Existe algo profundamente brasileiro na capacidade de transformar qualquer pesquisa eleitoral em final de Copa do Mundo. Basta aparecer um gráfico colorido, uma porcentagem mais vistosa e pronto, surgem imediatamente os especialistas de grupo de WhatsApp, os estatísticos de churrascaria e os devotos políticos profissionais. Todos convencidos de que a história acaba de ser escrita diante dos seus olhos marejados.
Foi exatamente o que aconteceu após a divulgação da pesquisa Veritá para o governo do Paraná, registrada na Justiça Eleitoral sob o nº PR-09542/2026. Bastou o senador Sergio Moro aparecer com pouco mais de 50% das intenções de voto para seus admiradores já agirem como se o ex-juiz já estivesse escolhendo a cor das cortinas do Palácio Iguaçu.
Calma, gente. Muito calma.
Diria Machado de Assis que “o olho do homem serve de fotografia ao invisível, como o ouvido serve de eco ao silêncio”. Traduzindo para o português eleitoral, às vezes o sujeito olha para uma pesquisa e enxerga nela muito mais aquilo que deseja do que aquilo que realmente está escrito.
Porque o dado realmente importante da pesquisa, e que o HojePR já destacava na quarta-feira (6), não é a liderança de ninguém. O dado importante é outro. Mais de 70% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar para governador.
Sete em cada dez.
Isso significa que o eleitor paranaense, neste momento, está tão preocupado com a eleição de 2026 quanto com o campeonato de bocha do Azerbaijão.
O cidadão médio está tentando descobrir como pagar o supermercado, sobreviver ao preço do café, parcelar o IPVA, entender por que o combustível sobe mais rápido que elevador de prédio comercial e decidir se vale mais a pena financiar um carro ou um pacote de arroz.
A eleição? A eleição está tão distante da cabeça das pessoas quanto dieta está da cabeça de quem entra em rodízio de pizza dizendo “hoje eu mereço”.
Mas os fanáticos políticos são assim. Funcionam numa lógica própria. Se o candidato deles aparece numericamente acima dos outros, já começam os fogos, os vídeos triunfais, os discursos messiânicos e aquela clássica fabricação artesanal de hegemonias imaginárias.
Só esqueceram de um detalhe matemático quase constrangedor. Comemorar mais de 50% das intenções de voto dentro de um universo em que mais de 70% não escolheu candidato é uma espécie de delírio estatístico coletivo.
É como comemorar liderança de campeonato antes de vender os ingressos do jogo.
Na prática, Moro lidera entre uma parcela muito pequena dos entrevistados que efetivamente arriscou algum nome. O resto simplesmente respondeu algo próximo de “meu amigo, eu mal sei o que vou jantar hoje, você acha que eu estou pensando em governador de 2026?”
E há outro problema que os entusiastas preferem esconder embaixo do tapete: a rejeição.
Tanto Moro quanto Requião Filho possuem índices de rejeição altíssimos. Daqueles que fazem marqueteiro ter gastrite crônica. Porque eleição não é concurso de lembrança. É disputa de aceitação. E rejeição consolidada costuma ser mais difícil de remover do que mancha de vinho em sofá claro.
No caso de Moro, existe ainda um agravante quase estrutural. Simpatia nunca foi exatamente seu principal atributo político. O senador transmite a leveza emocional de um scanner de aeroporto. Seu estilo sempre funcionou melhor no ambiente técnico da magistratura do que na selva da política tradicional, onde apertar mão, sorrir espontaneamente e parecer minimamente caloroso ainda contam pontos importantes.
Com rejeição elevada e carisma de planilha de Excel, não há eleição ganha antecipadamente.
Aliás, talvez seja exatamente aí que more o maior erro de parte do eleitorado brasileiro. Transformar político em figura religiosa. Escolhem um novo salvador a cada ciclo eleitoral e passam a tratar qualquer pesquisa como revelação divina escrita em pedra.
Política não funciona assim.
Pesquisa feita com essa antecedência serve muito mais para medir lembrança momentânea do que voto consolidado. O eleitor ainda vai mudar de humor, mudar de preocupação, mudar de candidato, mudar de raiva e, provavelmente, mudar até de aplicativo favorito antes da eleição chegar.
Por isso, talvez seja prudente diminuir um pouco os rojões no quartel do senador.
Porque comemorar liderança absoluta num cenário em que sete de cada dez eleitores não sabem em quem votar é mais ou menos como erguer taça de campeão depois do treino de aquecimento.
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