Quando se fala em oliveira, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a garrafa de azeite sobre a mesa, e não é por acaso. Nas últimas décadas, ele se consolidou como um dos alimentos mais estudados quando o assunto é prevenção de doenças cardiovasculares e envelhecimento saudável. No entanto, limitar os benefícios dessa planta ao azeite significa conhecer apenas uma parte da sua história, já que a oliveira reúne compostos bioativos distribuídos entre suas folhas e frutos, cada um com funções diferentes para o organismo.
Esse interesse crescente pelo azeite acompanha uma tendência observada entre pesquisadores e especialistas em longevidade, que frequentemente o incluem como principal fonte de gordura da alimentação. Na prática, porém, eles apenas reforçam um hábito que acompanha os povos do Mediterrâneo há mais de seis mil anos. Muito antes de a ciência comprovar seus benefícios, a oliveira já era considerada um símbolo de saúde, vitalidade e longevidade.
Embora o azeite seja o protagonista dessa história, existe uma parte da oliveira que permanece pouco conhecida: suas folhas. Elas concentram naturalmente quantidades maiores de oleuropeína do que o próprio azeite, um dos polifenóis mais estudados da oliveira. Isso acontece porque, durante a produção do azeite, grande parte da oleuropeína presente no fruto não permanece no óleo, mas é perdida na água de vegetação. O resultado é que folha e azeite oferecem compostos bioativos diferentes e complementares.
Esse potencial da folha vem sendo cada vez mais investigado pela ciência. Meta-análises e ensaios clínicos indicam que o extrato padronizado da folha de oliveira pode auxiliar na redução da pressão arterial em pessoas hipertensas, contribuir para o controle da glicemia e favorecer um perfil mais saudável de colesterol e triglicerídeos. Estudos também investigam sua ação contra diferentes bactérias e fungos, o que ajuda a explicar por que suas folhas foram utilizadas durante séculos na medicina tradicional mediterrânea.
Diante desses benefícios, a folha da oliveira pode ser consumida na forma de infusão ou por meio de extratos padronizados, sempre com orientação profissional. Apesar de ser um recurso natural, pessoas que utilizam medicamentos para hipertensão, diabetes ou anticoagulantes devem conversar com o médico antes de iniciar a suplementação, já que seus compostos podem potencializar o efeito desses medicamentos.
Além das folhas, o azeite extra-virgem continua sendo uma das partes mais valorizadas da oliveira e um dos alimentos mais completos da alimentação. Existe, porém, um detalhe que merece atenção e costuma passar despercebido: a data de envase. Com o passar dos meses, parte dos polifenóis diminui naturalmente, fazendo com que um azeite mais fresco preserve melhor compostos como oleocantal, hidroxitirosol, oleaceína e esqualeno, substâncias associadas à proteção cardiovascular, ao combate ao estresse oxidativo e à saúde da pele.
Por esse motivo, vale a pena observar mais do que a marca ou o preço do produto. Azeites com envase recente tendem a oferecer uma concentração maior desses compostos bioativos e, nesse aspecto, os produzidos no Brasil costumam levar vantagem por chegarem ao consumidor em menos tempo. Isso não significa que um azeite mais antigo deixe de ser uma boa escolha, pois mesmo com menor quantidade de polifenóis, ele continua sendo uma excelente fonte de ácido oleico, uma gordura monoinsaturada amplamente reconhecida pelos benefícios para o coração e para o metabolismo.
Mais do que escolher um bom azeite, compreender a oliveira como um todo permite aproveitar melhor seus diferentes benefícios. Da folha ao fruto, cada parte oferece compostos bioativos próprios e complementares, mostrando que essa planta pode ocupar um espaço ainda mais amplo dentro de uma rotina voltada à saúde e à longevidade.
Leia outras colunas da Fernanda Ghignone aqui.



