A maionese azedou. E azedou feio. Daquelas que ficam esquecidas no porta-malas do carro depois do churrasco de domingo e só vão ser descobertas quando já estão criando vida própria. Tudo indica que o clima entre Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Murilo Hidalgo, dono da Paraná Pesquisas, não anda exatamente republicano. Talvez nem civilizado. Melhor não pensar em café entre os três.
Porque convenhamos, quando um partido contrata uma pesquisa, a expectativa mínima é sair bonito na foto. Nem precisa parecer galã de novela mexicana, mas pelo menos com cara de quem ainda tem futuro político pela frente.
O problema é que o levantamento da Paraná Pesquisas divulgado nesta segunda-feira (11) resolveu tratar Moro como aqueles técnicos de futebol que começam o campeonato sendo chamados de “professor” e terminam a temporada ouvindo a torcida gritar impropérios impublicáveis.
O levantamento, contratado justamente pelo PL, partido do senador, mostrou Moro despencando quase quatro pontos percentuais. Repito para quem estava distraído olhando o feed: a pesquisa foi paga pelo partido dele. É como contratar fotógrafo para casamento e receber álbum com foto da sogra chorando e do noivo bocejando.
E eu já tinha avisado. Na coluna de 27 de abril, este humilde observador da fauna política paranaense alertava que Sergio Moro havia batido no teto. E teto político é igual teto de apartamento antigo, depois que chega nele, não tem mais para onde subir. Só resta infiltração, mofo e queda de reboco eleitoral.
Hoje estou mais para cronista esportivo, daqueles que exageram nas frases feitas típicas da falta de vocabulário. Então, me permito comparar Moro a um jogador que começou a carreira como Cristiano Ronaldo e está terminando igual atacante veterano entrando aos 43 do segundo tempo para “dar experiência ao elenco”.
A aura de super-herói da Lava Jato vai ficando distante. O eleitor olha, reconhece o rosto, lembra vagamente do passado glorioso, mas já não vê mais o mesmo brilho. É quase um DVD riscado da República de Curitiba.
E se Moro saiu da pesquisa com cara de quem descobriu que o elevador social está em manutenção, Deltan Dallagnol não ficou muito melhor na fotografia.
O ex-deputado, cassado, lembremos, viu o ex-senador Alvaro Dias abrir vantagem considerável na disputa pelo Senado. E isso dentro de uma pesquisa paga, lembremos novamente, justamente pelo partido do velho amigo, aliado, irmão camarada, companheiro de fé.
A situação de Deltan lembra aqueles personagens de desenho animado que correm olhando apenas para frente e esquecem dos adversários logo atrás. Porque enquanto ele vê, pelo vidro da frente, Álvaro Dias abrir distância, quando olha pelo retrovisor encontra Gleisi Hoffmann, Alexandre Curi e Filipe Barros vindo embalados e colados nele em empate técnico.
É trânsito pesado na pista eleitoral.
Aliás, o cenário começa a ficar perigosamente parecido com aquelas provas de Fórmula 1 em que o piloto percebe tarde demais que os pneus acabaram. O carro ainda anda, mas cada curva vira uma oração.
Nos bastidores, muita gente ficou surpresa. A pesquisa do Murilo Hidalgo veio crua, seca e sem vaselina política. E aí nasce o constrangimento. Porque aparecer desfigurado em pesquisa adversária é uma coisa. Agora, perder terreno em levantamento pago pelo próprio grupo político é quase como organizar festa surpresa e descobrir que ninguém confirmou presença.
No fim das contas, a impressão que fica é que a República de Curitiba vai se parecendo cada vez mais com banda de rock dos anos 80, onde os integrantes ainda fazem turnê, ainda têm fãs nostálgicos, mas já brigaram entre si, perderam o auge e vivem tentando recriar um sucesso que ficou preso no passado.
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