Há momentos na política em que a ingenuidade humana atinge níveis quase científicos. Esta semana foi um deles.
O episódio envolve uma certa surpresa, aparentemente sincera, de alguns deputados do PL e do Novo diante de uma sequência de exonerações na estrutura do governo do Paraná.
O cenário é conhecido. Deputados dessas legendas resolveram deixar a confortável órbita política do governador Ratinho Junior e passaram a frequentar outro planeta eleitoral, mais especificamente, aquele que gira em torno do senador Sergio Moro.
Até aí, democracia funcionando.
O detalhe curioso é que alguns desses mesmos parlamentares pareciam convencidos de que seria perfeitamente possível trocar de lado na disputa política sem que nada mudasse na administração estadual. Como se a política fosse um clube de férias. Troca-se de mesa no jantar, mas continua usando a piscina do hotel.
Pois bem. No início da semana, os corredores do Palácio Iguaçu ficaram um pouco mais silenciosos. Não por falta de assunto, mas por falta de cargos.
Uma sequência de exonerações atingiu vários cargos comissionados ocupados por indicados desses grupos políticos.
Nada pessoal. Apenas a velha e boa matemática da política. Quem sai da base, normalmente leva junto as cadeiras que ocupava na sala.
Consta que a reação foi intensa. Telefones tocaram, mensagens voaram, reuniões aconteceram.
Mas tudo num volume curioso. Alto em privado, baixíssimo em público. Uma gritaria que ninguém ouviu. Algo muito parecido com aquela velha parábola do jacaré. Boca grande, cheia de dentes, mas na hora de usar… faz biquinho.
E por que tanto silêncio?
Simples.
Alguns deputados ainda alimentam a expectativa de continuar recebendo emendas parlamentares do governo estadual para atender suas bases eleitorais.
O que nos leva a uma pergunta quase filosófica.
Em pleno ano eleitoral, deputados que já estão alinhados à candidatura do adversário do governador realmente acreditam que continuarão abocanhando recursos do mesmo governo?
Como diria um meu irmão, Agamenon, “santa ingenuidade, Batman”.
Nos bastidores também apareceu uma versão ainda mais criativa da história. Certos blogues, aqueles que tratam rumor como se fosse documento público, começaram a insinuar que a reação viria na forma de CPIs contra o governo.
A ideia é bonita. O problema é que, para abrir CPI, é preciso número. E, nesse quesito, a aritmética da Assembleia costuma ser cruel com quem faz conta no entusiasmo.
Além disso, quem ainda acredita que pode ganhar alguma boquinha, dificilmente começa o dia chutando a porta do gabinete do governador.
Mas há um efeito político mais interessante nessa história.
As exonerações ajudam a desmontar uma especulação que vinha circulando com entusiasmo em certos círculos políticos. A tese de que Ratinho Junior poderia, em algum momento, apoiar a candidatura de Sergio Moro.
Convenhamos. Se essa hipótese estivesse realmente no radar do governo, começar demitindo indicados de aliados do senador seria uma estratégia no mínimo… excêntrica.
A política tem muitas ironias, e eu posso queimar a língua, mas raramente chega a tanto.
O fato é que a campanha eleitoral já começou a dar as caras no Paraná. E quando isso acontece, a política costuma abandonar os sorrisos institucionais e voltar ao seu estado natural. O de disputa aberta.
Nessas horas, sempre vale lembrar uma frase do velho deputado Aníbal Khury, que conhecia como poucos os mecanismos da política: “Vamos à guerra com todos os seus horrores.”
Pelo que se viu nos últimos dias, alguns ainda estavam achando que a guerra seria apenas um debate educado.
Descobriram agora que, na política, até a cadeira pode ser removida antes de alguém sentar.
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