resta saber em que momento essa disjunção se tornará crítica, se é que isso já não aconteceu. Pensem por exemplo no caso da recente guerra ainda em andamento entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, a qual levou ao fechamento do Estreito de Ormuz. A todo momento se cogita em reabrir pela força a passagem do Estreito, até agora regulada e imposta pelo Irã. Como ficaria o Brasil então nesse caso?

Devido ao nosso alinhamento com os BRICS e as extensas e relevantes relações comerciais com o Irã, o que se exigiria é que a marinha de guerra do Brasil escoltasse os navios iranianos carregados com milho brasileiro até o seu destino. A manutenção dos laços comerciais com o Irã faz sentido do ponto de vista da política dos BRICS mas, de um ponto de vista militar, exigiria um engajamento da nossa armada contra a marinha estadunidense, o que é absolutamente impossível, não apenas pela disparidade de forças ( a qual talvez possa ser compensada em algum momento por outros meios ainda fora do nosso alcance), mas pela total dependência tecnológica, alinhamento doutrinário e subordinação tática e estratégica da marinha de guerra do Brasil à marinha dos Estados Unidos. Nesse sentido seria inviável o Brasil pretender garantir uma parte importantíssima do seu comércio de exportação de bens agrícolas que é justamente a venda de milho para o Irã.

O mesmo se verifica com relação a China, nosso maior parceiro comercial. Vivemos um contexto histórico em que não é apenas provável, mas também iminente, a deflagração de uma guerra entre a China e os Estados Unidos. Essa guerra pode assumir a forma da disputa pelo controle do Mar do Sul da China, ou então uma reação estadunidense a uma invasão chinesa da ilha de Taiwan. Se esse cenário vier a se verificar será imposto então um bloqueio naval americano ao comércio chinês.

Como ficaria o Brasil nessa situação? O Brasil teria condições de garantir as suas linhas de comunicação e transporte até a China? Nesse caso teriam as forças armadas brasileiras meios de garantir o comércio marítimo dos nossos produtos com a China? Uma vez mais a marinha brasileira teria que deixar de ser um mero anexo ou apêndice da marinha de guerra dos Estados Unidos e passar a agir como marinha de guerra do Brasil, isto é, garantindo a continuidade do tráfico naval brasileiro contra as restrições levantadas pela esquadra americana.

A disjunção entre diplomacia e defesa já converteu o Brasil em um anão diplomático. É inútil pretender executar qualquer política racional na área das relações internacionais sem se dispor dos meios militares destinados a dissuasão contra agressões e também para a imposição de ameaças no decorrer das negociações diplomáticas. Já não basta ao Brasil ser amado ou admirado: é necessário que ele seja também temido.

No dizer preciso de um professor da área de origem iraniana o Brasil é irrelevante: nada fez com relação ao sequestro do presidente Maduro por parte de forças americanas e nada fará se Cuba for invadida pelos Estados Unidos.

Se algum dia houver um governo disposto a superar essa condição de anão diplomático ele terá que, necessariamente, trabalhar pela convergência das políticas de relações internacionais e de defesa, hoje dissociadas de forma grave e potencialmente perigosa.

Para ler outras colunas de Dennison de Oliveira clique aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.

Deixe um comentário