Por Theodoro A. de C. de Mattos
A eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026 incomodou não apenas pelo resultado. Perder faz parte do esporte. O que mais frustra é a sensação de repetição: mais uma vez, a Seleção entrou em campo com talento, tradição, expectativa e camisa pesada, mas saiu derrotada por um adversário que pareceu entender melhor o jogo.
Deixo a leitura tática para quem entende de futebol. Mas há uma lição que ultrapassa o gramado: em ambientes cada vez mais organizados, competitivos e complexos, talento e improviso não bastam. É preciso método, planejamento, leitura de cenário e capacidade de adaptação.
Durante décadas, empresas brasileiras aprenderam a sobreviver em um sistema tributário complexo e muitas vezes irracional. Criaram estruturas comerciais, políticas de preço, modelos contratuais, operações interestaduais, regimes especiais e planejamentos em torno das regras existentes. Algumas dessas decisões foram eficientes até hoje. E não há nenhum problema em reconhecer isso. O erro seria imaginar que a eficiência do passado, sozinha, será suficiente para o próximo ciclo.
Embora a fase de testes já comece antes, 2027 marca uma etapa mais concreta da nova tributação sobre o consumo no Brasil. O IBS, a CBS e o Imposto Seletivo passarão a ocupar espaço, gradualmente, no lugar de tributos como PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS, que moldaram décadas de estratégia empresarial no país. Na prática, isso significa que muitas escolhas empresariais que faziam sentido no sistema antigo precisarão ser revisitadas. E aqui está o paralelo com a campanha da Seleção na Copa: de nada adianta entrar no novo jogo confiando apenas no que funcionou no passado.
A reforma tributária não será um tema restrito ao departamento fiscal. Ela vai aparecer no preço, na margem, no caixa, nos contratos e, principalmente, nas decisões comerciais que hoje parecem consolidadas. Na prática, tenho visto muitas empresas ainda tratarem a reforma como um problema de parametrização fiscal, quando a discussão real passa por modelo de negócio, rentabilidade e relação com a cadeia comercial.
Em algumas conversas, a primeira preocupação ainda é com o sistema. A pergunta que deveria vir antes: o preço continuará fazendo sentido? O contrato permite recompor eventual aumento de custo? A cadeia de fornecedores permitirá o aproveitamento adequado de créditos? A operação logística continuará eficiente quando a lógica tributária atual começar a perder relevância?
Quem tratar a reforma como simples ajuste de ERP pode descobrir tarde demais que o problema não estava no sistema, mas na forma de comprar, vender e formar preço.
Um contrato de longo prazo vigente e sem cláusula adequada de reequilíbrio pode se tornar economicamente ruim. Uma cadeia de fornecedores mal preparada pode comprometer o aproveitamento de créditos. Uma política comercial construída com base em benefícios fiscais atuais pode perder competitividade. Uma decisão logística tomada para aproveitar vantagens do ICMS pode deixar de fazer sentido.
No futebol o erro aparece no placar, na hora, sob os olhos de todo mundo. Na empresa ele aparece mais devagar, na lucratividade, alguns meses depois, quando talvez já seja tarde para corrigir.
Talvez esse seja o ponto que mais mereça atenção: na reforma tributária não vai haver um apito final. A transição será gradual, com fases de teste, convivência de regimes e ajustes sucessivos. Isso pode dar a falsa impressão de que há muito tempo pela frente.
O jogo da reforma já começou. Talvez estejamos no fim do primeiro tempo, mas ainda há intervalo para ajustar posicionamento e mudar a estratégia. Empresas que aproveitarem esse momento poderão renegociar contratos, redesenhar processos, revisar preços e dialogar melhor com clientes e fornecedores. Já quem esperar a mudança “entrar em vigor de verdade” talvez descubra que voltou para o segundo tempo sem saber como jogar.
A lição da Copa, portanto, não é apenas sobre futebol. É sobre a dificuldade brasileira de aceitar que talento sem organização perde força. Tradição ajuda, mas não entra em campo sozinha. E improviso pode resolver uma jogada; dificilmente sustenta um campeonato.
Porque, no futebol e nos negócios, existe uma verdade simples: quando o jogo muda, insistir na mesma estratégia deixa de ser experiência e passa a ser aposta no risco.
Theodoro A. de C. de Mattos é Advogado e sócio do escritório Gaia Silva Gaede Advogados



