O calendário eleitoral de 2026 nos impôs, mais uma vez, o espetáculo deprimente da “janela partidária”. O que deveria ser um instrumento de ajuste democrático transformou-se, na prática, no ápice de um processo de degradação institucional. Testemunhamos uma feira de vaidades onde a coerência é descartada em troca de tempo de TV, fundos eleitorais e conveniências de ocasião. A política brasileira encontra-se prostituída, e os partidos, que deveriam ser os guardiões de visões de mundo, tornaram-se balcões de negócios onde o princípio é a mercadoria mais barata.
A falta de real vivência de ideais é a marca desta transumância política. Filósofos conservadores, como Edmund Burke, estabeleceram que o representante deve ao seu eleitor não apenas o seu trabalho, mas, acima de tudo, o seu julgamento e a sua integridade. Burke ensina que um parlamento deve ser um conjunto de indivíduos unidos pelo interesse nacional, e não um ajuntamento de facções em busca de vantagens paroquiais. No Brasil, o que vemos é o oposto: políticos que mudam de legenda como quem troca de figurino, revelando que a sigla é apenas um adereço para a manutenção do poder.
Essa ausência de raízes ideológicas é o que Russell Kirk chamaria de perda das “Coisas Permanentes”. Quando um líder político abandona seus princípios para abraçar uma sigla de orientação oposta, ele trai a confiança de quem o elegeu e corrói a segurança jurídica da representatividade. A política sem valores é uma carcaça vazia que serve apenas ao capitalismo clientelista, onde o Estado é fatiado entre amigos em troca de apoio parlamentar.
A regeneração da nossa República exige que resgatemos exemplos de integridade que parecem esquecidos nos corredores de Brasília. Recentemente, a obra Páginas da Vida, do Ministro Indalécio Gomes Neto, trouxe lições que deveriam ser obrigatórias para qualquer postulante a cargo público. Indalécio, um gigante que venceu as barreiras da vida através do estudo e do trabalho ético, afirma com clareza que o homem público deve estar acima de interesses menores e ideologias rasteiras.
Essa busca por uma vida reta e estável é o que falta na nossa classe política atual e mesmo no judiciário, que já tem quase feito parte do espectro político tamanho desalinhamento geral. A prática da janela partidária nos entrega políticos voltados exclusivamente para a manutenção de seus próprios privilégios. A justiça brasileira e o nosso parlamento carecem desse perfil que prioriza projetos para a nação em vez de estratégias de sobrevivência pessoal.
Caro (a) leitor (a), o momento exige um olhar clínico e implacável sobre aqueles que nos pedem o voto. Façamos uma provocação necessária: quantas vezes a pessoa que agora baterá à sua porta mudou de partido nos últimos anos? Existe alguma coerência entre o que ela dizia ontem e a legenda que ela abraça hoje?
Alguém que demonstra tamanha volatilidade partidária possui a idoneidade necessária para representar seus valores no Congresso ou nas assembleias? A mudança constante de posição é o maior indício de que o candidato sacrificará o seu bem-estar e a sua representatividade assim que surgir uma oferta mais vantajosa no “mercado” das coligações. Precisamos de representantes que tenham o perfil necessário para legislar com seriedade, zelando pelo direito de todos os brasileiros de bem de viverem em um país com respeito e justiça.
O eleitor tem o dever cívico de analisar a trajetória e o que o candidato já fez durante sua vida pública ou privada. Não podemos mais aceitar a retórica vazia e as promessas irrealizáveis que ignoram a Constituição. A esperança para 2026 reside na escolha de nomes que honrem a palavra empenhada e que vejam o partido como um compromisso moral, e não como um balcão de prostituição.
O Brasil precisa de grandes reformas, mas a primeira delas deve ocorrer dentro da nossa consciência como eleitores. Votar com responsabilidade é o único caminho para colocarmos o país nos trilhos, acabando com os privilégios e elegendo quem realmente respeita o sentido do pertencimento institucional. O futuro exige coerência. E a coerência começa na análise rigorosa da história de quem deseja o seu voto.
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2 comentários em “A janela partidária e a morte dos ideais”
excelente análise e neste contexto oque sobrou de políticos e partidos? Em parte o Novo e o PL, mas estes também tem este problema, mas ser puritano neste inferno é ser trouxa também. Vemos os nossos políticos paranaenses, Mouro, Deltan, Gramel… tb pularam de partidos, mas ficar num navio ou num grande se poder concorrer tb não dá.
Excepcional materia! Onde estao as conviccoes politicas dos candidatos? Tudo pelo interesse proprio. Deprimente.
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