(Com base em relatos de ex-integrantes do Movimento SOS Arthur Bernardes)
O fenômeno não é novo. A ciência política o conhece bem. Foi o advogado e político francês Pierre Victurnien Vergniaud quem sintetizou a questão em uma frase que atravessou séculos: “A Revolução devora seus filhos”.
A ironia da história é que o próprio Vergniaud acabou servindo de exemplo para a própria teoria. Entusiasta da Revolução Francesa, participou ativamente da queda da monarquia, presidiu a Convenção Nacional e esteve entre os responsáveis pelo julgamento que levaria Luís XVI à guilhotina. Pouco tempo depois, acusado de não ser revolucionário o suficiente pelos antigos companheiros, terminou exatamente da mesma forma. Condenado e executado em nome da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Na pequena revolução verde da Arthur Bernardes, felizmente ninguém perde a cabeça de forma literal. Mas algumas cabeças rolam, ao menos politicamente.
No início, como ocorre em quase todo movimento espontâneo, a causa une. Todos têm voz. Todos participam. Não existem líderes nem liderados. Existe apenas um objetivo comum e um adversário claramente identificado: a Prefeitura.
A fase romântica, porém, costuma ter prazo de validade.
À medida que os discursos se tornam mais inflamados e as discussões técnicas dão lugar às disputas ideológicas, o ambiente começa a mudar. Partidos políticos se aproximam. Mandatos enxergam oportunidades. Candidatos aparecem. Militâncias se apresentam. A pauta original deixa de ser suficiente.
Já não se trata apenas das árvores da Arthur Bernardes. A causa agora precisa ser maior. Muito maior.
Passa a envolver capitalismo, aquecimento global, fascismo, grandes corporações, crise climática e todas as demais batalhas contemporâneas. Quem insiste em discutir exclusivamente alternativas para preservar árvores específicas passa a ser visto como alguém de visão limitada. Pequeno demais para a grandiosidade da luta.
O movimento que nasceu local torna-se vitrine. O que antes era uma mobilização de moradores passa a ser associado a coletivos, organizações, frentes, articulações e outras estruturas que normalmente representam poucas pessoas, mas produzem muito ruído nas redes sociais.
Juntam-se a eles vereadores, deputados, pré-candidatos e candidatos dos mais variados matizes ideológicos, todos igualmente preocupados com a causa, ou com a visibilidade proporcionada por ela.
Naturalmente, existem exceções. Há pessoas sinceramente comprometidas. Há militantes honestos e até há políticos bem-intencionados.
Mas toda revolução produz sua burocracia. E quando a burocracia surge, a igualdade costuma ser a primeira vítima.
As decisões coletivas passam a depender da aprovação de grupos específicos. Enquetes deixam de valer porque não foram combinadas previamente. Deliberações deixam de ser legítimas porque não passaram pelos canais adequados. Até a senha das redes sociais, antes compartilhada por todos, passa a ficar concentrada nas mãos de poucos.
Tudo em nome da organização, da eficiência e em nome da democracia.
O movimento horizontal descobre as virtudes da hierarquia. O movimento espontâneo aprende a importância do controle. O movimento libertário passa a apreciar disciplina, coordenação e centralização.
Afinal, toda revolução tem seus paradoxos. E a Revolução Verde da Arthur Bernardes parece estar descobrindo os mesmos que desafiaram os franceses há mais de duzentos anos.
Enquanto isso, seus Vergniauds continuam sendo guilhotinados. Às vezes seus Dantons. Eventualmente seus Robespierres.
Porque revoluções mudam de discurso, mudam de liderança, mudam de bandeira. Mas raramente abandonam o hábito de devorar os próprios filhos.
P.S.: O adversário original desse pessoal continua sendo a prefeitura e seu suposto plano maligno de melhorar o transporte coletivo mediante a remoção de aproximadamente cem árvores, grande parte já condenada, apesar de ter promovido o plantio de quase 200 mil mudas nos últimos anos. Mas esse detalhe, naturalmente, costuma atrapalhar uma boa narrativa revolucionária.



