Na política brasileira existem mudanças repentinas, viradas dramáticas e conversões inesperadas. Mas a filiação da jornalista Cristina Graeml ao PSD do Paraná conseguiu produzir um efeito raro. Deixou o meio político olhando para os lados, como quem entra numa sala e encontra um piano no teto.
O convite, registre-se com a devida precisão protocolar, partiu do governador Ratinho Junior. E foi aceito com entusiasmo digno de quem acaba de encontrar uma vaga na sombra em pleno meio-dia de janeiro.
Até aí tudo bem. Política é feita de convites e de portas que se abrem. O curioso está no enredo.
Cristina surgiu na política justamente combatendo o sistema. E agora ingressa exatamente no partido que, no Paraná, ocupa a sala principal desse mesmo sistema. É como se alguém passasse o Brasileirão inteiro gritando contra um clube e, no final do campeonato, aparecesse na foto vestindo o uniforme do time.
Nada contra as epifanias. Paulo, o apóstolo, também mudou de lado na estrada de Damasco. A diferença é que, no caso bíblico, houve um clarão divino. No caso paranaense, houve apenas um convite partidário.
A surpresa aumenta quando se consulta aquilo que os jornalistas chamam de arquivo, esse lugar inconveniente onde ficam guardadas as coisas que as pessoas disseram quando ainda não imaginavam que um dia poderiam pensar diferente.
Na eleição municipal de 2024, quando disputou a prefeitura de Curitiba, Cristina Graeml passou boa parte da campanha atacando diretamente o grupo político do governador.
Inclusive para o próprio Ratinho Junior, que foi alvo de ironias quando ela mencionou, com enorme desdém, o início da carreira dele como sonoplasta na rádio do pai. O comentário, à época, não foi exatamente recebido como um elogio biográfico.
Também sobrou para o então adversário e hoje prefeito da capital, Eduardo Pimentel, filiado justamente ao PSD. A campanha foi pródiga em ataques, críticas e provocações. Cristina perdeu a eleição, mas deixou registrado um repertório generoso de frases pouco amistosas dirigidas ao grupo que agora passa a ser… o seu.
Há ainda um detalhe curioso, digno de nota nas rodas políticas de Curitiba. Eduardo Pimentel não teria sido avisado previamente de que havia conversas avançadas para trazer Cristina ao partido. O prefeito da capital – repito: também do PSD – ficou sabendo da novidade praticamente junto com o resto da cidade.
Enfim, a política tem dessas coisas.
Outro aspecto que chama atenção é a impressionante mobilidade partidária da nova filiada.
Em apenas um ano, Cristina Graeml conseguiu a proeza de trocar de partido quatro vezes. Uma espécie de turismo ideológico que faria inveja a personagens de Machado de Assis, mestre em descrever as volubilidades humanas.
Coerência e fidelidade partidária, convenhamos, não parecem ser os pilares centrais da sua trajetória recente.
Mas talvez isso seja apenas sinal dos tempos. Como dizia Nelson Rodrigues, o brasileiro tem a capacidade singular de “mudar de opinião com a velocidade de um guarda-chuva ao vento”.
Há ainda um elemento ideológico no meio da história.
Cristina Graeml é frequentemente identificada no debate público como uma voz da extrema direita, com discursos e posições bastante marcados. O PSD, por sua vez, construiu no Paraná uma imagem de partido pragmático, institucional e de centro, às vezes centro-direita, às vezes centro-administrativo, dependendo do clima político do dia.
A convivência entre essas duas naturezas promete render surpresas. Ou, para usar uma comparação literária, talvez seja como colocar um personagem de Dostoiévski para morar dentro de um romance de Jane Austen. Ambos são interessantes, mas pertencem a universos completamente diferentes.
Nada disso significa que a experiência não possa dar certo. A política brasileira já produziu alianças mais improváveis que casamento de novela mexicana.
Mas, por enquanto, a filiação provocou exatamente aquilo que se esperava de um movimento tão abrupto: estranheza.
Eu já vi muita coisa nesta vida, inclusive deputados jurando fidelidade eterna a partidos que abandonariam três meses depois. Apenas observo a cena com o mesmo olhar que os cronistas reservam aos espetáculos humanos.
Afinal, como ensinava Oscar Wilde, a política muitas vezes não passa de “a arte de explicar o inexplicável e justificar o injustificável”.
No Paraná, pelo visto, ela também inclui mudar de trincheira com velocidade olímpica.
E, no fundo, talvez seja isso que torna a política tão fascinante quanto um romance, e às vezes quase tão improvável quanto uma comédia.
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