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A inauguração da estátua de Jaime Lerner

31/03/2026
jaime lerner

Foi inaugurada no último dia 23 de março a estátua de Jaime Lerner no calçadão da Rua 15 de Novembro em Curitiba (PR). O evento é de importância histórica, sendo indicador da reabilitação de Lerner, do Lernismo e sua normalização como corrente política e orientação doutrinária.

Jaime Lerner foi prefeito de Curitiba em três ocasiões (1971-1974; 1979-1983; 1989-1993) e governador do Estado do Paraná por dois mandatos (1995-2002). O fim do segundo mandato como governador marca o encerramento de sua trajetória política, caracterizada por ampla reprovação popular por parte de 37% da população, com apenas 26% dos paranaenses considerando sua administração boa ou ótima.

Um dos fatores contra a avaliação da sua gestão foram as denúncias de corrupção, como a existência de um “caixa dois” na arrecadação de campanha à reeleição do prefeito de Curitiba, Cássio Taniguchi, um veterano membro do grupo Lernista, como registra a matéria publicada em 24/12/2001 “Olívio Dutra e Jaime Lerner dividem a pior nota entre governadores” para ler clique aqui.

Ao morrer em 2021 o ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná Jaime Lerner deixava um legado abertamente negativo. Depois do relativo sucesso das suas três gestões como prefeito seguiu-se a eleição para dois mandatos de governador cujos resultados são controversos, senão francamente reprováveis. É possível que para a maioria da população exista um enorme contraste entre as gestões como prefeito de Jaime Lerner (tidas como boas ou ótimas) e sua atuação como governador (ruins ou péssimas). Nestas circunstâncias dificilmente teria sido possível inaugurar uma estátua de Jaime Lerner.

Uma das iniciativas do ex-governador que gerou intensa reação popular foi a tentativa de privatizar a Copel (Companhia Paranaense de Energia). O episódio foi fonte de intenso desgaste da imagem do governador, comprovou a influência neoliberal sobre suas políticas e a importância dos movimentos sociais como frente de resistência, como demonstrado na Dissertação de Mestrado em Sociologia de 2006 de Cátia Cilene Farago, para ler clique aqui. Embora vitoriosa, a tentativa Lernista de privatizar a Copel não foi adiante, devido à enorme resistência popular que despertou receios dos investidores.

Ainda mais ruinosa para a reputação de Lerner foi a implantação dos pedágios, os mais caros do mundo. Talvez seja esse o episódio negativo mais fortemente associado à figura de Jaime Lerner, frequentemente tido como o “pai dos pedágios”. A privatização das rodovias paranaenses foi marcada por diversos aspectos antiéticos e controversos do ponto de vista do interesse público, gerando confrontos entre o Estado e as concessionárias e tornando o usuário o maior prejudicado, como se constata na Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento Econômico de 2005 de Rejane Karam, para ler clique aqui.

Outro episódio de grande desgaste à imagem do governador foi a implantação do assim chamado Polo Automotivo Paranaense na cidade de São José dos Pinhais (PR). O poder público do Estado investiu mais de um bilhão de Reais para atrair para a região três montadoras multinacionais de automóveis. O processo foi marcado por práticas antirrepublicanas, antifederativas e pelo legado de um considerável impacto financeiro e ambiental, conforme denunciado em meu livro de 2017 “Urbanização e Industrialização no Paraná”, para ler clique aqui.

No que se refere às gestões como prefeito devemos à Lerner a criação de um sistema de ônibus que se revelou incapaz de se atualizar, de caráter obsoleto, caro e atualmente em processo de crise acelerada. O que deveria ser um sistema de transporte público se conservou desde a sua fundação, na primeira gestão de Lerner na prefeitura, privatizado nas mãos das mesmas famílias de proprietários. A esse respeito leia a coluna “A crise do Transporte Coletivo e o novo livro de Lafaiete Neves” clicando aqui.

Outros aspectos polêmicos das suas gestões como prefeito incluem a liberação da construção de shopping centers no centro da cidade, provocando atividades geradoras de tráfego intenso e com danos patrimoniais e ambientais significativos; a maneira pela qual foi construída e gerida a Cidade Industrial de Curitiba cujos incentivos chegaram a tal monta que liquidaram durante várias gestões a capacidade de endividamento da capital. A esse respeito cabe a leitura de meu livro “Curitiba e o Mito da Cidade Modelo” publicado em 2000, para obter a obra clique aqui.

Cinco anos se passaram desde a morte de Jaime Lerner e quase um quarto de século já decorreu desde que ele exerceu cargo público pela última vez. Desde então a Copel foi privatizada sem que tenha suscitado resistência significativa; os pedágios, o cartel do transporte coletivo, o uso indiscriminado da renúncia fiscal para atração de investimentos foram normalizados e passaram a ser tomados como fatalidades eternas e incontornáveis.

O tempo passa e tudo muda. Num país em permanente guerra contra seu passado como é o Brasil, a passagem do tempo implica em esquecimento da História e apagamento e redefinição da memória coletiva. Parece enfim ter chegado a época de se normalizar e tornar socialmente aceitável as homenagens à Jaime Lerner e proceder à entronização do Lernismo.


Dennison de Oliveira é Professor Sênior do Mestrado Profissional em Ensino de História da UFPR e autor do livro “Curitiba e o Mito da Cidade Modelo” publicado em 2000, para comprar a obra clique aqui.


Para ler outras colunas de Dennison de Oliveira clique aqui.

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