Se um cientista político estrangeiro resolvesse estudar o sistema partidário brasileiro, provavelmente pediria um intervalo depois da primeira semana. Não por falta de dados, mas por excesso de incoerência.
A lógica clássica é simples. Um partido escolhe um candidato à Presidência. A partir daí, seus quadros defendem essa candidatura pelo país. Quem discorda tem duas opções: tentar mudar a decisão internamente ou procurar outro partido.
No Brasil, no entanto, inventamos uma terceira alternativa: permanecer no partido e apoiar o adversário.
O caso mais vistoso do momento envolve o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, lançado como pré-candidato ao Planalto pelo PSD. Em tese, isso significaria que o partido inteiro estaria mobilizado para sustentar sua candidatura.
Em tese.
Na prática, o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, também do PSD, resolveu simplificar o problema e anunciou apoio direto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Tenho enorme respeito pelo governador Caiado, mas meu candidato a presidente é um só: Lula”, disse ele.
É uma solução elegante. Mantém o respeito, elimina o constrangimento e ignora completamente o candidato do próprio partido.
Em um sistema partidário minimamente sério, isso geraria uma crise interna monumental. No Brasil, gera apenas uma nota de rodapé.
O humorista Groucho Marx já havia explicado esse fenômeno décadas atrás. “A política é a arte de procurar problemas, encontrá-los em toda parte, diagnosticá-los incorretamente e aplicar os remédios errados”, declarou ele.
O humorista só não imaginava que existiria um país onde o diagnóstico errado viraria método de governança.
O curioso é que o caso do PSD está longe de ser exceção. É apenas o exemplo mais fresco daquilo que virou regra estrutural da política brasileira.
Em vários estados, alianças locais misturam partidos que, no plano nacional, se apresentam como adversários irreconciliáveis.
O PT, por exemplo, já governou estados e cidades em coligações que incluíam siglas tradicionalmente classificadas como de direita ou centro-direita, como o próprio PSD, o PP ou o MDB.
Ao mesmo tempo, partidos que no discurso nacional fazem oposição feroz ao PT frequentemente mantêm alianças administrativas ou eleitorais com ele em estados e municípios.
É a política do “cada palanque é um universo paralelo”.
No plano nacional, o Brasil vive uma guerra quase religiosa entre lulistas e bolsonaristas. Nas redes sociais, o clima é de cruzada medieval.
Enquanto isso, em muitos estados, líderes desses mesmos campos políticos aparecem tranquilamente no mesmo palanque.
É o milagre da política brasileira. A polarização absoluta convivendo com alianças absolutamente pragmáticas.
Maquiavel escreveu que “os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio”. Se estivesse vivo hoje, talvez acrescentasse um adendo brasileiro. Políticos esquecem mais rapidamente o próprio partido do que a próxima eleição.
Porque, no fundo, a ideologia dominante na política nacional não é esquerda, direita ou centro. É sobrevivência eleitoral.
Partidos viraram condomínios eleitorais. Cada líder ocupa sua unidade ideológica, faz a decoração política que quiser e, se necessário, troca de vizinho sem mudar de endereço.
E o eleitor? Ah, o eleitor.
Enquanto os políticos fazem alianças transversais e pragmaticamente amorosas, milhões de brasileiros seguem brigando entre si com fervor religioso. Rompem relações familiares, perdem amigos, insultam colegas, grupos de WhatsApp viram trincheiras, tudo em nome de líderes que, no plano real, muitas vezes estarão juntos na próxima fotografia de campanha.
O filósofo Voltaire dizia que “aqueles que podem fazer você acreditar em absurdos podem fazer você cometer atrocidades”.
Na política brasileira, a frase ganhou uma atualização tupiniquim: aqueles que convencem o eleitor de que a política é uma guerra ideológica permanente conseguem governar tranquilamente no meio da confusão.
E assim seguimos.
Partidos que têm candidato, mas não têm apoio. Adversários que brigam em Brasília, e governam juntos nos estados. Eleitores que guerreiam entre si, enquanto os políticos fazem acordos. No Brasil, a fidelidade partidária não morreu. Ela apenas nunca chegou a nascer.
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